Diário do Amapá - 20/01/2026

| OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ TERÇA-FEIRA | 20 DE JANEIRO DE 2026 2 LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3223-7690 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA A utopia, como ideia-força da imaginação humana, nunca foi apenas uma fantasia projetada sobre o impossível. Desde sua origem, ela opera como método de crítica, mecanismo de diagnóstico e impulso de esperança, funcionando como uma lente que ilumina as fissuras da realidade e sugere caminhos para superá-las. Nesse horizonte, omas More e Darcy Ribeiro, separados por quatro séculos, surgem como integrantes de uma mesma linhagem intelectual, a dos que recusam o mundo como dado e o rein- ventam como tarefa histórica. Ao conceber o termo utopia e dar-lhe sua primeira forma literária,omas More funda o gesto utópico moderno. Darcy Ribeiro, ao refazê-lo nas condições brasileiras, transforma esse gesto emação política, projeto civilizatório e luta concreta. Entre ambos, estende-se uma ponte que atravessa tempo, geografia e cultura, sustentada por uma convicção comum: imaginar outros mundos é condição indispensável para não sucumbir ao mundo tal como ele se apresenta. Quando More publica Utopia, em 1516, não cria apenas um lugar imaginário. Forja um instrumento filosófico de extraordinária potência crítica. Sua ilha, esse “não-lugar” que é, paradoxalmente, um lugar possível, funciona como espelho irônico lançado sobre a Europa renascentista, marcada pela desi- gualdade social, pelo abuso de poder, pela irraciona- lidade política e pela ganância institucionalizada. A obra não oferece ummodelo pronto nemumprojeto executável. Ao contrário, More templena consciência da irrealidade de sua construção. Mas é justamente essa irrealidade que lhe confere liberdade para expor, sem concessões, a nudez moral do real. A administração comunal, a partilha do trabalho, o primado do bem comum e a racionalidade ética que organizam a ilha utópica tornam-se critérios de julgamento da sociedade concreta. Em More, a utopia não é fuga; é denúncia. Não é promessa de perfeição; é parâmetro crítico capaz de revelar o ab- surdo daquilo que se naturalizou como normal. Séculos depois, Darcy Ribeiro emerge como uma figura que não apenas pensa o Brasil, mas tenta re- construí-lo. Antropólogo, educador, político, roman- cista e provocador intelectual, Darcy desloca a utopia do plano da ficção para o terreno da ação histórica. Seu pensamento nasce das contradições estruturais do país: a desigualdade persistente, a exclusão social crônica, a violência contra indígenas e pobres e a dificuldade de afirmar uma identidade nacional que não fosse mera herança submissa do colonialismo. Ao contrário de More, Darcy não projeta sua utopia numa ilha distante. Ele a ergue no próprio chão brasileiro, com seus conflitos, impasses e potências. EmOPovo Brasileiro, sintetiza uma visão radicalmente afirmativa: amestiçagem não é um problema a ser superado, mas uma força geradora de criatividade, diversidade e reinvenção histórica. O Brasil, em sua leitura, não é uma nação incompleta; é uma civilização em gestação. Essa utopia darciana, contudo, não permanece no plano das ideias. Ela se materializa em projetos, instituições e embates políticos. Darcy concebe a escola pública integral como eixo civilizatório; defende políticas culturais como afirmação de dignidade; combate o apagamento indígena por meio da valorização das etnias e de seus direitos; luta para que emprego, comida e escola deixem de ser promessas abstratas e se tornem fundamentos efetivos da cidadania. Sua utopia não ignora a realidade; enfrenta-a para transformá- la. É uma utopia consciente de sua incompletude e, justamente por isso, exigente em compromisso, mobilização e coragem política... ■ Ao contrário de More, Darcy não projeta sua utopia numa ilha distante. Ele a ergue no próprio