Diário do Amapá - 08 e 09/02/2026

LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA |OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 08 E 09 DE FEVEREIRO DE 2026 2 A corrida dos cachorros das mais diversas raças tinha acabado naquele momento. Todos estavam cansados, ofegantes e com a língua pendurada fora da boca. Quase não conseguiam falar. Mais uma vez, tinham feito o possível para pegar aquela lebre que corria na frente deles. – A próxima vez teremos que nos esforçar mais – disse Branca, a única fêmea que tinha participado da corrida. – Quase eu alcancei aquela maldita lebre, reclamou Silver, um cachorro de pelo prateado. - Um dia conseguiremos, somos os mais velozes do mundo – gritou Mel, um labrador cheio de boa vontade. Nenhum deles sabia que corriam atrás de uma lebre de mentira. O falso animal era movido por um motor elétrico e controlado a distância para ficar sempre na frente dos cachorros. O evangelho de Lucas deste Quinto Domingo do Tempo Comum nos fala de uma pesca extraordinária no lago de Genesaré e do chamado dos primeiros apóstolos para serem “pescadores de homens”. Tudo começa com o ensinamento de Jesus às multidões. OMestre está sentado na barca de Simão e de lá fala ao povo que fica àmargemdo lago. Ao concluir o seu ensinamento, Jesus pede a Simão para sair com o barco para pescar. O experto pescador revela que já trabalharam a noite inteira e não conseguiram nada. - Mas, em atenção à tua palavra vou lançar as redes - diz Simão (Lc 5,5). O peixe foi tão abundante que quase as redes se rompiam. A reação de Simão Pedro e dos demais companheiros foi de espanto e de medo. Jesus os encoraja e os chama ao seu seguimento. Eles deixaram tudo para participar de uma “pescaria” muito diferente: juntar pessoas dispostas a confiar naquele homemque Simão já chamou de “Senhor” (Lc 5,8). Podemos pensar que nada podia conquistar mais facilmente o coração daqueles pescadores do que uma pesca milagrosa. No entanto eles não ficaram por lá aproveitando da fartura. “Deixaramtudo” diz o evangelho. Algo novo devia ter chamado a atenção deles. Acredito que foi o ensinamento de Jesus. De fato, Simão Pedro declara confiar naquela palavra que se tornou quase uma ordem: “Avança para águas mais profundas” (Lc 5,4). Esse é um convite que Jesus sempre faz a todos nós. Não é algo reservado a alguns. Todos somos cha- mados a confiar mais sobre a sua palavra. Como Simão Pedro temos sempremuitas desculpas para não responder, porque estamos conscientes das nossas limitações e fraquezas. No entanto, é justamente dessa situação de acomodação e preguiça que o Senhor quer nos tirar. Podemos dizer também que estamos cansados como Simão e os demais que haviam trabalhado a noite inteira. No fundo, a questão é simples: confiamos demais nas nossas forças e capacidades e menos na sua palavra. Jesus quer e precisa, sim, da nossa participação – ele usa o barco e as redes de Simão – mas, antes de qualquer organização e iniciativa, a primeira das nossas ações é a prática da sua palavra. De outra forma, corremos o risco de dar demasiado valor ao resultado das nossas capacidades e esquecer o sentido daquilo que nos parece sucesso extraordinário. Vez por outra, ouvimos falar de “milagre econômico”. Todos os dias aprendemos notícias de novas conquistas tecnológicas e escutamos que alguns conseguem multiplicar “milagrosamente” as suas já enormes fortunas. Dar ouvido à Palavra do Senhor, para nós cristãos, não significa desistir de usar a nossa inteligência e a nossa criatividade. Contudo devemos sempre nos perguntar se o que alcançamos é para o bem de todos ou somente de alguns, se a humanidade fica melhor, mais fraterna e solidária, ou se aumentamos as diferenças, as divisões e as disputas com as relativas brigas e invejas que vão juntas. A “ordem” de Jesus de avançar para águas mais profundas não é um convite para correr atrás de qualquer sonho ou ilusão por impossível que nos pareça, em busca talvez de um grande sucesso, mas passageiro. Ao contrário, é acreditar que ele será o primeiro a nos ajudar quando os nossos projetos serão mais de justiça, de paz e de partilha. O Reino de Deus que Jesus veio inaugurar não é como a lebre de mentira que serve para fazer correr os