Diário do Amapá - 08 e 09/02/2026
ENTREVISTA ONCOLOGISTA |ENTREVISTA | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 08 E 09 DE FEVEREIRO DE 2026 14 A semana foi marcada pela passagem do Dia Mundial de Combate ao Câncer, reforçando a importância do diagnóstico precoce. O oncologista Murilo Miglio fala sobre prevenção, avanços no tratamento, desafios no combate no Amapá. D iário - Doutor, o que o Dia Mundial de Combate ao Câncer representa e quemensagemo senhor dei- xa para a população? MuriloMiglio - É umdia extremamente importante, principalmen- te para conscientização. O foco principal é a detecção precoce do cân- cer. Esse é o grande segredo do tratamento. Quando o diagnóstico é feito cedo, as chances de cura ultrapassam90%. Por isso, é fundamen- tal que as pessoas procurem seus médicos e realizemos exames de prevenção. Diário - Durante muito tempo, a palavra “câncer” foi quase proibida. Ainda existe esse estigma? Murilo - Sim. Existe sim, mas estamos conseguindo quebrar isso aos poucos. Antigamente, principalmente nas décadas de 70 e 80, o diagnóstico e o tratamento eram muito dif íceis. Hoje, com o avanço da medicina e da tecnologia, a maioria dos cânce- res é curável. Não é mais uma sentença de morte. Cerca de 80% a 90% dos casos têm cura atualmente. Diário - Dar a notícia de um diagnóstico ainda é um momento delicado e exclusivo para um médico? Murilo - Sempre é ummomento dif ícil, pela ansiedade e pelo medo do paciente e da família. Mas hoje conseguimos conduzir isso de uma forma mais leve e tranquila, explicando as possibilidades de tratamento. Na maioria das vezes, graças a Deus, os resultados são positivos. Diário - O Amapá avançou no tratamento oncológico, especialmente com a radioterapia agora no serviço público. Qual a importância disso? Murilo - É um avanço histórico. Durante muitos anos, o Amapá não tinha radioterapia, e os pacientes precisavam sair do estado, principalmente para Belém. Hoje, com quimioterapia e radioterapia disponíveis aqui, o paciente pode se tratar em casa, o que faz toda a diferença, tanto emocional quanto socialmente. Diário - O senhor também atende na rede pública? E quantos profissionais especialistas como o senhor atuam no Amapá atualmente? Murilo - Atendo sim, na Unacon, que funciona no Hospital de Clínicas Alberto Lima. É um trabalho desafiador, mas muito gratifi- cante. Somos apenas quatro oncologistas no estado. Durante mui- tos anos tivemos apenas um. Ainda é pouco, mas já representa um avanço, tanto na rede pública quanto na privada. Diário - Quais são os cânceres mais frequentes no Brasil atualmente? Murilo - Nas mulheres, o câncer de mama é o mais comum. Nos homens, o câncer de próstata. Mas, na região Norte e Nordeste, o câncer do colo do útero ainda é muito prevalente, principalmente por falhas no acesso à atenção básica. O exame preventivo, o PCCU ou Papanicolau, detecta lesões antes mesmo de se tornarem câncer. Ele deve ser feito por todas as mulheres a partir do início da vida sexual. Esse câncer é causado pelo HPV, que é um vírus sexual- mente transmissível. Diário - A vacina contra o HPV pode mudar esse ce- nário? Os mais otimistas afirmam que ela pode erra- dirar esse tipo de câncer, não é? Murilo - Sem dúvida. A expectativa é muito alta. Hoje, meninas a partir dos 9 anos e meninos a partir dos 12 já podem ser vacinados, antes do início da vida sexual. Com uma cobertura vacinal em tor- no de 90%, podemos reduzir drasticamente — e até eliminar — o câncer de colo do útero no futuro. Em termos de saúde pública, isso é extraordinário. Diário - Os protocolos de prevenção estão começan- do mais cedo? Murilo - Sim. Antigamente, a mamografia começava aos 50 anos, hoje aos 40, ou até aos 35 se houver histórico familiar. O câncer de próstata, que antes era investigado aos 60, hoje começa aos 50, com PSA e toque retal. Estamos vendo casos cada vez mais precoces, in- clusive em pessoas por volta dos 40 anos. Diário - Para encerrar, qual é a principal mensagem neste Dia Mundial de Combate ao Câncer? Murilo - O Conscientização e prevenção. Quanto mais precoce o diagnóstico, melhor o prognóstico. Procurem sempre seus médicos e realizem os exames preventivos. Essa é a melhor forma de salvar vidas. O Dia Mundial de Prevenção e Combate ao Câncer reforça que informação, acesso à saúde e diagnóstico precoce são armas fundamentais contra a doença. ■ Reportagem: CLEBER BARBOSA PERFIL OmédicoMurilo MiglioNeiva atua na especialidade deOncologia. Comexperiência na área, possui reconhecimento pelo seu comprometimento emoferecer tratamentos individualizados e eficazes para seus pacientes. BREVE CURRÍCULO -Dr. Murilo Miglio é formado pela Universidade do Estado do Pará (UEPA) - Possui especialização em residência clínica médica no Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo. - Fez residência em Oncologia Clínica na Universidade Federal de São Paulo – Hospital São Paulo (UNIFESP). - É médico oncologista na Oncológica do Brasil. DATA ESPECIAL - O Dia Mundial do Câncer é celebrado anualmente em 4 de fevereiro, liderado pela União Internacional para o Controle do Câncer (UICC) com apoio da OMS. Criada no ano 2000, a data visa aumentar a conscientização, educação e prevenção contra o câncer, que é a segunda maior causa de morte mundial. OS NÚMEROS - De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil registra cerca de 704 mil novos casos da doença por ano, somando mais de 240 mil óbitos anuais. O impacto é tão profundo que o câncer já se tornou a principal causa de morte em 670 municípios, superando doenças cardiovasculares nessas regiões. Murilo Miglio ■ Médico oncologista MuriloMiglio ementrevista exclusiva ao jornalista Cleber Barbosa, do Diário. O câncer já foi uma sentença de morte, felizmente não é mais V DA/ Breno Barbosa
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