Diário do Amapá - 22 e 23/03/2026

i na Folha de S. Paulo (onde escrevi uma coluna durante 20 anos, às sextas-feiras, o que me remete à saudade do meu grande amigo Octávio Frias), uma crônicamuito gostosa de ler da escritora e dramaturga Becky S. Korich, “A performance brega do novo milionário”, em que faz uma gozaçãomuito pertinente da ostentação dos su- per-ricos que esbanjam escandalosamente, agredindo nossa sensibilidade com festas ruidosas no exterior, gastando milhões de reais para pedidos de noivado e casamentos su- cessivos com influenciadoras e influenciadas digitais para mostrar riqueza, comconvidados em jatinhos e jatões, desfile de vestidos luxuosos e bolsas milionárias, que a jornalista diz ser “coisa brega”. Só falta, para completar a comédia, a in- delével música dos cafonas, deWaldick Sorano: “Eu não sou cachorro não”. Na verdade, o grande corruptor é o dinheiro. Ele aparece todos os dias na televisão ao lado das operações da consagrada Polícia Federal, que tem seu trabalho reconhecido por todo o País. Já apareceu até “acalentando” o sono de umdeputado estadual do Rio. Na verdade, o dinheiro vem desde a antiguidade partici- pando da História. Ele foi usado na armadilha dos fariseus a Jesus Cristo ao lhe perguntarem se era correto pagar tributo, a que Jesus respondeu: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Outra vez o dinheiro aparece nos Evangelhos corrompendo um dos apóstolos, Judas, que trai Jesus. E foi o dinheiromandou Judas à forca. Lembra ainda o Padre Antônio Vieira que o diabo tentou Jesus com todas as riquezas oferecendo a Ele todo o mundo, dizendo: “Tudo isso será teu se me adorares”. Para Vieira, se o Diabo podia oferecer a Jesus todo o mundo e suas riquezas é porque o mundo era dele, do diabo. Assim podemos pensar que se o dinheiro invade e corrompe todos é porque é ele, o dinheiro, quemmanda e resolve. Será? Mas eu desejava falar era da verdade das palavras da es- critora da Folha. Ela cita a última crônica de Fernanda Young, falecida em 2019, um “pequeno tratado sobre o mau gosto existencial brasileiro”, como se Fernanda mandasse um recado do passado para o Brasil de hoje: “Existe algo mais brega do que um rico roubando?” E agora Becky conclui: “Rico é quem dorme tranquilo. Essa é a maior das riquezas”. A tranquilidade só existe quando o homem tem aquela paz que não é a ausência de guerra, mas a paz interior que nos aproxima da fortuna imensa de dormir tranquilo, sem o peso das falhas, que só trazem pesadelos. Infelizmente, sob omanto da desgraça o dinheiro invadiu as instituições, e a opinião pública está perdendo a confiança nelas.Mas pela experiência que tenho de Parlamento, observo que não podemos generalizar. Nas Casas Legislativas do País há homens e mulheres com espírito público que também condenam esse procedimento totalmente abominável. Tenho uma visão abrangente porque o destino me pro- porcionou bastante tempo naquelas Casas gloriosas — Senador por 40 anos, antes fui deputado federal, por 12 anos, suplente e efetivo desde 1955. Assisti, portanto, a muitos episódios da nossa História vividos pelo Parlamento: o suicídio de Getúlio Vargas; o Golpe do Lott, de 11 de no- vembro de 55, que possibilitou a posse de Juscelino; as revoltas de Jacareacanga e de Aragarças, comandadas pelos oficiais da Aeronáutica, Tenente-Coronel Veloso e Major Lameirão, depois anistiados pelo Presidente que queriam depor; a tentativa de evitar a posse do Jango em 1961 e, pos- teriormente, a sua deposição emmarço de 1964; o AI-5, em 1968, e a Transição Democrática, da qual fui protagonista, além de ter sido o primeiro civil Presidente da República depois do períodomilitar. Na Presidência, tive a oportunidade de viver as relações Executivo e Congresso, desse recebendo total apoio, o que assegurou a convocação da Assembleia Constituinte que nos deu a Constituição de 1988. Creio ter ajudado o País a ultrapassar muitos de seus momentos dif í- ceis. Odomínio do dinheiro, senhor da corrupção, corroendo os Poderes está amerecer de todos umcombate semquartel, capaz de assegurar a moralidade pública, mas não somente