Diário do Amapá - 05 e 06/04/2026

ais de uma vez Marly e eu, com o casal Emília e Ál- varo Pacheco — meu saudoso amigo —, pegamos o táxi do inesquecível Seu Pedro, uma Mercedes preta, e, durante a Semana Santa, fomos pelo interior de Portugal até Santiago de Compostela, aonde sempre che- gávamos na quinta-feira à noite e nos hospedávamos no Hostal dos Reis Católicos, ao lado da Catedral, com sua praça cheia de peregrinos, chegando de todos os lugares do mundo para assistir às solenidades litúrgicas, desde as procissões dos encapuçados até as bênçãos do óleo e da vela, na Matriz de novecentos anos, que fica, durante todo o ano, com sua chama acesa, com o cheiro de incenso do Botafumeiro invadindo e perfumando toda a igreja, mas sem a missão do passado: eliminar o odor dos corpos sem higiene que assistiam a missas e sermões na Idade Média. Lembro também da Sexta-Feira da minha infância. Recordo estes espaços de tempo da vida sempre agrade- cendo as bênçãos que Ele me deu. A infância é o tempo da estreita amizade com Deus. Quando ainda não chegaram as preocupações e dúvidas que nos darão o saibo da amargura, que fica sempre com uma parte dos nossos anos. Deus era a sombra que eu sabia ter me dado a vida e que me assegurava a Eternidade, que naqueles tempos não era o céu prometido, mas o paraíso que ele me Ele dera para viver na Terra: a casa do meu avô, o engenho, os campos verdes, os sons dos sinos tocando nas alegrias, até que com os anos a vida passasse a ter o cheiro azedo da garapa. Nesse tempo, meu Jesus Cristinho morava na cidade de São Bento, onde despertei para a vida. Ele estava na igreja entre as colunas pintadas imitando mármore. Nos tempos da Paixão, eu chorava com a revelação de que homens maus o tinham crucificado, pregado na cruz, trespassado por lança e que Judas o traíra. O tempo da Quaresma era a oração e o silêncio em que os nossos jogos e sorrisos não podiam ser exuberantes porque Jesus iria morrer. A procissão do encontro, o Bom Jesus da Cana Verde, o lava-pés, o canto da Verônica e as estações da Paixão. E nos preparávamos para malhar o Judas no Sábado de Aleluia. Tudo tinha um sentido misterioso, em que a razão não entrava, só a emoção. A Igreja governava as nossas referências, os domingos, as ladainhas, o rosário, as nossas súplicas e conversas com Deus. Minha mãe nos ensinava tudo sobre o segredo da vida, do Céu e da Terra, a Paixão de Jesus. Depois veio a mocidade, a adolescência e o domínio da batalha de vida. Nesse tempo não existe mais a abstração, é o momento contínuo de conquistar a base, a realidade dos espaços de nossa preparação para a vida. A Paixão fica reduzida na nossa esperança da ressureição, como disse o poeta francês Pierre Emmanuel: “Este imenso vazio entre a morte de Deus e a esperança de vê- lo ressuscitado.” Dois mil e vinte e seis anos depois o Cristianismo não conseguiu transformar o homem, que vive ainda prisioneiro da violência, do pecado, como síntese de todas as escra- vidões do corpo e da alma. O autor mais lido da humanidade é Cristo. Um homem que, paradoxalmente, não escreveu nada, ao que se sabe, apenas algumas palavras na areia. Contudo, a força de sua doutrina desencadeou uma revolução na história do mundo pela palavra. Ele revelou, num tempo de escravos e senhores, de uma sociedade perdida pela divisão de castas, condições e submissões, uma verdade simples: a de que todos somos irmãos, todos iguais, todos filhos de Deus e todos destinados à salvação. Ele nos ensinou a buscar a paz interior. Não a ausência da guerra, mas a presença da paz dentro de nós mesmos, sem nada a cobrar, sem ressentimentos, sem a desgraça corroendo o corpo e a alma pela escravidão da maldade. Cristo nos ensinou a perdoar e nos assegurou o ca- minho da salvação. Encontrar a felicidade na certeza de que o homem tem um destino transcendental. “O fim sem fim do começo de tudo”, como afirmava o Padre Vieira. E hoje, no