Diário do Amapá - 21/03/2026
| OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ SÁBADO | 21 DE MARÇO DE 2026 2 LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA Q uem estuda a Patrística sabe que a unidade se constrói na diversidade e que Jerônimo deixou como legado não uma Bíblia seguida e utilizada por todos os cristãos, mas o ensinamento que a Palavra de Deus, inicialmente oral e em hebraico, depois escrita em alfabeto fenício e aramaico, deveria ser levada ao povo mais simples em uma língua, melhor, uma linguagem que se ouça e entenda. Nunca esque- cendo que o povo simples sempre foi preferencial de Jesus Cristo. Daqui alguns meses, uns devotos do latim serão excomungados da Igreja, eles não entenderam Jerônimo, nem os Papas desde João XXIII, não querem construir unidade na diversidade, dificultam a vida na graça ao povo simples, e querem que toda a Igreja cometa este sacrilégio. Estão em pecado grave. E serão excomungados! Jerônimo foi convocado pelo Papa Dâmaso a por fim a uma infinidade de textos da Bíblia mal traduzidos para o latim. Isso acontecia com a Igreja na parte ocidental do Império Romano, que já utilizava o latim como língua universal, mas não na parte oriental que conservava o grego como língua desde as conquistas de Alexandre e utilizam a LXX (Septuaginta, tradução feita em Alexandria pelos judeus helenistas). Depois do Concílio de Niceia, os pensadores patrísticos cons- truíram uma Igreja inclusiva (symbolum, em opo- sição ao diabolos, em voga hoje em grupos católicos e evangélicos). Então, após diversos esforços, Jerônimo resolveu traduzir a Bíblia para a língua do povo, o Latim. Não o latim culto, nem o dos soldados, mas o do povo, o do vulgo, por isso a Bíblia traduzida recebeu a alcunha de Vulgata. Se Jerônimo tradu- zisse para o português, seria a Bíblia Povoata ou Populata. Por que traduziu para o popular? Para ele, "ig- norar a Escritura significava ignorar a Cristo", daí a necessidade do povo entender a Escritura. O mesmo raciocínio e ensinamento patrístico podem ser aplicados perfeitamente às cerimônias, espe- cialmente a Missa: tem que estar na língua do cristão leigo. Porém, o arcebispo Marcel Lefebvre, em 1970, fundou a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, para formar seminaristas nos ritos tradicionais, na vila de Écône, Suíça. Em 1988, o Papa João Paulo II declarou que o Arcebispo Lefebvre incorreu na grave pena de Excomunhão prevista pelo direito canónico por consagrar quatro bispos. Em 24 de janeiro de 2009, Bento XVI revogou as excomunhões dos quatro bispos ainda vivos. Pelo jeito, não souberam aproveitar o perdão dado, pois, agora, a Fra- ternidade desafia a Santa Sé e ordenará bispos em 1º de julho. Segundo o direito canônico, um bispo que consagra outro bispo sem mandato papal e a pessoa que recebe essa consagração incorrem em excomunhão auto- mática. No Brasil há os Arautos do Evangelho, remanescentes da TFP que não foram excomungados, que também realizam missas em latim. Desde 2017, estão sob investigação da Santa Sé por acusações de delitos canônicos. Quem assiste a missa em latim fica maravilhado com o figurino e a beleza do culto. Mas devemos reafirmar que missa não é espetáculo para assistir, é para participar da liturgia e do sacrif ício incruento do Cordeiro de Deus. ■ Povoata, Populata ou Vulgata? E-mail: mariosaturno@uol.com.br Tecnologista Sênior No Brasil há os Arautos do Evangelho, remanescentes da TFP que não foram excomungados, que também realizam missas em latim. Desde 2017, estão sob investigação da Santa Sé por acusações de delitos canônicos. MARIO EUGENIO O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, tornou-se um momento crucial para a reflexão sobre os direitos das mulheres, suas conquistas e os desafios que ainda enfrentam. Este dia é frequentemente marcadopor protestos e discussões que criticamestruturas consideradas conservadoras, incluindo a Bíblia e a Igreja, como símbolos que, supostamente, perpetuam a opressão feminina. No entanto, essa crítica muitas vezes ignora a riqueza das narrativas bíblicas que exaltam o protagonismo das mulheres, instituindo o que aqui vamos chamar de “a falácia do machismo na Bíblia. Essa falácia temganhado destaque nos últimos anos, alimentada