Diário do Amapá - 05 e 06/04/2026
LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA |OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 05 E 06 DE ABRIL DE 2026 2 J á fizeram isso antes. Como um episódio de dois mil anos atrás revela, com precisão cirúrgica, as armadilhas que ameaçam a democracia brasileira em 2026. Há dois mil anos, numa manhã de sexta-feira em Jerusalém, uma multidão foi às ruas e fez uma escolha. Escolheu o criminoso. Condenou o inocente. E o fez convencida de que estava certa. O nome daquele episódio ficou gravado na história, mas o roteiro que o produziu segue em uso, atualizado, digitalizado, e mais eficiente do que nunca. Reconhecê-lo é o primeiro passo para não repeti-lo. A cena é conhecida, mas raramente lida comatenção jurídica. Pôncio Pilatos, prefeito romano da Judeia, detinha o poder absoluto sobre a vida e a morte de qualquer réu em sua ju- risdição. Ao examinar o caso de Jesus de Nazaré, chegou a uma conclusão que não deixava margem à dúvida: "Não encontro nenhummotivo de condenação neste homem." Lucas 23,4 Ele o repetiu três vezes. E mesmo assim, ao final, perguntou à multidão: "Quem quereis que eu vos solte: Barrabás ou Jesus, chamado Cristo?" (Mateus 27,17). Uma pergunta que parecia democrática. Mas não era. E o que veio a seguir, a escolha de Barrabás, não foi umacidente. Foi o resultado de umroteiro executado comprecisão. Um roteiro que você vai reconhecer. AMULTIDÃOQUE NÃO ERAO POVO A multidão diante de Pilatos não chegou ali por conta própria. Foi convocada, aquecida e dirigida pelos sumos sacerdotes, que tinham interesse direto no resultado. O texto de Mateus é preciso:" Os chefes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram as multidões a pedir Barrabás e a mandar matar Jesus." Mateus 27,20. Aquela multidão não era o povo soberano. Era um claque organizado, um grupo mobilizado para simular uma vontade popular que não existia. Marcos ainda acrescenta que os sacerdotes "incitaram ainda mais a multidão" (Marcos 15,11), revelando um trabalho ativo, progressivo e calculado demanipulação emocional. No Brasil de 2026, pergun- te-se: Quando uma narrativa viraliza da noite para o dia, quando uma pesquisa aponta uma tendência inesperada, quando uma manifestação parece espontânea, quemorganizou, quemfinanciou, quem impulsionou? Comunidades digitais podem ser, e frequentemente são, redes de perfis falsos, bots (robôs digitais) e contas compradas que simulam uma opinião pública inexistente. A multidão digital pode ser tão fabricada, tanto, quanto a multidão de Jerusalém. A INVERSÃO: CULPADOHERÓI, INOCENTE RÉU Quem era Barrabás? João não deixa margem à dúvida: "Barrabás era um ladrão" (João 18,40). Marcos acrescenta que era umhomicida que participara de uma revolta (Marcos 15,7). Um criminoso confesso. Mesmo assim, a narrativa construída pelos sacerdotes o transformou no candidato preferível. Essa é a estrutura das fake news eleitorais: Não é necessário convencer todo mundo. Basta confundir o suficiente, gerar dúvida suficiente, provocar raiva suficiente, para que o eleitor vote com o estômago, não com a razão. Repita uma mentira com força e frequência, e ela adquire a textura da verdade. Observe, no pleito de 2026, quem está sendo apresentado como Barrabás, apresentado como inocente injustiçado. Depois verifique os fatos. Sempre verifique os fatos. O ELEITOR QUE LAVA AS MÃOS Aqui está o paralelo mais desconfortável, e o mais importante. Pilatos não foi en- ganado. Tinha a informação, tinha a lei, tinha o poder. Mas, conivente com a multidão fabricada, cedeu: "Pilatos, vendo que nada conseguia e que a agitação só au- mentava, mandou trazer água, lavou as mãos diante da multidão e disse: 'Sou inocente do sangue deste justo. É problema de vocês.'" Mateus 27,24. O gesto é uma ficção moral. Ninguém se livra da responsabilidade com água. Pilatos tomou uma decisão, a decisão de não decidir, e essa omissão foi o que lhe deixoumarcado, imper- doavelmente, para sempre na história, pois, Jesus ... “padeceu sob Pôncio Pilatos”. O eleitor que deixa de votar, que deixa se levar pelo chamado “voto útil, que vota por conivência, ou até mesmo por deixar de questionar as falsas narrativas, também está lavando as mãos. Está transferindo sua responsabilidade para a multidão. E, como Pilatos, não escapa das consequências dessa escolha: Pois, quem irá governar por quatro anos é eleito em um dia. O exercício da democracia não é apenas comparecer às urnas. É a capacidade de votar com consciência, sem seguir o que pesquisas corrompidas, falsas narrativas, e lacração digital vem conduzindo a fazer. Em 2026, antes de escolher, pergunte-se: Quemmobilizou amultidão que está fazendo as manifestações? Quemencomendou a pesquisa divulgada? A convicção do meu voto é minha, ou estou apenas seguindo uma tendência? Enfim, quem é o Barrabás que veste apenas uma capa de herói? No contexto eleitoral contemporâneo, é corriqueiro, se deparar com gravações escandalosas, dossiês vazados estrategicamente, vídeos editados fora de contexto, e o velho truque de repetir uma mentira até que ela ganhe a textura da