Diário do Amapá - 29 e 30/03/2026
ENTREVISTA CONSULTOR | ENTREVISTA | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 29 E 30 DE MARÇO DE 2026 14 Consultor Humberto Lobão explica como fatores psicológicos, disciplina e liderança influenciam diretamente na segurança e no desempenho em plataformas de petróleo D Diario do Amapá – Hoje a coluna Conexão Margem Equatorial recebe um nome de refe- rência na segurança offshore quando se fala de comportamento humano. Conosco aqui no estú- dio, Humberto Lobão, consultor comportamental com mais de 20 anos de experiência no mercado. Boa tarde, Humberto. Seja bem-vindo. Humberto Lobão – Boa tarde, Márcia. Boa tarde à po; pulação do Amapá, boa tarde a todos os ouvintes. É um prazer e uma honra estar aqui com vocês. Diario do Amapá – Humberto, você costuma de- fender que o erro humano não é uma causa, mas um sintoma de algo maior. Como isso se aplica para um trabalhador que vai estar ali numa plataforma de petróleo? Humberto Lobão – Quando nós falamos em seguran; ça no trabalho, geralmente pensamos logo nos equipamen; tos de proteção, como capacete, luva, botas, o EPI comple; to, porque a gente associa diretamente ao risco f ísico. Só que, com o tempo, ficou muito claro que o risco mental é muito grande, porque ele envolve o bem;estar emocional do trabalhador, especialmente em ambientes confinados como uma plataforma de petróleo, onde isso não é simples. Sobre o erro, existem três condições principais para que ele aconteça. A primeira é o próprio trabalho: a complexi; dade das tarefas, a ergonomia, o ambiente f ísico. A segun; da é o trabalhador: se ele está bem treinado, se aprendeu corretamente, como está o estado mental dele e até aspec; tos da personalidade. E a terceira condição é a organiza; ção, ou seja, a empresa: como ela cuida do ambiente de trabalho, qual é a cultura de segurança e como os líderes atuam. Quando essas três condições estão bem estruturadas e alinhadas, elas proporcionam segurança psicológica ao tra; balhador. O erro vai acontecer, porque é uma condição hu; mana, mas ele pode ser reduzido. Você mitiga o erro quan; do tem um ambiente adequado, um trabalhador preparado e uma organização que promove o bem;estar. Diario do Amapá – Você fala muito sobre a nor- malização do desvio. Como explicar para os ouvin- tes que o excesso de confiança pode ser perigoso em alto mar? Humberto Lobão – A normalização do desvio tem re; lação com a forma como a nossa mente funciona, com os chamados Sistema 1 e Sistema 2, conceito do Daniel Kah; neman. O Sistema 1 é o rápido, automático, ligado à emo; ção e às respostas imediatas. Já o Sistema 2 é o da razão, aquele que faz a gente parar, pensar e analisar. O Sistema 1 é importante porque agiliza decisões do dia a dia, principalmente em tarefas repetitivas, fazendo com que a gente opere no automático. Só que, em um ambiente offshore, onde podem surgir situações inesperadas, isso se torna perigoso. Ficar no automático o tempo todo pode le; var a desvios. Por isso, é importante interromper esse modo automáti; co em alguns momentos, fazer pausas, clarear a mente e trazer o raciocínio para o campo da razão. As empresas, inclusive, desenvolvem técnicas e programas justamente para evitar que o trabalhador permaneça nesse estado au; tomático o tempo inteiro. Diario do Amapá – Quando a gente fala em segu- rança, muito passa pela liderança. Como essas li- deranças devem se comportar nesses ambientes? Humberto Lobão – A liderança, em qualquer setor, tem um papel fundamental e precisa oferecer segurança psicológica para o liderado. Isso significa criar um ambien; te onde exista feedback de mão dupla: o líder precisa orientar, mas também estar aberto a ouvir. Esse tipo de relação fortalece o colaborador e aumenta a confiança dentro da equipe. As empresas precisam investir em lideranças preparadas, porque o líder não deve ocupar essa posição apenas por ser mais experiente ou saber mais tecnicamente. Ele precisa fazer diferença na vida das pes; soas que lidera e contribuir para o desenvolvimento delas. Diario do Amapá – As empresas de petróleo estão preocupadas com a saúde mental do trabalhador? Como isso acontece hoje no Brasil? Humberto Lobão – Hoje já existe uma certa preocu; pação, mas nem sempre foi assim. No passado, esse tema era pouco discutido. Por volta de 2017, uma grande empre; sa do setor de óleo e gás percebeu essa necessidade e nos contratou para desenvolver esse trabalho voltado ao com; portamento e à saúde mental. Eu sempre reconheço essa iniciativa, porque foi uma vi; são importante da direção da empresa, que passou a se preocupar com o emocional dos seus profissionais. Essa empresa evoluiu muito nesse aspecto e hoje está bem posi; cionada, inclusive atuando na Margem Equatorial. É um exemplo de como esse cuidado faz diferença no resultado e na qualificação da operação. ■ Reportagem: CLEBER BARBOSA PERFIL Consultor comportamental, especialista em comportamento humano aplicado à segurança offshore, com mais de 20 anos de atuação no mercado. Tem experiência em: * Treinamento de equipes * Ambientes confinados (plataformas de petróleo) * Segurança psicológica no trabalho * Cultura organizacional e liderança Área de atuação Trabalha com temas como: * Segurança comportamental (Behavior Based Safety) * Fatores humanos em ambientes de risco * Saúde mental no trabalho offshore * Treinamento de lideranças * Psicologia aplicada à operação industrial Humberto Lobão Conexão Margem Equatorial: segurança offshore vai além dos equipamentos e passa pela mente do trabalhador
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