com a ação penal, mas com um comportamento político mais austero, como antigamente existia. O caminho do sucesso político era a correção, a austeridade e o preparo — a ignorância sempre foi aliada dos malfeitos e da corrupção. E essa mácula ataca a classe política desde as bases funda- mentais. Até mesmo Péricles, que imortalizou os princípios daDemocracia emsuaOração Fúnebre, enfrentou as calúnias políticas de seus opositores e teve que defender a integridade do ouro da estátua de Atenas! A Democracia não é atacada somente pelo desejo da tomada do poder, mas também pela corrupção generalizada. ■ Riqueza Brega E-mail: j.sarney@uol.com.br Ex Presidente do Brasil JOSÉSARNEY L ➔ E-mail: luizmello.da@uol.com.br ➔ Instagram: @luizmelodiario© 2018 ➔ twitter: @luizmelodiario RÁPIDAS ● Uma doença... Davi, que andava enfronhado no silêncio, de repente bradou, chamando Valdemar Costa Neto, do PL, de ‘Mitômano’ - aquele mentiroso que mente reiteradas vezes e morre acreditando na sua mentira. Ou seja, um mentiroso convicto de sua própria mentira. ● Sei não... Atual prefeito, Pedro DaLua ainda desconversa se disputa trono municipal, no caso de uma nova eleição, se Mário Neto, o vice afastado pelo STF, vier a ser cassado, como sugerem temperos sob tratos na CMVM. Ou mesmo, caso o próprio Mário venha a renunciar ao cargo, como fez o prefeito Furlan. ● Adeus... Sem nominata pra voltar às urnas, Camilo Capiberibe trocou o seu PSB pelo PT, de Lula. E chorou as pitangas porque lá foram 27 anos, desde a JSB, onde tudo começou. Nada fácil de repente se dar conta que o PSB já não mais faz parte da trilha sonora política dele. ● Ingratidão... Cria politica de WGóes... Criada, batizada e diplomada no PDT, professora Goreth, sem mandato, mas com ambição em dia, de repente achou WG meio fora de foco, e foi logo pro colo de Furlan. Faísca o suficiente pra já ser chamada de ingrata - por pedetistas, claro. Abacaxi... De repente a MacapaPrev virou um rolo: tinha gente demais mandando por lá - presidente, gerente, quase dono. E terceirizado pra todo lado, com empresa entrando, saindo... E deu no que deu: rolo grande! E por conta de tudo, um quase ‘caso de polícia’. “Ele levou pedaço do nosso palco”, diz Ary Fontoura sobre a morte de Juca de Oliveira, aos 91 anos de idade. Juca combinou arte e atuação política e, na ditadura, teve de se exilar na Bolívia, revelam registros. Morre Juca... Vai não vai... E o PSB agora quer porque quer Capiberibe indo outra vez ao Senado - onde já esteve, inclusive. Ouvido de canto, JC pediu um tempo para avaliar melhor se, nessa altura do campeonato, ainda cabe arriscar. Era Wlisses Guimarães quem dizia: “a política só tem porta de entrada, não tem porta de saída”. Acompanhado de Davi, ministro Camilo Santana trouxe boas novas para a saúde amapaense: um centro de imagem para o HU, da Unifap, e a Carteira Nacional Docente do Brasil (CNDB) para o Ifap. Entregues festivament, via governador Clécio. Linha de frente... Teles Jr. tem admitido a íntimos que, a depender dele próprio, preferiria ser apenas o coordena- dor geral do PDT na eleição de outubro, e com foco no querido amigo WGóes para o Senado - em vez de arriscar candidatura a estadual ou a deputado federal, como sugerem bases. Versão remix... Nomundo de Capiberibe, quando overnador, tinha o pessoal do ‘bem’ e o do ‘mal’. Já no de Furlan, quase tudo igual, mas compalavreado diferente: turma do ‘avanço’, a dele, e a do ‘atraso’, dos outros. E povaréu, de grão emgrão, vai engolindo. |OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 22 E 23 DE MARÇO DE 2026 3 FROM / LuizMelo Saúde... Sentir é criar. Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o Universo não tem ideias. Fernando Pessoa Poeta português O Supremo acerta mais do que erra. Flávio Dino, ministro do STF “ Apesar de tudo... Para analistas, Furlan tem transitado bem no ‘faz de conta’ ante realidade do afastamento a mando do STF. E, ainda, sob iminência de uma possivel ‘inelegibilidade’ num bater de martelo decisivo da mesma Corte de Justiça. Quem sabe... “

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