verdade. Duvide sempre, de quem estiver sendo apresentado como Barrabás. Já escolheram ele antes. E vão tentar fazer de novo. A única diferença é que desta vez, você está sendo alertado para identificar essa manipulação. E lembre-se, o sigilo do voto é uma grande proteção para que se exerça efetivamente a sua cidadania. ■ E-mail: fabio@fabiogarcia.adv.br Escolheram Barrabás FÁBIOLOBATOGARCIA Advogado, Especialista e Mestrando emDireito Eleitoral e Político O homem foi nomeado mandarim. Daquele momento em diante, seria uma grande autoridade e precisava de um manto adequado ao cargo. Um amigo lhe indicou um bom alfaiate de seu conhecimento. Para poder confeccionar o manto, o alfaiate quis saber desde quando o homem era mandarim. Aquele senhor estranhou a pergunta, mas o alfaiate logo explicou: “É que um mandarim recém-nomeado fica tão deslumbrado com o cargo que mantém a cabeça altiva, ergue o nariz e estufa o peito. Assim sendo, tenho que fazer a parte da frente maior que a parte de trás. Anos mais tarde, o trabalho e a experiência o tornammais sensato e eu costuro o manto igual na frente e de trás. Com o passar dos anos, o seu corpo fica encurvado, semmencionar a humildade adquirida através de uma vida de esforços e trabalho. Então eu faço o manto de forma que as costas fiquem mais longas que a frente. Portanto – concluiu o alfaiate – tenho que saber há quanto tempo o senhor está no cargo para que a roupa lhe assente apropriadamente”. O novo mandarim saiu da loja pensando menos no manto e mais na sabedoria daquele simples artesão. No evangelho de Marcos do 25º Domingo do Tempo Comum, Jesus continua andando pelos caminhos da Galileia, ensina os seus discípulos e volta a falar da sua paixão, morte e ressurreição. Eles não compreendiam o que ele queria dizer. Estavam demais ocupados em outra questão. Animados, talvez, pela própria ambição, discutiam sobre quem seria o mais importante entre eles. Ao perceber o teor da disputa, Jesus derruba todas aquelas expectativas. Para oMestre quemquiser ser o primeiro seja aquele que se coloca no último lugar e serve a todos os demais. O que vale mesmo é a busca do bem dos irmãos, a disponibilidade para ser- vi-los, nada de briga pelo poder. Em seguida, para exemplificar a gratuidade do serviço, Jesus abraça uma criança e a coloca no meio deles afirmando que quem a acolherá, por causa do seu nome, estará acolhendo a ele em pessoa e aquele que o enviou: Deus Pai. Com efeito, uma criança era, e ainda é, totalmente dependente dos adultos. Só pode ser ajudada por generosidade, porque não tem poder algum para devolver algum favor e nem dinheiro para pagar a atenção recebida. Jesus fala aos discípulos, mas, no fundo, está apresen- tando a escolha dele de não ser um“messias” dominador, mas servidor, pronto para dar o exemplo de entregar a sua própria vida para que outros possam aprender a amar cada vez mais (Mc 10,45). Não podemos excluir que a memória desse ensi- namento de Jesus possa ter sidomotivada por divisões e disputas de poder naquelas primeiras comunidades cristãs onde foi escrito o evangelho de Marcos. No entanto, amensagemé de uma atualidade extraordinária entre pessoas e grupos da própria Igreja. Parece que a vontade de estar na frente e mandar nos outros é sempre uma grande tentação da qual não é fácil se livrar. Se também olharmos a situação atual da sociedade, existe uma verdadeira guerra para ocupar os primeiros lugares do poder em todos os âmbitos. As declarações são sempre juras de dedicação e humildade, mas depois, muitas vezes, na atuação prática acontece o contrário. No pensamento de muitos, quem chega a ocupar um cargo e não se organiza para se promover e subir mais é um incapaz que não soube aproveitar a oportunidade. Assim se perpetuam a corrupção e a descrença de que possa existir alguém que, estando em lugares de grande responsabilidade, consiga agir mais para o bem comum do que para os próprios interesses particulares. Para Jesus ser “últimos” não significa simplesmente ter humildade, verdadeira ou falsa que seja, mas saber de fato colocar os outros a nossa frente, trabalhar mais para o bem-estar dos demais do que para o nosso. Precisamos de autoridades que estejam a serviço do bem de todos, de maneira especial os mais necessitados e esquecidos. Segundo João 13,12-15, quando Jesus lavou os pés dos discípulos não disse que deixava de ser Mestre e Senhor, mas que era justamente nesta condição que os estava servindo de maneira tão exemplar. Um detalhe: na ocasião Jesus tirou o manto e cingiu o avental como faziam os servos. Não precisou de alfaiate. ■ DOMPEDROCONTI E-mail: oscarfilho.ap@bol.com.br Bispo de Macapá Não podemos excluir que a memória desse ensinamento de Jesus possa ter sido motivada por divisões e disputas de poder naquelas primeiras comunidades cristãs onde foi escrito o evangelho de Marcos. No entanto, a mensagem é de uma atualidade extraordinária entre pessoas e grupos da própria Igreja. Parece que a vontade de estar na frente e mandar nos outros é sempre uma grande tentação da qual não é fácil se livrar. O mandarim e o alfaiate
RkJQdWJsaXNoZXIy NDAzNzc=