Diário do Amapá - 25 e 26/01/2026
eio os jornais diariamente. A jornalista Jéssica Maes, em uma boa matéria, publicada na Folha de S. Paulo, registra que, no Peru, o “governo fez algo inédito em todo o mundo: concedeu direitos a um inseto.” No caso, concedeu a proteção da lei às abelhas sem ferrão, nativas da Amazônia, consideradas as mais antigas do mundo, garantindo a sua conservação: não podem, como está acontecendo, ser exterminadas. Também está proibido o uso de agrotóxicos prejudiciais a elas. Quero lembrar que noMaranhão, talvez por inspiração do Padre Antônio Vieira, que tinha residido no Estado, foi instaurado um inquérito contra as formigas, que, naqueles anos, por volta de 1704, atacavam a igreja do Convento das Mercês — alguns falam “do Carmo”; outros, “de Santo An- tônio” —, e os Frades Menores, os mercedários, tomaram a providência de acusar formalmente as formigas de atacarem portas, janelas, santas de madeira nos altares, de tal modo que estavamdestruindo a igreja, inclusive roubando farinha e outros mantimentos dos frades no Convento. Aberto o processo jurídico no tribunal eclesiástico, foramdesignados advogados defensores, que argumentaram que as formigas tinham direito de alimentação dados pelo Criador, que as tinha colocado no mundo. Os editais de citação e a sentença deGnitiva foram lidos na boca do for- migueiro: Gnalmente, os insetos foram condenados a sair do Convento. Dizem que, lida a sentença, as formigas, em Glas imensas, saíram e foram para outros lugares, como de- terminado na decisão do juiz.Mas, ao longo do procedimento, tiveramque enfrentar todo o código processual, comcitação, contestação, defesa, apelação e embargos até a conclusão. Esse processo das formigas tornou-se famoso a partir da referência do Padre Manuel Bernardes, no início do século XVIII (1706), em seu célebre “Nova Floresta” — clássico que li quando jovem, da estante do meu avô, mes- tre-escola em São Bento, interior do Maranhão. Depois ti- vemos o relato do grande historiador brasileiro João Lisboa —que Capistrano de Abreu dizia ser quemmelhor escrevia sobre História do Brasil e que teve sua vida escrita na obra “Pantheon Maranhense”, de Antônio Henriques Leal —, autor do “Jornal de Timon”, com o seu “Eleições na Antigui- dade”. Já em nosso tempo, agora no século XXI, Eulálio de Almeida (jurista e magistrado maranhense) publicou um estudo, sob o título “O processo das formigas”, com o rigor técnico da análise do direito canônico da época, com infor- mações mais precisas, citando os embargos, os nomes dos advogados de defesa e a defesa do direito das formigas. Esse processo das formigas é objeto recorrente na cultura popular maranhense, em peças teatrais e manifestações folclóricas. Agora, quando penso nesses dois casos, parece que a lógica do mundo virou do avesso: a acusação e a defesa do direito de viver das formigas ocorreu há três séculos no Maranhão e hoje, no Peru, foram garantidos os direitos das abelhas, mas, no Irã, sem direito a qualquer defesa, o povo é trucidado: mais de trêsmil mortos! Houve até a condenação de um jovem à forca para intimidar os protestantes, que nada mais desejam se não exercer o seu direito de discordar. Tudo isso se faz numa teocracia, governo dos primórdios da Humanidade, de tempos já bolorentos de monarquias que se julgavamprocuradoras de Deus, exercendo o governo em nome Dele. O governo do Irã, como um governo teológico, tem os ouvidos fechados aos protestos que ecoam pelo mundo inteiro, mesmo os de seus simpatizantes que condenam esses massacres em massa. As metralhadoras falam sem respeitar amais ínGma caridade, vitimando crianças, jovens, velhos, homens emulheres—estas submetidas aos costumes opressores das burcas e da escravidão, não podendomostrar nem suas próprias mãos. Quando os detentores do poder derrubaram o Xá, declararam que “as leis humanas só valiam se fossem compatíveis com a lei de Deus”. As abelhas do Peru estão protegidas, agora são sujeitos de direito, pois não têm ferrão, não ameaçam ninguém com dores ou venenos e estão sendo