Diário do Amapá - 11/02/2020

LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. ZIULANA MELO Editora Chefe MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIO DE COMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) www.diariodoamapa.com.br / / árias soluções são constantemente lembradas sempre com a ideia de devolver ao Brasil seus melhores dias e ocupar sua importância no mundo. Vale lembrar que de 1968 a 1973 o PIB brasileiro saltou de 9,8% para 14%, época do regime militar, período que ficou conhecido como o Milagre Brasileiro e de Anos de Chumbo. A continuidade política prevaleceu tendo como base a gestão de Juscelino Kubitschek, quando a economia exibiu um crescimento econômico susten- tável apoiado no Plano de Metas de JK, cujo programa sugeria o crescimento de 50 na gestão em cinco anos. Procurar as causas desse avanço identificava-se que a razão maior se devia à continuidade admi- nistrativa do governo JK. O que se lamenta agora no país é a des- continuidade dos programas estabelecidos por administrações anteriores que não seguem o cronograma anteriormente apro- vado com raízes ligadas à vaidade na manutenção de planos fora da sua autoria. No governo de Lula, nos seus primeiros anos, seguiam-se a política deixada e desenvolvida por Itamar Franco e Fernan- do Henrique Cardoso, criadores do Plano Real que tirou do país o espantalho da inflação. Nos primeiros anos de Lula o país respirava confiança, a mesma da linha do período militar que usava o mote “Brasil, ame-o ou deixe- o”. Depois da ausência do dinhei- ro da China e a ganância da per- petuidade de poder retrata o que está aí. É constante a falta de continui- dade administrativa na política bra- sileira, seja nas áreas municipal, estadual e federal. Para tornar mais clara a tese, ligo o exemplo do programa criado no Rio de Janeiro para atender à educação com a construção de 502 esta- belecimentos escolares, com o nome de Centro Integrado de Educação Pública (Ciep), obra conjunta do arquiteto Oscar Niemeyer, do professo DarcI Ribeiro e de Leonel Brizola, quando duas vezes dirigiu o estado. Louvado pelo mundo inteiro como ini- ciativa para quantificar a educação entre as classes menos favorecidas acabou com vida curtíssimas tão logo a administração estadual passou para outras mãos que em nada justificava o abandono do programa, claramente, por não ser de autoria dos novos governantes. Foi um pecado nacio- nal lamentado pelo mundo inteiro porque a opção estrangeira era de que a pro- gramação procurava amparar os mais pobres e a imensa população jovem. O mau exemplo deixado pelos sonegadores do sonho dos mais pobres estudarem em estabeleci- mentos que lhes ofereciam tempo integral nos colégios e escolas, apoiado em assistência médica, odontológica, psicológica e, sobre- tudo, alimentar e aptidão física, deixou de ser um ato desabonador para a cultura das regiões, como também grave desserviço à altura, pois a clientela eram jovens da infância à adolescência com ajuda que a pobreza dificultava o acesso. O sociólogo Darci Ribeiro alertou que fechar as portas de programa igual ao Ciep era correr o risco de, em pouco anos, pelo desamparo da juventude, alimentar o aparecimento de muitos trombadinhas, vaticínio que hoje é realidade no Brasil. O país enfrenta sério desequilíbrio na ati- vidade da juventude, ficando clara que a razão, a vertente, se apoia na visível vai- dade dos homens públicos brasileiros, preocupados apenas com seu ego pessoal, deixando o rio correr com sua maré furio- sa, porque pouco lhes afeta. ão acredito em evolução social. Sus- peito que andamos em círculos, indo pra lugar nenhum. Com isso não quero negar que “ganhamos algum terreno” em rela- ção a situações desagradáveis aqui e ali (aumento de longevidade, eliminação em gran- de escala da escravidão e coisas semelhantes) nem que sejamos absolutamente dominados pela contingência cega. Conseguimos controlar várias dimensões da vida. E são exatamente estas formas de con- trole que apontam para o “futuro da democra- cia”. A condição humana é tal que combate- mos constantemente a contingência e a nós mesmos, em nossa infinita capacidade de criar sofrimentos. Mas a democracia, evidentemen- te, pode acabar um dia, inclusive pelas mãos de gente que a “defende”, principalmente por- que o termo “democracia” pode significar coi- sas opostas. Quer ver um exemplo banal dessa “insta- bilidade semântica” do termo “democracia”? Tem partidos políticos por aí que pretendem, em nome da democracia, intervir na mídia para garantir igualdade de oportunidades, por exem- plo, destruir pessoas e grupos na mídia para colocar seus parceiros ideológicos no lugar dessas pessoas e grupos. O argumento é “democratizar a mídia”. Por outro lado, deixar a mídia inteiramente livre (portanto, democrática) pode significar, por exemplo, a geração de discursos de ódio e a exclusão social de quem não conseguiu alcançar a posição de trabalho num desses grandes grupos de mídia. Independente dessa questão “esco- lástica” (se não conhecer o termo, olhe no Google), de onde está a verdadeira democracia na mídia e em outros níveis, acho que o futuro nos reserva a sociedade mais controladora que o mundo já viu e, portanto, num sen- tido comum do termo, menos demo- crática. Dito de forma direta: marchamos para ummundo totalitário, com con- trole cada vez mais maior dos com- portamentos, mesmo que pessoas trans possam ser o que quiserem (dou esse exemplo como mero clichê de “liberdade individual”) ou você possa ter o perfil que quiser no Face ou odiar livremente quem você quiser nas redes. O modelo de sociedade do futuro está mais para o sistema de multas de trânsito atual do que para o debate sobre “o que é a verdadeira democracia”. O que é este sistema de multas de trânsito atual? Ele é o paradigma do controle em nome do “bem cien- tífico e social”. Existem quatro instâncias nesse sistema que fazem dele paradigmático da sociedade de controle do futuro. A primeira é a participação do mercado faturando muita grana na venda de equipa- mentos de controle dos comportamentos. Empresas as mais variadas venderão equipa- mentos e formarão pessoal treinado para ofe- recer ao Estado e a sociedades esses “servi- ços”. A segunda é a pesquisa e instalação cada vez maior de “inteligência algorítmica” no controle audiovisual e de localização espacial das pessoas, seus veículos e instrumentos cotidianos de uso. A medida que a pesquisa nessa área avançar, mais dinheiro se ganhará com o avanço técnico e efetivo do controle. A terceira é o esquema gigantes- co de arrecadação que isso signifi- cará para o Estado, em parceria com o mercado. Quando finalmente não dirigirmos acima de 50 km por hora, seremos obrigados a dirigir abaixo de 30 km por hora em toda parte. E assim até a imobilidade total... A quarta é o ganho civilizador: a diminuição dos acidentes de trânsito. Não ache que esta é a menos importante. Pelo contrário, esta ins- tância é a essencial em todo o paradigma. Ela é a razão “científica e social” da instalação cres- cente e inevitável do controle: a melhoria da qualidade do trânsito e, por tabela, da vida. Esta contradição é inerente ao processo modernizador. Modernidade implica controle da contingência a serviço da melhoria da qua- lidade dos materiais e códigos envolvidos na vida em sociedade. Controle de comportamentos, instituições, bens, menor custo e maior benefício nas tran- sações. Dane-se o que quer dizer “a verda- deira democracia”. Eu apostaria que este será o nome de algum jogo idiota que pessoas com cabelos azuis e indefinição sexual jogarão nas redes.

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