Diário do Amapá - 08 e 09/02/2026

nveja é coisa feia. E este pecado mortal — Santo Agostinho dizia que é o pecado do diabo por excelência —, que é o desejo de ter o que outro tem, anda de mãos dadas com a avareza, que é o desejo de ter tudo. Muita gente tem inveja dos relógios, carros e fortuna dos outros. Eu, de minha parte, nunca tive. Na nossa geração da política disputada na internet a inveja encontrou um terreno fértil: já que todos se expõem e mostram o que têm, o invejoso quer ter o que o outro tem, sejam votos, acessos, “likes” e, naturalmente, o sucesso e o dinheiro que anda junto. Ideias, a esta altura, leva desvantagem, e a política se empobrece, embora os políticos enriqueçam. Não é que a inveja não estivesse na política há muito tempo, desde sempre as disputas tiveram em grande parte a inveja como motivo. Os vitoriosos políticos, no mais das vezes, tinham um episódio de violência ou de envenenamento no seu sucesso, que resultava, naturalmente, em eles assumirem o que era do outro. Esse é um campo em que o Império Romano dá show: quando, por exceção, Marco Aurélio foi sucedido por seu Ilho Cômodo, as coisas foram muito piores do que com a costumeira adoção do sobrevivente entre os vários candidatos. Na frente do invejoso se colocam algumas opções, e vale selecionar todas: a avareza, como lembrei, o narcisismo, o egocentrismo. O primeiro objeto de exposição é uma moeda com sua cara, e se as com a cara de Augusto são multidão nas coleções numismáticas, o futuro dirá quantas moedas mostrarão o topete do Trump, que já providenciou a sua. Mas o imperador deixou também uma multidão de bustos e esculturas de corpo inteiro — é surpreendente que ele, que Izera César deus para poder se dizer divi Ilius, não tenha providenciado para que sobrevivesse pelo menos uma escultura do pai adotivo. Os artistas eram cooptados como os maiores divul- gadores das belas (ai de quem quisesse ser realista) imagens dos poderosos. Estão aí as centenas de quadros de Napoleão, mão no casaco, que não nos deixam esquecer que ele também foi imperador. Depois, com o advento das massas e da fotograIa, foram os retratos de seus heróis que desIlaram: Lênin, Stalin, Hitler, Mussolini, Hirohito, o Xá, Khomeini, Sadam Hussein e todos os que acreditam na autocracia, de um canto do mundo a outro. Outra variante é ter seu nome nas coisas, como o Trump, com inveja do Kennedy, fez com o Kennedy Center, que ele resolveu fechar porque os artistas não querem se apresentar no Donald J. Trump – John F. Kennedy Center for the Performing Arts. Se o narcisismo é estampado, o egocentrismo leva também a achar que são os maiores. Um sapato com solado especial é um bom remédio para a altura, mas outros predicados são mais dif íceis de enganar, de modo que o jeito é dizer que tem o maior tudo: bomba, prédio, depósito bancário, descaramento e por aí vai. Enquanto planejava restaurar o território russo ao esplendor do império soviético, o Vladimir Putin, há uns tempos, resolveu o problema colocando uma mesa em que se sentava à cabeceira e o interlocutor, do outro lado, tinha que usar um binóculo para vê-lo e um sistema de autofa- lantes e microfones para conversar, era humilhante. Esse truque, aliás, sempre foi usado, se sucedendo os estrados que mostravam a importância do mandão — ou até de autoridades regularmente eleitas, como os papas, que usavam até a sedes gestatoria nos ombros dos acólitos, até a época do Concílio Vaticano II, quando passaram a usar papamóvel. O Trump — que faz questão de que estejamos todos a falar dele, mesmo mal — tem duas manias, uma decorativa outra arquitetônica. Nada de novo. O Franco, por inveja de Felipe II, que Izera o extraordinário Escorial, fez junto dele, no Valle de Cuelgamuros, que ele chamava de Valle de los Caídos, o horripilante memorial aos seus mortos na Guerra Civil, com o requinte de ser construído pelos presos políticos. O autocrata americano, além de encher de dourado o Salão Oval, diz ele que é seu Versailles, isto é, inveja