Diário do Amapá - 11 e 12/01/2026
mundo acordou — ou dormiu — estarrecido com a inusitada operação do sequestro do Presidente da Ve- nezuela, NicolásMaduro. Tive oportunidade de apoiar a posição do Brasil de condenação da operação militar dos Estados Unidos e emprestarminha solidariedade ao governo venezuelano por essa violência, como foi expresso pelo pro- nunciamento de nossos representantes naOEAe noConselho de Segurança da ONU. Essa atitude não encontra respaldo legal; ao contrário, agride a convivência entre as nações e o direito internacional. Isso não quer dizer que ignoramos a conduta de Maduro destruindo a democracia em seu país, agredindo os direitos humanos, políticos e civis, oprimindo o povo venezuelano com a prática de tortura e destruição das instituições. Mas os fins não justificam os meios, nem a violência deve ser o instrumento que combate a violência. A invocação da Doutrina Monroe é outro desvio de ar- gumentação porque não é uma invasão de fora do hemisfério que está emcausa, violando-a, mas a política proclamada na atualização feita pelo Corolário Roosevelt, em 1904, do Big Stick, América para os americanos. Eu recordo de um episódio de que involuntariamente fui testemunha em 1982, no mês de abril. Eu estava nos Estados Unidos fazendo parte da comitiva do Presidente Fi- gueiredo, representando o Congresso Nacional, quando a Grã-Bretanha invadiu as Ilhas Malvinas, que tinham sido tomadas pelos argentinos. Marquei uma audiência com o senador norte-americanoTed Stevens, no SenadoAmericano. Ele era representante do Estado do Alasca e um grande político americano do Partido Republicano. Lá cheguei na hora aprazada, nove horas da manhã. Os americanos, no costume herdado dos ingleses, sãomuito zelosos dos horários: nove horas são nove horas. Para surpresa minha, o Senador Stevens se atrasou. Acompanhava-me o diplomata brasileiro, hoje embaixador, Seixas Correa, umdos maiores emelhores diplomatas brasileiros de sua geração. Quis retirar-me, mas o chefe de Cerimonial do Senado disse-me que o Senador Stevens estava chegando e pedia desculpas. Dispus-me a es- perar 15 minutos. Logo o Senador chegou e desculpou-se dizendo que tinha ficado retido numa reunião da bancada do Senado com o Presidente Ronald Reagan, até as cinco horas da manhã, tratando da invasão inglesa das Malvinas. Tinham resolvido apoiar a invasão britânica, coma restrição de que não bombardeassem o território argentino, agindo com uma contrariedade parcial à Doutrina Monroe. Afinal, por essa doutrina estaria autorizada a interferência militar dos EUA para repelir qualquer agressão externa ao solo americano — no caso, o argentino — e não para auxiliá-la. Diante de uma informação preciosa que acabava de ter, não pude ter outra atitude senão comunicá-la, logo depois da entrevista, ao Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Embaixador Guerreiro, para que ele a utilizasse da maneira que achasse importante, no caso favorecendo os argentinos, pois ela dizia do apoio dos EUA aos ingleses. E assim o fiz. Era a invocada Doutrina Monroe! Aliás, essa doutrina foi pela primeira vez usada numa ameaçamilitar, em1902, pelo Presidenteeodore Roosevelt, diante do bloqueio naval de Grã-Bretanha, Alemanha e Itália, feito contra esta mesma Venezuela, cercada para que esses países recebessem o pagamento das dívidas vencidas que a Venezuela se recusava a pagar. Agora, o mesmo bloqueio visa não permitir que o petróleo seja vendido a China, Rússia e Irã. Os motivos são diferentes, mas a justificativa é a mesma: a Doutrina Monroe. Outros dois pontos em evidência são Groenlândia e Cuba. (Não a Colômbia, porque o país não pode ser objeto de punição, uma vez que não tem nenhuma disputa com os EstadosUnidos.)Quanto aCuba eGroenlândia, são hipotecas da Segunda Guerra Mundial. A Groenlândia, com o fim da ameaça aos americanos depois da rendição da Alemanha, foi devolvida à Dinamarca. No que se refere a Cuba, é uma hipoteca daGuerra Fria, prolongamento da SegundaGuerra. Na crise de foguetes emCuba, o acordo feito entre Kennedy e Khrushchev determinou que as armas nucleares seriam