pelas discussões sobre o papel da mulher na sociedade contemporânea. Muitas correntes feministas argumentam que a Bíblia perpetua a opressão e o desprestígio das mulheres. Contudo, essa visão simplifica e distorce uma narrativa rica e complexa, que, ao longo dos séculos, revela a força e o protagonismo feminino em diversas passagens das Escrituras. A ideia de que a Bíblia é um livro machista é frequentemente sustentada por in- terpretações que isolam trechos específicos sem considerar o contexto histórico, cultural e literário emque foram escritos. Embora alguns textos possamparecer des- favoráveis às mulheres, ao analisarmos a totalidade da obra, encontramos um mosaico de histórias que exaltam a força e a coragem feminina. Umexemplo claro desse protagonismo é a figura de Débora, uma juíza e profetisa que liderou Israel em um período de opressão. No livro de Juízes, ela convoca o general Baraque para lutar contra os cananeus, demonstrando não apenas liderança, mas também sabedoria e estratégia. Outro exemplo é o de Ester, que se tornou rainha e salvou seu povo da destruição. Sua história revela não apenas coragem, mas tambémastúcia. Ester arriscou sua vida para interceder junto ao rei, mostrando que a influência feminina podemudar narrativas e salvar vidas. Sua ação é um lembrete de que o papel da mulher deve ser visto na atividade e na contribuição ativa para o bem- estar da coletividade. Ainda mais emblemática é a figura de Maria, mãe de Jesus. Sua aceitação do papel que lhe foi designado, mesmo diante de desafios sociais e pessoais, a torna um símbolo de força e resiliência. A Anunciação é um momento crucial que mostra como uma mulher pode ser agente de mudança, aceitando um chamado que transformaria a história da humanidade. Maria não é apenas uma figura passiva; ela representa ummodelo de fé e coragem. As mulheres que cercaram Jesus também desafiam a ideia de uma narrativa machista. Maria Madalena foi a primeira a testemunhar a Ressurreição de Cristo. Sua presença na Ressurreição não é apenas umdetalhe; é um testemunho da importância das mulheres na mensagem cristã. A elas foi confiado o anúncio da Ressurreição, um fato que reverbera a dignidade e o valor das mulheres no cristianismo. É crucial que a análise da Bíblia leve em conta a mul- tiplicidade de vozes e experiências que ela abriga. A narrativa bíblica não é unidimensional; é um reflexo de uma sociedade em evolução, onde as mulheres desempenharam papéis cruciais e, muitas vezes, revolucionários. Emvez de ser um texto que perpetua a opressão, a Bíblia pode ser vista como umdo- cumento que, em várias ocasiões, exalta a força feminina. A falácia domachismo na Bíblia, não apenas ignora essas narrativas, mas também enfraquece a luta pela igualdade de gênero, ao reduzir o debate a uma visão simplista. A história das mulheres na Bíblia é uma rica tapeçaria que oferece inspiração e um convite à reflexão sobre o papel da mulher na sociedade. Dessemodo, ao invés de condenar a Bíblia Sagrada como um livro que desprestigia as mulheres, é essencial reconhecer a complexidade de sua mensagem e os muitos exemplos de mulheres que desafiaram normas e mudaram a história. A Bíblia não é uma obra que deve ser vista sob a lente do machismo, mas sim como um texto que, emmuitas de suas passagens, celebra a força, a coragem e o papel das mulheres. Assim, ao celebrarmos oDia Internacional daMulher, é vital que integremos essa discussão sobre a Bíblia e a Igreja em uma perspectiva mais ampla, que valorize a contribuição dasmulheres tanto nas Escrituras quanto na sociedade. Essa abordagem não só enriquece a compreensão das questões de gênero, mas também fortalece a luta por um mundo onde todas as mulheres possam ser reconhecidas e respeitadas em suas capacidades e direitos. ■ A falácia do machismo na Bíblia, não apenas ignora essas narrativas, mas também enfraquece a luta pela igualdade de gênero, ao reduzir o debate a uma visão simplista. A história das mulheres na Bíblia é uma rica tapeçaria que oferece inspiração e um convite à re0exão sobre o papel da mulher na sociedade. A falácia do machismo na Bíblia E-mail: drrodrigolimajunior@gmail.com Teólogo, pedagogo e advogado RODRIGO LIMA JUNIOR
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