do Roi-Soleil, Luís XIV, derrubou a East Wing da Casa Branca para lá fazer uma sala de baile tamanho família, e agora quer fazer também o “Arc of Trump” diante do Lincoln Memorial, do outro lado do rio Potomac; o detalhe é que tem que ser o maior do mundo, duas vezes e meio o Arco do Triunfo, por inveja de Napoleão! Há inveja para todos os gostos! ■ Uma inveja danada E-mail: j.sarney@uol.com.br Ex Presidente do Brasil JOSÉSARNEY I ➔ E-mail: luizmello.da@uol.com.br ➔ Instagram: @luizmelodiario© 2018 ➔ twitter: @luizmelodiario RÁPIDAS ● É show... Marketing de Randolfe já trabalha script com linha de shows para uma relação bem mais olho no olho do candidato com as massas. E já no dia 22/2, com a banda Chiclete com Banana fechando o Carnaval, em Macapá. ● Mui amigos... Lula disse que virou amigo de Donald Trump e que foi “amor à primeira vista”. Se dessa aproximação saírem negócios, investimentos e destravamentos para o Brasil, ótimo. Resta saber se essa amizade será guardada do lado esquerdo do peito ou se vai se limitar a uma foto bem enquadrada nas redes sociais. ● Fatores... “Aqui no Amapá, temos o Hospital da Criança, mas no futuro próximo deveremos ter o Hospital do Idoso; precisaremos de mais fisioterapeutas e cuidadores especiais”, no dito por Adrimauro Gemaque, vislumbrando envelhecimento populacional por conta da maior expectativa de vida e da baixa natalidade. ● Benefícios... Terça próxima, 10, Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprecia projeto de lei que isenta de tributos compra ou venda de mercadorias nacionais feitas por empresas que atuam em todas as áreas de livre comércio da região Norte. Projeto é do senador Randolfe em duo com o colega Alan Rick, do Acre. Otimismo... Em conta efeitos do evento de posse no União Brasil, aliados de Clécio, ainda eufóricos, espe- ram um crescimento significativo do candidato nas próximas pesquisas - ajudado, claro, tam- bém pela boa aceitação do governo dele, já mostrada pelo Instituto Quércia, recentemente. Presidente Jocildo Lemos, da Amprev, por enquanto só acompanha e ajuda a PF na Operação que investiga circunstâncias do investimento de R$ 400 mi no Master, mas garante que logo, logo fala sim, senhor, com a imprensa, sobre o caso. ● Paramais informações... Entraves... Não está nada fácil assim para a Petrobras reini- ciar estudos de petróleo na costa amapaense, por exigências absurdas da ANP e do Ibama, este na condição de órgão de licenciamento ambiental. Se Mazagão, de fato, vier a ser incluído na Área de Livre Comércio de Macapá e Santana, abrirá condições do GEA ampliar Distrito Industrial e Área Portuária do estado, além do setor produtivo de base florestal, mineração e agronegócio. ● Na boa... Edna Auzier já sinalizou umadeus ao PSD, mas descartando ressentimentos, ao reconhecer boa convivência. É que, diz, “já está na hora de buscar novos ares a respirar”, e, sem esconder o jogo, já admitindo que o União Brasil será o seu novo par- tido, e por onde vai à reeleição, emoutubro. No jogo... Vinícius Gurgel segue no jogo pela reeleição à Câmara Federal pelo PL, caminho natural. O obstáculo não é o projeto, é a engenharia: fechar uma nominata compe- titiva para a eleição de 2026. Nos bastidores, a avalia- ção é clara—dá para fazer, mas não está fácil. |OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 08 E 09 DE FEVEREIRO DE 2026 3 FROM / LuizMelo Vantagens O importante é viver bem, não viver por muito tempo; e muitas vezes vive bem quem não vive muito. Sêneca Filósofo estóico A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo. Nelson Mandela “ “ Educação agradece... Com emenda de R$ 1,3 mi, deputada Aldilene fez por onde as boas referências de Clécio, em reconhecimento, como um dos baluartes pela revitalização da Escola Modelo Guanabara, inaugurada dia 4/2. E com tudo novo, equipamentos, novas salas e, dessa vez, também com quadra esportiva. Enfim, um belo presente de aniversário para Macapá. ●

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