Diário do Amapá - 28/02/2026

| OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ SÁBADO | 28 DE FEVEREIRO DE 2026 2 LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA O s númerosmais recentes sobre violência letal contrameninas, adolescentes e mulheres no Brasil revelam uma realidade que não podemos mais ignorar, é uma ferida aberta na nossa sociedade. Segundo dados oficiais consolidados até o fim de 2025 o país registrou 1.470 casos de feminicídio, mais do que em 2024, quando já haviam sido contabilizados 1.464 feminicídios, o maior número da série histórica até então e mostra que, embora a violência letal geral tenha caído em alguns anos, o crime de matar uma mulher por ela ser mulher continua subindo e atingindo níveis terríveis, cerca de quatromulheres assassinadas por dia no Brasil. Estes homicídios motivados pela condição feminina não são apenas estatísticas frias, são vidas arrancadas de meninas e mulheres que sofriam violência em seus lares, em seus relacionamentos, na escola ou no trabalho. A realidade mostra que a maioria das vítimas conhece ou convive com o autor, muitas vezes parceiros ou ex- parceiros, e representa um padrão de violência que começa a se manifestar muito antes da morte. Dados sistemáticos mostram que, nos estados monitorados, em 2024 uma mulher foi vítima de feminicídio a cada 17 horas, e emmais de 75% dos casos o agressor era al- guém próximo. Sabemos tambémque asmortes violentas intencionais em geral (homicídios dolosos e relacionados) seguem números altos nopaís, ainda que a taxa total dehomicídios tenha caído em2024 emcomparação aos anos anteriores. Mesmo assim, essas quedas em homicídios gerais não trazem justiça ou segurança para asmeninas emulheres, cujo perfil e dinâmica da violência estão ligados ao ma- chismo enraizado e à cultura de dominação e controle. Emmuitos lares essas agressões psicológicas e f ísicas começam ainda na adolescência, em relacionamentos que deveriam ser protegidos, e muitas vezes os pais não sabem ou não reconhecem os sinais de abuso, a culpa e o medo do abandono ou da perda fazem com que muitas jovens aceitemcondições abusivas e que famílias, por desconhecer ouminimizar os sinais, não intervenham. A violência não surge do nada, ela cresce nos espaços onde a desigualdade, o patriarcado e o silêncio convi- vem. Diante desses números, é indispensável que o Brasil tenha leis ainda mais rígidas, que punam com mais se- veridade e isolem definitivamente agressores violentos, mas também que essas leis sejam cumpridas com efi- ciência e que o Estado ofereça proteção real às vítimas. A educação é uma ferramenta poderosa de transformação social e deve estar no centro dessa luta. É urgente que relações saudáveis, respeito, consentimento, igualdade e combate ao machismo seja mostrado nas escolas, especialmente no ensino médio, onde muitas meninas estão começando a vivenciar seus primeiros relacionamentos e cruzando comdinâmicas abusivas. Inserir esse tema no currículo escolar não é um luxo, é uma necessidade para formar jovens que reconheçam sinais de abuso, que saibam se posicionar e que possam exigir respeito. Não podemosmais aceitar quemeninas cresçamachando normal xingamentos, ciúmes possessivos, controle de redes sociais ou agressões psicológicas e, no futuro, paguemcomsuas vidas por isso. Precisamos de ação imediata, de políticas públicas fortes, de leis rígidas com aplicação efetiva e de educação nas escolas que ensine meninas e meninos a entender o valor da igualdade e do respeito. O Brasil precisa olhar para esses números e agir com coragem, porque cada número representa uma vida que foi interrompida, uma família dilacerada e uma sociedade que perdeu uma de suas vozes mais preciosas. A violência contra mulheres emeninas não podemais ser uma tragédia cotidiana, ela deve ser, de uma vez por todas, um crime que enfrentamos com firmeza, determinação e educação de base. ■ Feminicídio em alta no Brasil que mata suas mulheres mostra falência da moral Não podemos mais aceitar que meninas cresçam achando normal xingamentos, ciúmes possessivos, controle de redes sociais ou agressões psicológicas e, no futuro, paguem com suas vidas por isso. Precisamos de ação imediata, de políticas públicas fortes, de leis rígidas com aplicação efetiva e de educação nas escolas que ensine meninas e meninos a entender o valor da igualdade e do respeito. GREGÓRIOJ.L. SIMÃO E-mail: gregoriojsimao@yahoo.com.br Radialista e estudante de Filosofia O Carnaval é internacionalmente reconhecido como a principal manifestação cultural secular do povo brasileiro. Entretanto, por trás das cores vibrantes e dos ritmos contagiantes, há uma realidade sombria que muitas vezes permanece à margem das grandes coberturas midiáticas: a exploração sexual de menores, o consumo excessivo de álcool e drogas, e a proliferação de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Durante operíodo carnavalesco, o aumentodo turismo e a intensamovimentaçãonas cidades podem agravar a vulnerabilidade de crianças e adolescentes à exploração sexual. Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) revelam que, no Carnaval de 2024, foram registradas mais de 73 mil violações de direitos humanos, das quais mais de 26mil envolveram crianças e adolescentes. Isso representa um aumento de 30% em relação aomesmo período de 2023. A exploração sexual de menores é considerada uma das piores formas de trabalho infantil, conforme estabelecido pelo decreto nº 6.481/2008, que regulamenta termos descritos na Convenção 182 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Além das consequências f ísicas, como lesões e DSTs, as vítimas enfrentam traumas psicológicos profundos que podem afetar sua capacidade de estabelecer relacionamentos saudáveis e desenvolver uma vida plena. O Carnaval é frequentemente associado a festas e celebrações que, muitas vezes, envolvemoconsumoexacerbadodeálcool eoutras substâncias psicoativas. Esse comportamento pode levar a uma série de incidentes, incluindo acidentes de trânsito, brigas e outros tipos de violência. No Carnaval de 2019, por exemplo, em Belo Horizonte, 54% dos atendimentos médicos em pron- tos-socorros foram relacionados a problemas causados por álcool e drogas. Ouso de substâncias psicoativas não só aumenta o risco de acidentes, como tambémcontribui para comportamentos sexuais nocivos. Estudos indicam que 60% dos indivíduos tiveram relações sexuais sob efeito de álcool durante o Carnaval, e11%sobefeitodeoutras drogas. Alarmantemente, 29% desses indivíduos relataram ter deixado de usar preser- vativo devido ao consumo de bebidas alcoólicas. A combinação de consumo excessivo de álcool, uso de drogas e comportamentos sexuais de risco, criaumambiente propício para a disseminação deDSTs. Especialistas alertam para o risco de propagação de doenças como HPV, herpes genital, gonorreia, hepatites B e C, e, sobretudo, sífilis, que vem apresentando aumento no número de ocorrências no Brasil. Embora o principal foco das campanhas de saúde seja a prevenção doHIV/Aids, é crucial ampliar a conscien- tização sobre outras DSTs, cujas consequências podem ser igualmente graves. Durante os anos de 2020 e 2021, a pandemia de CO- VID-19 levou ao cancelamento das festividades de Carnaval noBrasil, resultando emmudanças significativas nos índices de exploração sexual de menores, consumo de álcool e drogas, eproliferaçãodedoenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Dados do Disque 100 indicam que, em 2018, foram re- gistradas 18,1 mil denúncias de violência sexual contra esse grupo, enquanto em 2019 esse número foi de 17 mil. O consumo de bebidas alcoólicas entre adolescentes também sofreu alterações durante a pandemia. Umestudo transversal realizado entre junho e setembro de 2020 revelou que a prevalência do consumo de álcool entre adolescentes brasileiros reduziu de 17,7% antes da pandemia para 12,8% durante o período pandêmico, o que tambémocorreu em relação as DSTs. A ausência das festividades carnavalescas durante a pandemia trouxe à tona a complexidade das questões relacionadas à exploração sexual de menores, ao consumo de substâncias e à disseminação de DSTs. Por isso, é imperativo que governos, organizações não governamentais, comunidades e indivíduos unamesforços para promover campanhas educativas que abordem os riscos associados a esses comportamentos. Além disso, é necessário fortalecer osmecanismos de denúncia e proteção às vítimas, garantindo que os responsáveis por tais violações sejamdevidamente punidos. Amídia desempenha umpapel crucial nesse contexto, não apenas destacando os seus aspectos culturais e festivos, mas também trazendo à tona as questões subjacentes que afetammilhares de brasileiros. Ao dar visibilidade a essas problemáticas, contribui-se para a construção de uma sociedademais consciente e engajada na promoção de umambiente seguro e saudável para todos. Somente através da conscientização, educação e ação coletiva será possível transformar essa realidade, desnudando esse cenário obscurecido pela fantasia que entorpece as pessoas e as tornam alheias a essa história não contada do carnaval. ■ A história não contada do carnaval A ausência das festividades carnavalescas durante a pandemia trouxe à tona a complexidade das questões relacionadas à exploração sexual de menores, ao consumo de substâncias e à disseminação de DSTs. Por isso, é imperativo que governos, organizações não governamentais, comunidades e indivíduos unam esforços para promover campanhas educativas que abordem os riscos associados a esses comportamentos. E-mail: drrodrigolimajunior@gmail.com Teólogo, pedagogo e advogado RODRIGO LIMA JUNIOR

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