Diário do Amapá - 22 e 23/02/2026
ENTREVISTA PESQUISADORES |ENTREVISTA | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 22 E 23 DE FEVEREIRO DE 2026 14 Especialistas garantem: antes de se transformar em símbolo da economia, estampar campanhas da Embratur e ganhar o mundo como principal commodity agrícola do país, o café fez sua primeira parada em solo brasileiro pelo Norte do país. D iário - Para entender esse percurso — do sé- culo XVIII aos dias atuais — conversamos com o historiador Daniel Chaves e com o pre- sidente da cooperativa de produtores de café do Amapá, Orlando Vasconcelos. Professor Daniel, en- tão o café realmente entrou no Brasil pelo Norte? Daniel Chaves - Sim. O café chega à América do Sul pelas Guianas. Ele vem da África, é cultivado inicialmente na Guia- na Holandesa, atual Suriname, depois passa para a Guiana Francesa. A introdução oficial no território português acon- tece quando Francisco de Melo Palheta traz mudas durante uma missão diplomática no século XVIII. Na época não exis- tia divisão territorial como hoje, mas qualquer rota terrestre ou fluvial entre a Guiana Francesa e o Pará necessariamente passava pelo território que hoje é o Amapá. Isso significa que o café entrou no Brasil pelo Norte, atravessando essa região. Diário - Ou seja, antes de Minas Gerais se tornar referência, o café já tinha pisado em solo amazôni- co? Daniel - Exatamente. Depois, com o desenvolvimento técni- co e a expansão agrícola, estados como Minas consolidaram a produção, mas a porta de entrada foi aqui no Norte. Séculos depois da chegada das primeiras mudas, o Amapá vive um novo momento com a organização de produtores e aposta no robusta amazônico. Diário - Orlando, hoje existe uma cooperativa es- truturada no estado. Quantos produtores fazem parte desse movimento? Orlando Vasconcelos - Hoje estamos com 50 associados. Dezessete já vão iniciar o plantio ainda este ano. É um movi- mento recente, mas com grande potencial de crescimento. Temos produtores em Amapá, Tartarugalzinho, Calçoene, Pedra Branca do Amapari, Serra do Navio, Santana e Laranjal do Jari. Está bem distribuído. Estamos investindo no robusta amazônico, desenvolvido para as condições da região. Ele se adapta bem ao regime de chuvas e ao clima da Amazônia. Al- guns clones já ultrapassam 100 sacas por hectare. Diário - Existe mercado para essa produção? Orlando - O café é commodity, tem mercado mundial. O robusta, por exemplo, tem maior teor de cafeína e é muito procurado para blends e produtos industrializados. Não de- pendemos apenas do mercado local. Diário - O café pode ser alternativa para pequenos produtores? Orlando - Com certeza. Hoje 77% dos produtores brasilei- ros têm menos de cinco hectares. O café permite colheita anual após o período inicial e pode gerar renda significativa. É uma alternativa especialmente para quem enfrenta dificul- dades com outras culturas, como a mandioca.. Diário - Ao longo dos séculos, o café se transfor- mou em um dos principais motores econômicos do Brasil. Tornou-se marca do país, inclusive utilizado em campanhas de promoção internacional pela Embratur. Daniel - Agora, o Amapá — que esteve na origem dessa his- tória — busca escrever um novo capítulo, combinando tradi- ção histórica com inovação agrícola. Se no passado o estado foi rota de entrada do café no Brasil, hoje quer ser também rota de crescimento, geração de renda e desenvolvimento sustentável. A planta, originária da África e já cultivada nas Guianas, encontrou solo fértil no país. Com o tempo, migrou para outras regiões e se consolidou especialmente no Sudes- te, onde estados como Minas Gerais se tornaram referência mundial em qualidade.Hoje, o Brasil é o maior produtor glo- bal de café. A cultura moldou ciclos econômicos, influenciou a formação social do país e atraiu fluxos migratórios — inclu- sive europeus — durante o período imperial. Diário - Essa revelação, que ainda surpreende mui- ta gente, acaba reforçada durante esse debate so- bre a retomada da cafeicultura no estado. Orlando - Sem dúvida. Muito antes de se transformar em símbolo da economia nacional, estampar campanhas da Em- bratur e ganhar o mundo como principal commodity agrícola do país, o café fez sua primeira parada em solo brasileiro pelo Norte. E essa rota histórica passa diretamente pelo Amapá. No início do século XVIII, Palheta realizou missão diplomáti- ca na então Guiana Francesa e trouxe, de forma estratégica, mudas de café para o Brasil. Como não havia aviões — nem rotas diretas —, a travessia obrigatoriamente passou pelo ter- ritório que hoje corresponde ao Amapá, antes de seguir para o Pará.Na prática, isso significa que o café entrou no Brasil pelo Norte. ■ Reportagem: CLEBER BARBOSA PERFIL Doutorpelo Programa de Pós- Graduação em História Comparada da Universidade Federal doRio de Janeiro (PPGHC/UFRJ). EXPERIÊNCIAS ANTERIORES -Docente permanente dos Programas de Pós- Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGMDR, 2015-2022), em Ensino de História (2018), em Estudos de Fronteira (2018). - Pesquisador Visitante no LusoGlobe Lusófona Centre on Global Challenges, da Universidade Lusófona de Lisboa (2024). - Pesquisador Visitante no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e no Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CES e CEGOT, 2016-2017), - Professor convidado na Universidade Federal do Tocantins (2021). Recebeu a Láurea João Florentino Meira de Vasconcelos de Inovação, da Academia Nacional de Farmácia (2017) por atividades no desenvolvimento da instituição. - Pesquisa, leciona, extensiona e atua em gestão de projetos em diversas áreas, como História Contemporânea, com ênfase em Estudos de Futuros e Prospecção Tecnológica para o Desenvolvimento Regional. ORLANDO VASCONCELOS - Mineiro, empresário dono da empresa Minas Tratores, presidente da COOCAP e do Viveiro de Café Robusta Esperança. Está em Macapá há 2 anos e com seu viveiro de café robusta traz uma nova opção de plantio para Macapá. Daniel Chaves ■ OrlandoVasconcelos e Daniel Chaves detalhamtrajetória do café para chegar ao Brasil viaAmapá OcaféentrounoBrasilpelo Amapáeagoraseráproduzido.
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