momento da velhice, é Ele que estará ao meu lado no meu Encontro, com Deus me indagando: “José, onde estão tuas mãos que eu enchi de estrelas?” E eu Lhe responderei: “Estão aqui neste balde de juçaras, sofrimentos e gratidão.” ■ Minha Semana Santa E-mail: j.sarney@uol.com.br Ex Presidente do Brasil JOSÉSARNEY M ➔ E-mail: luizmello.da@uol.com.br ➔ Instagram: @luizmelodiario© 2018 ➔ twitter: @luizmelodiario RÁPIDAS ● Filho de peixe… WGóes mudou mesmo o curso da prosa: fica no MIDR com Lula e adia projeto de eleição para o Senado. Mas lembra: Ele, sim, fora. Mas o filho João Pedro, empunhando bandeira do PDT, segue firme e forte por uma cadeira na Alap, em outubro. ● Intocável… Apesar dos malfeitos ainda empilhados, das famigeradas ‘Cartas Marcadas’ para os amigos próximos - e sem um dedo mindinho sequer levado às digitais -, Dudão, ex-prefeito, segue cotadíssimo a deputado federal, em outubro. Povo de Mazagão acha que “ele até deixou muitos fios soltos, mas fez” - parodiando frase de Maluf, quando governador de São Paulo. ● Dúvida nenhuma… Clécio tem ganhado corações com a qualidade do Hospital da Criança e do Adolescente, inaugurado recentemente. Com estrutura física moderna e dentro dos melhores padrões em equipamentos médicos, nada a dever a hospitais e/ou clínicas particulares, Brasil afora. ● Distância… Da relação Furlan/Acácio Favacho - com projetos para o futuro - só restou o adeus. E hoje adversários políticos, com Furlan no PSD, e Acácio no mesmo porto seguro, o MDB - mas agora integrando base política do governador Clécio Luís, este do União Brasil. Nos planos... Pintou disse-me-disse sobre volta de Júlio Mi- randa à cena politica. E, se pra valer, outra vez a deputado estadual, cargo que já ocupou e por onde, inclusive, chegou à presidência da Alap. Depois, já como conselheiro de contas, foi guin- dado ao posto de presidente do TCE. Na Pesca do GEA, Paulo Nogueira renuncia mandato de estadual e Rodolfo Vale, que vinha interino no cargo, ganha passaporte para ir à reeleição. É do PCdoB e, do tipo empático, encorpou politicamente pela proximidade que construiu no dia a dia com o eleitorado, anos a fio. Da base do governador Clécio Luís, ele tem trabalho, mostrou a que veio, logo com largas chances de balançar a rede, em outubro. Pra valer... Avaliando... Teles Jr. ainda segue enfronhado no silêncio; se pintou convite para continuar vice na chapa de Clécio, ou se arrisca voo mais alto - a deputado federal, mais prrecisamente, como querem aliados. Acácio Favacho joga toalha contra o grupo do ex-prefeito Furlan, e entra em cena como apoiador do governador Clécio Luís. E, ainda, pelos burburinhos de bastidores, já com compromisso de dobradinha com Randolfe, que seria o endereço de sua segunda opção de voto. Desejo... Já dono de alguns mandatos como estadual, médico Manoel Brasil não tira da cabeça von- tade de bisar feitos por uma nova candida- tura, em outubro. Mas, com aliados, desta feita, optando por uma experiência mais ou- sada - tipo deputado federal, por exemplo. Esperança... Até sexta, 3, furlanistas davam como quase certa recondução de Mário Neto ao cargo de vice na PMM. E, inclusive, pela caneta de Flávio Dino, do STF, o mesmo ministro que, além dele, também afastou o prefeito Furlan. Não deu certo. |OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 05 E 06 DE ABRIL DE 2026 3 FROM / LuizMelo Voto casado... Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos. Nelson Rodrigues Dramaturgo e jornalista ...Acho que acordou meio, como se diz, ‘de chico’, e veio assim pro jogo. Neymar Jr. “ Suspense... Na projeção da chamada segunda opção, quando o eleitor, por direito, vota emdois candidatos para o Senado, palpiteiros já arriscam sobre quem ganha nas urnas comAcácio Favacho agora tambémocupando tabuleiro de apostas. E, ainda, sobre destino dos votos deWGóes, nãomais candidato... “

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