veneradas desde os tempos remotos: são produtoras demel e amigas do homem. Para que recebessema proteção da lei, no caso uma portaria da Província de Junín, basearam-se num estudo técnico da Amazon Research Internacional e da Earth Law Center, isto é, direitos com respaldo cientíGco e de GlosoGa jurídi- ca. Já no caso das formigas do Maranhão elas tinham apenas a invocar o seu direito de viver, mas esse é o direito maior de todos nós — homens ou formigas ou abelhas. Já no Irã, nenhum direito, nem sombra de qualquer direito é respeitado. Vai aqui nossa revolta, nosso protesto e nossa exaltação à Democracia, que, graças a Deus, aqui abriu as asas sobre nós. ■ As Abelhas, as Formigas e o Irã E-mail: j.sarney@uol.com.br Ex Presidente do Brasil JOSÉSARNEY L ➔ E-mail: luizmello.da@uol.com.br ➔ Instagram: @luizmelodiario© 2018 ➔ twitter: @luizmelodiario RÁPIDAS ● Soberania... O Brasil teve, sim, motivo para celebrar o Dia Internacional da Liberdade, sexta 23. As instituições de pé - pesar das ameaças de erosão. A Imprensa livre - mesmo pressionada. E a sociedade civil segue vigilante - ainda que cansada. ● Mimos... Josiel Alcolumbre rasga elogios a WGóes: ‘É motivo de orgulho ver o ministro WG eleito 4 vezes governador do Amapá, e agora fazendo um grande trabalho à frente do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional’. ● Bis... Nos bastidores, aliados pedetistas, principalmente, torcem pela continuidade da dupla Clécio–Teles na chapa pela reeleição ao GEA, e descrevem a relação entre eles como fraterna e leal. ● Repercussão... “A gente vê pessoas que estavam no Cadastro Único, no Bolsa Família, e que agora estão na classe média. Isso mostra que o programa não é só transferência de renda. Ele abre portas para a educação, para o trabalho e para o empreendedorismo”, disse Wellington Dias, ministro da assistência social, família e combate à fome, ao avaliar pesquisa sobre acomodação de classes sociais no país. Expectativa... Vice de confiança de Furlan, Mário Neto assu- mirá a PMM caso ele [Furlan] renuncie em março para disputar o GEA. Aliados reforçam: “o prefeito nunca deixaria a cidade emmãos er- radas”, e afirmam que Mário Neto vai surpreen- der e cuidar bem de Macapá. ● Ex-senador Jorge Viana, atualmente presidente da ApexBrasil, foi o enviado do presidente Lula para convidar senador Davi Alcolumbre a liderar comitiva brasileira que em fins de fevereiro terá encontros com Parlamento Europeu, em Bruxelas, capital belga. Transversal Corpo a corpo... Camilo Capiberibe, se disputar, deve novamente mirar uma candidatura a deputado federal e pode trocar o PSB pelo PT por questões de viabilidade da nominata. ● Governador Clécio, de mãos dadas com primeira-dama Priscila, toca Carreta Delas, na capital e no interior. Ainda neste sábado, 24, os múltiplos atendimentos de saúde do programa à mulher e à população em geral esteve no bairro Zerão, zona sul de Macapá. ● Parece... No Amapá não é diferente. Gente que não quer ser candidato - quer apenas parecer candidato. Cobra caro pra dizer que vai disputar eleição, e mais caro ainda pra desistir. É o famoso ‘pré-can- didato-prémium’: Não ganha voto, mas vive de negociação. ● Emfamília... Virou costume: o político se elege e logo vem can- didatura da parentalha toda: esposa, marido, primo, cunhado, enfim... Aqui no Amapá isso já virou tradição. E o slogan sempre omesmo: ‘vote emmim - que a família agradece’. ● |OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 25 E 26 DE JANEIRO DE 2026 3 FROM / LuizMelo Casal Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te. Friedrich Nietzsche Filósofo e filólogo No Brasil de hoje, os cidadãos têm medo do futuro. Os políticos têm medo do passado. Chico Anysio “ “ Obrigado, Davi... Quando o poder público não aparece, o povo cobra. Quando aparece e resolve, o povo diz: ‘não fez mais que a obrigação’. No incêncio recente, a escada Magirus foi decisiva, sim. Teve gente agradecendo e até lembrando que obrigação, às vezes, também salva vidas.
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