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GDIÁRIO DO AMAPÁ GDOMINGO E SEGUNDA-FEIRA 124 E 25 DE FEVEREIRO DE 2019

8 DIRETOR SUPERINTENDENTE LUIZ MELO

Pol

1ca

Diário Amapá

ENTREVISTA

8

Em exclusiva ao Estadão, Randolle avalia

1

ºs passsos do governo Bolsonaro eaté reconhece que 'militares não são problema'

RandolfeRodrigues:

11

Sobrou para os mais pobres"

"Areforma da previdência foi anunciada como combate aosprivilégios. Mas os ditosprivilégios, que são as grandes aposentadorias dos serviçospúblicos edos políticos, só representam 20%

da economia de R$1,1trilhão anunciada peloministro PauloGuedes. R$ 900 biestão no regime geral da previdência pública, que

é

parte dos maispobres.Sobrou para os maispobres".

Q

uando Randolfe propôs um convite para Gustavo

Bebianno depor na Casa, decidi procurá-lo, para

falar um pouco sobre o que vem sendo o trabalho

de oposição a este governo. Randolfe lidera um bloco de

14 senadores de 4 partidos, que ganhou o nome de "Senado

Independente". Com o PT de fora, o bloco propõe um

novo espírito de oposição, em uma tentativa de dialogar

com o recado que veio das urnas.

Como é que está se articulando essa força de oposi–

ção?

Fui designado por uma circunstância do regimento do

Senado. A oposição sempre é o maior bloco parlamentar

que se opõeideologicamente ao campo em queestá o gover–

no. Nosso bloco reúne Rede, PDT, PPS e PSB. Esse bloco

é maior que o bloco do PT. Embora o PT também seja de

oposição, nosso bloco não tem o PT.

Por que não tem o PT?

O último ciclo político, de ascensão do bolsonarismo,

tem muita responsabilidade do petismo. Não queremos res–

tabelecer ou manter urna polarização que resultou na siruação

em que estamos. Depois de 2018, o sistema político tem

que ser reinventado. Temos que entender o recado das

urnas.Então resolvemos constituir algo novo, uma forma

nova de atuar, de fazer oposição.

No que ela se diferencia?

Temos respeito pelo PT e sua localização no campo da

oposição, provavelmente aruaremosjuntosem várias frentes,

mas temos também diferenças na forma como o PT vinha

fazendo essa oposição. Não vamos fazer uma oposição para

paralisar o Brasil. Não somos uma oposição sistemática.

Estamos em campo oposto ao governo mas vamos debater

cada tema com maturidade, defendendo os direitos indivi–

duais, a democracia, dialogando com as refonnas que o Bra–

sil precisa.

Como você definiria o PSL?

O PSL é o resultado da ruptura de um processo histórico

inaugurado pela redemocratização. Tinha 8 deputados, agora

conta com a maior bancada da Câmara.

É

a expressão dos

novos tempos.

Não é curioso que justamente o caixa dois tenha sido

fatiado no pacote anticrime de Sergio Moro?

Mais curioso é a nova declaração de Moro ("o caixa dois

é um crime grave, mas não tem a mesma gravidade que cor–

rupção, crime organizado e crimes violentos"). O que já

tinha sido criminalizado pela sociedade brasileira, ele pra–

ticamente descriminalizou. Este fatiamento do pacote em 3

partes, uma para segurança pública, outra para corrupção e

a terceira para caixa dois, sepultou qualquer possibilidade

de termos algum marco legal sobre corrupção. Poderemos

avançar em tennos de segurança pública mas me parece

que as outras partes estão condenadas aos arquivos.

O que o governo Bolsonaro fez de bom até aqui?

O que poderia ter de bom era o pacote de Sérgio Moro,

mas este está sob risco, houve uma clara concessão do gover–

no

à

pressão de parte de sua própria base.

E a reforma da previdência?

Partimos do pressuposto que a reforma da previdência

é necessária, mas divergimos sob vários aspectos, da forma

como ela foi apresentada.

Como assim?

Foi anunciada como combate aos privilégios. Mas os

ditos privilégios, que são as grandes aposentadorias dos ser–

viços públicos e dos políticos, só representam 20% da eco–

nomia de R$1,1 trilhão anunciada pelo ministro Paulo Gue-

des. R$ 900 biestão no regime geral da previdência pública,

que é parte dos mais pobres.

É

a retirada de direitos. A isso

vamos nos opor.

20% e80%?

Nas nossas contas, sim. Os servidores públicos e a apo–

sentadoria dos políticos representam uma economia de só

R$ 200 bilhões. Já o regime geral da previdência pública,

os abonos salariais, o BPC - Benefício de Prestação Con–

tinuada, representam 80%.

