Diário do Amapá - 18 e 19/01/2026

mundo acordou — ou dormiu — estarrecido com a inusitada operação do sequestro do Presidente da Ve- nezuela, NicolásMaduro. Tive oportunidade de apoiar a posição do Brasil de condenação da operação militar dos Estados Unidos e emprestarminha solidariedade ao governo venezuelano por essa violência, como foi expresso pelo pro- nunciamento de nossos representantes naOEAe noConselho de Segurança da ONU. Essa atitude não encontra respaldo legal; ao contrário, agride a convivência entre as nações e o direito internacional. Isso não quer dizer que ignoramos a conduta de Maduro destruindo a democracia em seu país, agredindo os direitos humanos, políticos e civis, oprimindo o povo venezuelano com a prática de tortura e destruição das instituições. Mas os fins não justificam os meios, nem a violência deve ser o instrumento que combate a violência. A invocação da Doutrina Monroe é outro desvio de ar- gumentação porque não é uma invasão de fora do hemisfério que está emcausa, violando-a, mas a política proclamada na atualização feita pelo Corolário Roosevelt, em 1904, do Big Stick, América para os americanos. Eu recordo de um episódio de que involuntariamente fui testemunha em 1982, no mês de abril. Eu estava nos Estados Unidos fazendo parte da comitiva do Presidente Fi- gueiredo, representando o Congresso Nacional, quando a Grã-Bretanha invadiu as Ilhas Malvinas, que tinham sido tomadas pelos argentinos. Marquei uma audiência com o senador norte-americanoTed Stevens, no SenadoAmericano. Ele era representante do Estado do Alasca e um grande político americano do Partido Republicano. Lá cheguei na hora aprazada, nove horas da manhã. Os americanos, no costume herdado dos ingleses, sãomuito zelosos dos horários: nove horas são nove horas. Para surpresa minha, o Senador Stevens se atrasou. Acompanhava-me o diplomata brasileiro, hoje embaixador, Seixas Correa, umdos maiores emelhores diplomatas brasileiros de sua geração. Quis retirar-me, mas o chefe de Cerimonial do Senado disse-me que o Senador Stevens estava chegando e pedia desculpas. Dispus-me a es- perar 15 minutos. Logo o Senador chegou e desculpou-se dizendo que tinha ficado retido numa reunião da bancada do Senado com o Presidente Ronald Reagan, até as cinco horas da manhã, tratando da invasão inglesa das Malvinas. Tinham resolvido apoiar a invasão britânica, coma restrição de que não bombardeassem o território argentino, agindo com uma contrariedade parcial à Doutrina Monroe. Afinal, por essa doutrina estaria autorizada a interferência militar dos EUA para repelir qualquer agressão externa ao solo americano — no caso, o argentino — e não para auxiliá-la. Diante de uma informação preciosa que acabava de ter, não pude ter outra atitude senão comunicá-la, logo depois da entrevista, ao Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Embaixador Guerreiro, para que ele a utilizasse da maneira que achasse importante, no caso favorecendo os argentinos, pois ela dizia do apoio dos EUA aos ingleses. E assim o fiz. Era a invocada Doutrina Monroe! Aliás, essa doutrina foi pela primeira vez usada numa ameaçamilitar, em1902, pelo Presidenteeodore Roosevelt, diante do bloqueio naval de Grã-Bretanha, Alemanha e Itália, feito contra esta mesma Venezuela, cercada para que esses países recebessem o pagamento das dívidas vencidas que a Venezuela se recusava a pagar. Agora, o mesmo bloqueio visa não permitir que o petróleo seja vendido a China, Rússia e Irã. Os motivos são diferentes, mas a justificativa é a mesma: a Doutrina Monroe. Outros dois pontos em evidência são Groenlândia e Cuba. (Não a Colômbia, porque o país não pode ser objeto de punição, uma vez que não tem nenhuma disputa com os EstadosUnidos.)Quanto aCuba eGroenlândia, são hipotecas da Segunda Guerra Mundial. A Groenlândia, com o fim da ameaça aos americanos depois da rendição da Alemanha, foi devolvida à Dinamarca. No que se refere a Cuba, é uma hipoteca daGuerra Fria, prolongamento da SegundaGuerra. Na crise de foguetes emCuba, o acordo feito entre Kennedy e Khrushchev determinou que as armas