chão brasileiro, com seus conflitos, impasses e potências. Em O Povo Brasileiro, sintetiza uma visão radicalmente afirmativa: a mestiçagem não é um problema a ser superado, mas uma força geradora de criatividade, diversidade e reinvenção histórica. Thomas More e Darcy Ribeiro em Diálogo Histórico-Filosófico E-mail: edmir@libris.com.br Formado em Direito e Pós-Graduado em Sociologia HENRIQUE MATTHIESEN O ano de 2025 teve como destaque novamente dois pesquisadores do Observatório Astronômico do Vaticano, o famoso "Specola Va- ticana", são os padres Gabriele Gionti e Matteo Galaverni. Eles re- velaram a existência de duas maneiras diferentes de descrever a gravidade na presença de um campo adicional que, usando os instrumentos matemáticos certos, não só descrevem a mesma f ísica, mas podem até criar novas soluções para as equações de Einstein. Em 2022, eles revelaram uma matemática que descrevia o universo além dos atuais "frame de Jordan" e "frame de Einstein", seja lá o que seja isso, o que importa é que melhora a compreensão do universo. Graças a isso, Gabriele Giont (S.J.) foi homenageado com seu nome dado ao asteroide 2006 WV212, em 2024. Já contei diversas histórias da contribuição de religiosos na Ciência, como das quatro irmãs que, sem grande conhecimento, catalogaram quase meio milhão de estrelas de 1910 a 1921, aliás, o Specola foi o único a cumprir a meta, graças a elas. Também já falei do padre Nicolau Copérnico que desenvolveu o sistema heliocêntrico, lançou seu livro durante o Concílio de Trento e não teve problema com a Inquisição. E, claro, o padre Georges Lemaître criador da teoria do Big Bang e muitas outras contribuições. Em sua homenagem, o asteroide 1948 WA recebeu seu nome, sendo agora conhecido como 1565 Le- maître. Na IdadeMédia, o monge dominicano Teodorico de Freiberg (1250-1350) conseguiu reproduzir o arco-íris primário e secundário e escreveu o livro "Sobre o Arco-Íris e as Impressões Causadas pelos Raios". Omonge beneditino Benedetto Castelli, amigo e colaborador de Galileu Galilei, desenvolveu um método para projetar a imagem do sol sem preju- dicar a visão, ajudando assim no estudo das manchas solares. O astrônomo e padre jesuíta Christian Mayer ajudou a implantar observatórios na Alemanha, estudou o movimento das estrelas e elaborou um catálogo comdezenas de estrelas binárias observadas a partir de 1776. Uma cratera da Lua recebeu seu nome em sua homenagem. Falando nisso, o astrônomo e padre jesuíta Giovanni Battista Riccioli (1598–1671) estudou a Lua e desenvolveu um sistema de nomenclatura de característica do satélite e das crateras. Em 1801, o padre italiano Giuseppe Piazzi descobriu o planeta-anão Ceres, no cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter. Ele era diretor do Observatório Astronômico de Palermo e colaborou também para o seu desenvolvimento. O padre jesuíta Athanasius Kircher estudou vulcões, peste bubônica, elefantes, egiptologia e matemática. Escreveu muitos livros, sendo o mais conhecido o “Mundus Subterraneus” (1665), explicando o entendimento da época sobre o interior da Terra. O padre jesuíta James B. Macelwane desenvolveu importantes trabalhos na Sismologia. Ele foi eleito para a Academia Nacional de Ciências (NAS) em 1944 e presidente da União Geof ísica da América (AGU) de 1953 até sua morte em 1956. A AGU criou uma medalha com seu nome e, todo ano, homenageiam um cientista de até 36 anos de idade que tenha prestado contribuições significativas à Geof ísica. ■ O padre jesuíta Athanasius Kircher estudou vulcões, peste bubônica, elefantes, egiptologia e matemática. Escreveu muitos livros, sendo o mais conhecido o “Mundus Subterraneus” (1665), explicando o entendimento da época sobre o interior da Terra. Cientistas e padres e do Vaticano E-mail: mariosaturno@uol.com.br Tecnologista Sênior MARIO EUGENIO

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