Diário do Amapá - 19 e 20/04/2026

ENTREVISTA PESQUISADOR | ENTREVISTA | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 19 E 20 DE ABRIL DE 2026 14 A entrevista de José Luiz Portella Gomes ao quadro Conexão Margem Equatorial, da Rádio Diário FM 90,9 focou nos desafios técnicos e logísticos da exploração de petróleo e gás no Amapá. Confira, a seguir, um resumo D iário doAmapá - Professor, para quemestá che- gando agora nesse universo do petróleo e gás e ainda não conhece bemessa logística, explica para a gente qual é a principal diferença entre a logística de bens de consumo e essa logística tão complexa da indús- tria do petróleo e gás? José Luiz Portella - Existe uma diferençamuito significativa. Eu posso destacar pelomenos quatro pontos principais. Primeiro, quando falamos de petróleo, estamos falando de umproduto perigoso: inflamá- vel, poluente e que exige umcontrolemuitomaior de segurança. Essa já é uma grande diferença emrelação aos bens de consumo comuns. Se- gundo, o petróleo é uma carga líquida ou gasosa. É uma commodity que não pode ser embalada como umproduto comum. Você precisa trabalhar comgrandes volumes emtanques, reservatórios e estruturas específicas, o que torna toda a operação demovimentação, armazena- mento e distribuiçãomuitomais complexa. Outro ponto importante é que essa atividade exige profissionais especializados e certificados. Um motorista de caminhão-tanque, por exemplo, não pode apenas ter uma carteira profissional comum. Ele precisa de treinamento específico para transporte de carga perigosa, gestão de risco e prevenção de acidentes. Então, alémda estrutura físicamais robusta, existe tambéma necessi- dade demão de obra altamente qualificada. Diário - Para que o estado se torne umhub de explora- ção, como o Porto de Santana e outras redes de trans- porte locais precisamse adaptar para suportar esse flu- xo de equipamentos, sondas que essa indústria vai exigir? Portella - Com relação ao Porto de Santana, provavelmente será ne- cessário revisar o seu planejamento estrutural. Pelo que conheço, o plano diretor do porto é de 2006, e certamente naquela época a indús- tria do petróleo não estava contemplada. Isso significa que o zonea- mento, a operação e toda a estrutura logística precisam ser atualiza- dos para atender essa nova demanda. Alémdisso, o Amapá temuma particularidade muito interessante: possui uma ferrovia construída ainda na década de 1950, comuma bitola única no Brasil, seguindo o padrão inglês e norte-americano. O afastamento entre os trilhos é de 1 metro e 435milímetros, omesmo utilizado nos Estados Unidos, Ar- gentina e boa parte da Europa. Essa ferrovia hoje está praticamente inoperante, mas ela liga o porto ao interior do estado e pode represen- tar uma vantagem estratégica importante. Também temos duas rodo- vias fundamentais: a BR-210, planejada dentro do Plano Nacional de Integração ainda no períodomilitar, e a BR-156, que liga o sul do esta- do até Oiapoque, fazendo conexão com a Guiana Francesa, ou seja, com território francês. Essas duas rodovias podemoferecer uma van- tagem logística muito relevante para o Amapá. Agora, é importante lembrar que o estado ainda precisa de maior integração rodoviária e ferroviária como restante do país. Diário - Já existe infraestrutura que pode ser repen- sada e aproveitada nesse novo momento do Amapá? Portella - Eu não vejo isso exatamente como um risco. Eu vejo como uma oportunidade, e falo isso pela minha própria experiência. Eu trabalhei durante 25 anos na Petróleo Ipiranga, uma empresa brasileira que disputava mercado com gigantes como Shell, Texaco e a própria Petrobras. E como nós aprende- mos a competir nesse setor? Buscando conhecimento com quem já dominava essa indústria. Eu tive a oportunidade de ir duas vezes a Houston, no Texas, que é uma referência mundial no setor petrolífero. Lá pude acompanhar de perto como os norte-americanos operavam essa indústria e como aquela re- gião foi transformada ao longo de mais de um século de explo- ração. Essa troca de conhecimento com profissionais experien- tes é extremamente positiva. Por isso, eu parabenizo iniciativas como o Qualifica Amapá, porque elas ajudam justamente a trazer essa experiência para cá. É importante aprender com quem já tem tradição no setor, mas também é fundamental ca- pacitar a nossa população local. Essa indústria gera riqueza, gera desenvolvimento, mas também exige muita responsabili- dade, porque é uma atividade de alto risco. Então, a presença de profissionais de outros hubs será importante no início, mas o principal é garantir que o povo do Amapá também esteja preparado para ocupar esses espaços. Diário - Ou seja, é preciso construir essas pontes e preparar nossa mão de obra local? Portella - Exatamente. Esse é o caminho certo. A logística será uma peça fundamental para transformar essa oportuni- dade em desenvolvimento real para o estado. Diário FM – Obrigado, professor. Portella - Foi uma satisfação muito grande. Fico feliz em contribuir com esse debate tão importante para o estado. ■ Reportagem: CLEBER BARBOSA PERFIL Como especialista emgeofísica e operações offshore, Portella discutiu a viabilidade da Margem Equatorial brasileira como a "nova fronteira" energética do país. BREVE BIOGRAFIA -Mestre em Engenharia Civil pela Universidade Federal Fluminense (UFF). - MBA em Administração pelo IBMEC- RJ. - Pós-graduado em Petroleum Logistics Executive pela Michigan State University/Coppead – UFRJ. - Pós-graduado em Logística Empresarial para Altos Executivos – Coppead/UFRJ. - Pós-graduado em Marketing de varejo pelo IBMEC-RJ. - Graduado em Engenharia Civil pela Universidade Católica de Petrópolis. - Experiência profissional de 40 anos, atuando em empresas de grande porte, tais como Logum SA, Ipiranga Produtos de Petróleo SA, Albras Alumínio Brasileiro SA, Grupo ULTRA e Promon Engenharia. - Professor na pós graduação e na graduação de cursos de Engenharias de Produção e do Petróleo, Administração, Gestão de RH e Logística ATUAÇÃO NO MERCADO - Exerceu cargos executivos em grandes Corporações atuando como Gestor nas áreas de Logísticas, Transportes, Procurement . Atualmente é professor Universitário em diversos cursos de Graduação, Pós Graduação e Consultor em Logística Empresarial. José Luiz Portella Gomes ■ Aentrevista de José Luiz Portella à jornalista MárciaAndreaAlmeida, pela Rádio Diário FM (90,9). Alogísticaserá fundamentalpara transformaressa oportunidadeem desenvolvimento

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