nucleares seriam retiradas de Cuba, porque realmente ameaçavama segurança dos Estados Unidos; por outro lado, como compensação, os americanos se comprometiam a retirar mísseis da Turquia e não invadir Cuba. Estas obrigações foram obedecidas por ambos. Todos estes problemas podem ser resolvidos pela Di- plomacia, e o mundo ficaria livre das ameaças e do medo de uma confrontação nuclear. Mas o que estamos vivendo de mais grave é que, com o advento da internet, as relações in- ternacionais estão sendo governadas pelo discurso: as emoções são instantâneas, dando margem a decisões apres- sadas e muitas vezes a palavras irresponsáveis. Essa é a grande ameaça que paira no mundo. ■ Calem a boca E-mail: j.sarney@uol.com.br Ex Presidente do Brasil JOSÉSARNEY O ➔ E-mail: luizmello.da@uol.com.br ➔ Instagram: @luizmelodiario© 2018 ➔ twitter: @luizmelodiario RÁPIDAS ● Silente... Das relações internacionais de Clécio, no Setentrião, Patrícia Ferraz ainda não falou sobre planos políticos para outubro - além do apoio em tempo integral à reeleição do chefe, claro. De pleitos recentes, ela tem script de bons resultados nas urnas. ● Retorno ... Daqueles que morrem de amor e amores pelo PR Lula, Nogueira, já sem fios soltos na Justiça, ultimamente tem feito acenos sobre voltar a levar nome às urnas - a deputado federal, mais provavelmente. Enquanto à distância, consolidou prestígio político no apoio a Bala Rocha e na eleição de alguns manos e manas, a partir de Santana. ● Dúvida cruel... WGóes ainda segue em silêncio de pedra sobre a que vai em outubro - se à Câmara Federal ou ao Senado. Tido como bom de voto, mesmo assim tem balançado sobre rumo a seguir, porque só bate o martelo com sinal verde de apoiadores. ● Vixe... Voltou a frear vontade do empresário Jaime Nunes sobre nova candidatura política. Principalmente porque convites que chegaram, em larga escala, por sinal, só sugeriam compor chapa como vice, cargo que já ocupou e pelo qual não sente nem um pingo de saudade, garantem interlocutores. Dueto... Braço direto de Davi Alcolumbre, no Senado, Rafaela Carrera, enquanto emMacapá, tem feito dobradinha com Anagirlene na comunica- ção do governador Clécio Luis. Neste sábado, 17, por exemplo, no evento de Randolfe Rodri- gues, no Porto do Povo, em Santana. De repente, professora Goreth, ex- federal, interrompeu silêncio: não está mais sob o teto do PDT, disse. Mas ainda sem pistas sobre novo porto seguro e, também, se vai ao palanque em outubro. Tô fora... Corpo a corpo... Sem aparição em público, Davi Alcolumbre fica em Macapá até o fim do mês, mas sem se descuidar do ‘fio da meada’ quando o tema é a eleição de outu- bro, que, se bem observado, já vive ummomento de mais proximidade com as ruas. ● A Praça Floriano Peixoto, no Trem, antes o ‘ponto de encontro’ mais atraente de Macapá, inclusive com lago artificial, já anda pedindo revitalização urgente, urgentíssima. Hoje sem postura corporal. ● Excesso... Furlan vai ter que se virar nos ‘panos’ pra enxu- gar chão molhado no MDB, se Acácio optar pelo Senado. Porque, também emedebista, ele tem espaço assegurado, logo aumentando contin- gente de candidatos a se acotovelharem por sombra e água fresca no time furlanista. ● Round... Como até agora ninguémdeu sinal de fumaça, são poucos aqueles que ainda apostamnuma terceira via para sangrar no ringue junto comClécio e Fur- lan, na eleição pelo GEA, emoutubro. ● |OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 18 E 19 DE JANEIRO DE 2026 3 FROM / LuizMelo Maus-tratos Todas as grandes coisas são simples. E muitas podem ser expressas numa só palavra: liberdade; justiça; honra; dever; piedade; esperança. Winston Churchill Militar e ex-primeiro- ministro do Reino Unido "O envelhecer para mim foi uma surpresa, porque eu nunca fui velha na vida" Rita Lee “ “ Dúvida... Teles Jr. tem sido chamado de canto por aliados, que agora o querem como deputado federal, em vez de voltar a bater ponto como vice na chapa de Clécio, em outubro. Seco e reto: “sei não...”, como resposta a quem interessar possa.

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