Então onde está a retirada dos privilégios?

Estão retirando o direito dos mais pobres. E estão com–

batendo menos os privilegiados.

Quando

fui

eleito, em 2011, renunciei

à

previdência dos

congressistas e entrei no regime geral da previdência social,

como qualquer cidadão brasileiro. Se eu tivesse aceito rece–

beraposentadoria de congressista, ao final deste meu segun–

do mandato eu teria uma aposentadoria de

R$

16 mil.

Até morrer?

R$

16 mil até meus últimos dias de existência, e poderia

deixar essa aposentaria para minha pensionista.

Enquanto isso o grosso do povo recebe quanto?

Os mais pobres, um salário mínimo. Os que estão no

regime geral da previdência pública, no máximo

R$

4 ou

R$ 5 mil. Veja a diferença gritante.

Nesta proposta, o governo mexe com a aposentadoria

dos servidores públicos, já a altera de imediato. Mas esta

dos congressistas, só para os novos eleitos do fururo. Os de

agora vão continuar recebendo. Onde está combate aos pri–

vilégios?

Então em primeiro lugar, a refonna tem que ser para

todos, civis e militares, e isso precisa tramitar junto no Con–

gresso. Em segundo, tem que atacar os privilégios mesmo,

e em terceiro não pode ser refonna somente da previdência.

Veja, o governo não mexeu um centavo nas desonerações,

boa parte delas ocorreram no governo petista.

Qual a leitura que voc:ê faz, do momento atual deste

governo?

Olha, o governo está tendo muita dificuldade com o

Congresso e pode levar o Brasil a uma crise gravíssima.

É

um governo sustentado em duas pernas. Primeiro, uma espé–

cie de moralismo de goela. Esse moralismo está se esface–

lando com o escândalo dos laranjas e a frustração com o

pacote anticorrupção. O outro pilar é a reforma da previ–

dência. Que pode demorar para ser entregue.

Como está estruturado este governo?

O governo é constituído por vários núcleos. Mas o

comando do presidente vem se demonstrando frágil. Tem

o núcleo da família, um pequeno núcleo político, tem o

núcleo dos militares, tem o núcleo ligado ao Moro, e o

núcleo ligado ao Paulo Guedes. Tem vários núcleos de

comando. O problema é a falta de comando, a ausência

de autoridade de governo em torno do presidente. Um

presidente que se anuncia como autoritário mas começa

sem autoridade.

Porém, o presidente passou um tempo hospitali–

zado.

De fato isso não deve ser relevado, mas ainda assim,

pelo tempo que está no governo, ele tem revelado fragilidade.

Não está

à

altura de um presidente bater boca via whatsapp

com um subalterno, isso para mim enfraquece a autoridade

e a magistratura do cargo.

Ontem mesmo

li

um texto de Luis Fernando Veris–

simo, comparando Bolsonaro com Collor...

Tem similaridades. Mas acho que o início de Bolsonaro

tem se revelado mais frágil do que foi com Collor.

Como está Flavio Bolsonaro?

Tem estado quieto, tem sido pouco expressivo. Ele foi

muito abatido.

E o que dizer sobre a presença militar no governo?

Os militares não são problema.

Talvez solução (risos).

Talvez sejam até solução. Os quadros militares que tem

no governo são os melhores possíveis. São quadros que dig–

nificam as Forças Armadas. Esse é um aspecto novo da

oposição. Enquanto tem setores de antigamente que colocam

as Forças Armadas como problema, para nós elas não são

um problema.

Parece que neste novo sistema político pós 2018, as

redes sociais representam papel importante. Isso é bom?

Em que medida?

Elas são uma realidade, com um papel de intervenção na

política reconhecido. Sem elas porexemplo, talvez não teria–

mas deixado devotar em Renan.Asredes podem ser um parâ–

metro, mas gerir ummandato parlamentarpor twitter, é reduzir

o papel da representação parlamentar.

É

uma realidade nova

com a qual o parlamento tem que dialogar. Mas

é

importante

lembrar que as redesnão representam necessariamente o pen–

samento do povo, há muitas tags fabricadas.

As redes podem ser um parâmetro, mas ferir um man–

dato parlamentar por twitter, é reduzir o papel da repre–

sentação parlamentar.

É

um a realidade nova com a qual

o parlamemento tem que dialogar. Mas é importante lem–

brar que as redes não representam necessariamente o pen–

samento do povo, há muitas tags fabricadas-adita o sena–

dor Randolfe, na polêmica entrevista ao jornal O Estado

de São Paulo (Estadão).