retiradas de Cuba, porque realmente ameaçavama segurança dos Estados Unidos; por outro lado, como compensação, os americanos se comprometiam a retirar mísseis da Turquia e não invadir Cuba. Estas obrigações foram obedecidas por ambos. Todos estes problemas podem ser resolvidos pela Di- plomacia, e o mundo ficaria livre das ameaças e do medo de uma confrontação nuclear. Mas o que estamos vivendo de mais grave é que, com o advento da internet, as relações in- ternacionais estão sendo governadas pelo discurso: as emoções são instantâneas, dando margem a decisões apres- sadas e muitas vezes a palavras irresponsáveis. Essa é a grande ameaça que paira no mundo. ■ Calem a boca E-mail: j.sarney@uol.com.br Ex Presidente do Brasil JOSÉSARNEY O ➔ E-mail: luizmello.da@uol.com.br ➔ Instagram: @luizmelodiario© 2018 ➔ twitter: @luizmelodiario RÁPIDAS ● Tapete azul... Suspeita infundada: WGóes, que deixa o MIDR até março, mais tardar, vai mesmo ao Senado, em outubro, ao invés da Câmara Federal, como já andaram falando por aí - garantem próximos mais próximos do círculo de aliados do ex-governador. ● Aceitação ... Não que ‘furlanistas’ já estejam com orelhas em chamas, porque chefe ainda está bem no quesito ‘popularidade’, mas pesquisa da Big Data/CNN, recente, já contempla governo Clécio com um crescente 76% de aprovação. O que sinaliza possível mudança de cenário, se ‘clecistas’ intensificarem corpo a corpo, avaliam analistas de comportamento eleitoral. ● Chegada... Já bem avaliado pelas respostas positivas como interino de deputado estadual, na Alap, Rodolfo Vale, do PCdoB, encorpa mais fortemente chances de se eleger em outubro, agora com desistência do titular Nogueira, que segue secretário da Pesca, no GEA. ● Conselho... Como ninguém já não acredita mais em terceira via, pela proximidade da eleição, eleitores, aqueles ainda com pés nas duas canoas, amiudam não apenas nas continhas de padaria, mas também chamando convivas de canto para um parecer sobre em quem depositar voto, em outubro. Fervura... Do staff de Furlan, Diego Santos já prepara temperos na esperança de que o seu Cidadania, com o melhor em campo, agite as labaredas po- líticas em outubro. Ele, inclusive, também no ta- buleiro de candidatos a federal - apesar de ainda naquela do ‘quem sabe, talvez’. ● Se de amor e amores, sabe Deus, mas Randolfe e WGóes estavam juntos na festa de aniversário do ex-prefeito Dudão - 54 anos vividos e supostamente bem vididos. ● Rega-bofe... Fotografia... Mesmo sem ainda ter assumido candidatura ao GEA, Furlan já estaria examinando perfil de seu possível vice de alto a baixo, pregam aliados. ‘Um pouco notório, mais ou menos como fez comMário Neto, é a tendência’, admitemmais próximos. ● Projeto Aturiá, em obras, vai ter praia de areia, restaurantes, roda gigante e, dentre outros bem-bons, também um monumento na ‘Esquina do rio mais belo com a Linha do Equador’, em homangem a Fernando Canto, autor da música cantada por Zé Miguel. ● Alerta... Para o psicólogo André Romero, ansiedade é o transtorno que mais afeta a saúde mental das pessoas, hoje em dia - pela forte disputa social para ser ‘o melhor’. Ele ensina reconhecer os próprios limites e saber parar, gesto essencial para preservar o bem-estar mental e físico. ● Suspiro... No PSB, pouco se tem falado sobre candidaturas. Aliás, pra ser mais preciso, até agora apenas Ca- milo acenoumanifestando desejo de levar nome às urnas - mas ainda sempedir abraços. ● |OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 11 E 12 DE JANEIRO DE 2026 3 FROM / LuizMelo Lugar bonito Tudo o que ouvimos é uma opinião, não um fato. Tudo o que vemos é uma perspectiva, não a verdade. Marco Aurélio Imperador de Roma e Filósofo estoico Se a vida der errado drible seus pecados. Ronaldinho Gaúcho “ “ Sonho... Pra valer mesmo, Jorge Amanajás ainda não botou a cara na rua, assumindo candidatura a estadual, em outubro. Mas, consultando sua linha do tempo, nenhuma dúvida - logo, logo ele e trupe estarão por aí, nariz a nariz com eleitorado, pela volta ao estrelato, na Alap. ●
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