cachorros enlouquecidos. É o motivo da nossa fé e da nossa própria vida. ■ DOMPEDROCONTI E-mail: oscarfilho.ap@bol.com.br Administrador Apostólico da Diocese de Macapá A “ordem” de Jesus de avançar para águas mais profundas não é um convite para correr atrás de qualquer sonho ou ilusão por impossível que nos pareça, em busca talvez de um grande sucesso, mas passageiro. Ao contrário, é acreditar que ele será o primeiro a nos ajudar quando os nossos projetos serão mais de justiça, de paz e de partilha. A lebre e os cachorros A s pessoas tem familiaridade em acessar a rede on-line. Tornou-se quase um ponto de referência para conhecer e estabelecer diálogos, criando, assim, uma praça digital. Porém, a gente se pergunta: “o que tudo isso comporta na nossa vida real?” Parece, segundo algumas pesquisas realizadas pelos americanos, que compartilhar informações on-line influencia as opiniões e pode prejudicar as capacidades de prever as coisas ou fatos pelos grupos socias. O que ajuda nisso tudo é um princípio chamado de sabedoria da massa, que, segundo o autor James Surowiecki, é uma inteligência coletiva que sabe analisar problemas e tomar decisões em uma comunidade de seres inteligentes. De fato, vemos as multidões de pessoas que geram diariamente uma grande quantidade de conhecimentos pela rede e nos parece que tudo isso seja verdadeiro. Cientificamente, a inteligência da massa popular se expressa de maneira bem evidente quando tem certo consenso comum naquilo que se tinha previsto. Para melhor entender isso, imaginemos uma competição em que as pessoas devem advinhar o peso de pacotes com dez abacaxis. Ganha a prova o competidor que se aproximar do peso real das frutas. Podemos ter a certeza de que todas as declarações de peso podem chegar bem perto do peso real. Este é o princípio da sa- bedoria da massa popular aplicada à dinâmica de previsão. Agora, imaginamos de potenciar digitalmente esta possibilidade, juntando ele- mentos de previsão pela rede. O que vai acon- tecer? Parece que a nossa sabedoria começa a hesitar, vacilar. É a conclusão da pesquisa que nos conta Matteo Motterlini, no jornal itáliano Sole 24. Praticamente, a nossa compartilha relacional continuada de conteúdos, via digital, acabaria com o efeito da sabedoria da massa popular. O conhecimento, justamente via on-line, das opi- niões dos outros, dos nossos amigos, nos leva à ilusão de pensar que nós temos um consenso comum naquilo que queremos prever. A con- vergência das análises individuais leverá, na ver- dade, a um afastamento do fenômeno de prever. Vendo via on-line aquilo que os outros pensam, e nisto não são poucos, alimenta uma depen- dência, condicionamento social, que nos pode levar a se deixar levar pela massa da praça digital a uma conformação de opinião. No entanto, explica James Surowiecki, para ter um bom funcionamento da teoria da sabedoria da massa popular é preciso respeitar alguns princípios entre a diversidade de opinião e a independência das pessoas. Com isto, significa que as pessoas não devem se influenciar entre elas e que cada pessoa precisa dizer a própria opinião, embora totalmente dife- rente. Ora, parece evidente que aquilo que se produz nos sites, páginas digitais, têm uns condicionamentos que proveem das relações sociais de amizade, de status, de grupos, ideologias etc. Eis aqui o perigo de trans- formar a sabedoria da massa popular em “estupidez do rebanho”. De fato, o limite entre essas duas realidades, sabedoria e estupidez, é bem pequeno e pode se discernir na falta de autonomia de julgar de quem faz uso da network. Essa autonomia de opinião, justamente, vem menos devido ao fato de ter, constatemente, necessidade de saber o que as pessoas pensam, dizem e, assim, se deixam levar para isso. ■ CLAUDIOPIGHIN E-mail: clpighin@claudio-pighin.net Sacerdote e doutor em teologia. Praticamente, a nossa compartilha relacional continuada de conteúdos, via digital, acabaria com o efeito da sabedoria da massa popular. O conhecimento, justamente via on-line, das opiniões dos outros, dos nossos amigos, nos leva à ilusão de pensar que nós temos um consenso comum naquilo que queremos prever. A praça digital e as massas

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