Diário do Amapá - 10 e 11/05/2026

ECONOMIA | ECONOMIA | DIÁRIO DO AMAPÁ 7 DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 10 E 11 DE MAIO DE 2026 E conomistas indicam que a elevada taxa básica de juros – a taxa Selic – praticada no Brasil, somada aos altos spreads bancários aplicados pelas instituições financeiras, têmcontribuídopara o aumento do endividamento das famílias, o que levou o governo a lançar nesta semana o Novo Desenrola. O spread bancário é a diferença entre os juros que os bancos pagam e os que emprestam aos consumidores. No Brasil, o spread bancário foi de 34,6 pontos per- centuais (p.p.) em março contra 29,7 p.p. registrados no mesmo mês de 2025. Para se ter uma ideia, o BancoMundial calcula umspread bancáriomédionomun- do em torno dos 6 p.p. A professora de economia da Univer- sidade de Brasília (UnB), Maria Lourdes Mollo, explicou que, quanto maior a taxa Selic definida pelo Banco Central (BC), maior são os juros praticados pelos bancos sobre as famílias. “Os juros dos empréstimos estãomuito altos. Isso tem uma relação direta, sem dúvida nenhuma, com o endividamento das pessoas, o que temdificultado muito a economia a funcionar”, disse Maria de Lourdes. Aprofessora daUnB citou ainda, como agravante para as famílias, a precarização dos empregos noBrasil, motivada, segundo ela, pela reforma trabalhista do governo de Michel Temer. “Grande parte das pessoas está se en- dividando para completar o orçamento, para pagar despesas com saúde e do coti- diano. Esse Novo Desenrola pode liberar um pouco o orçamento das pessoas e, eventualmente, até dar umestímulo à eco- nomia”, completou Maria Lourdes. OBrasil tem a segunda maior taxa bá- sica de juros reais domundo, descontada a inflação, com 9,3%. Ficamos atrás apenas da Rússia, país em guerra, com 9,6%. Em terceiro colocado, vemoMéxico, comuma taxa de 5,0%. Os dados são do site especia- lizado Moneyou. Na última reuniãodoComitê dePolítica Monetária (Copom) do Banco Central (BC), a taxa Selic foi reduzida em0,25 p.p., chegando a 14,5%, considerada ainda ele- vada. O BC sustenta que a taxa de juros é necessária para controlar a inflação. O pa- tamar da Selic, por outro lado, é questionado por críticos como excessivamente elevado. Endividamento das famílias Pelo quarto mês consecutivo, o total de famílias comdívidas cresceu no Brasil e alcançou 80% em abril, “nova máxima his- tórica”, segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O total de famílias ina- dimplentes, com contas em atraso, ficou em 29,7%, em relativa estabilidade. “As famílias que ganhamaté três salários mínimos registram o maior nível de endi- vidamento (83,6%) e o maior índice de contas em atraso (38,2%)”, destaca a CNC. Líder mundial no spread bancário A professora de economia da Univer- sidade Federal Fluminense (UFF), Juliane Furno, avalia que o endividamento das fa- mílias brasileiras pode ser explicado pelas “altíssimas” taxas do spread bancário. “O Brasil tem um dos maiores spreads bancários do mundo, em algumas compa- rações recentes, aparece no topodo ranking. O spread é elevado, segundo os bancos, porque a inadimplência é muito alta. Ou seja, esse valor justificaria o risco. Só que posso também dizer que a inadimplência é alta porque os juros (spread) são altos”, diz Juliana. O ranking da World Open Data, com dados de 2024, coloca o Brasil como o país comasmaiores taxas de spread do planeta, seguido por República Tcheca, Sudão do Sul, Serra Leoa, Moçambique, Angola, Ucrânia e Timor Leste. Dados do BC de março mostram que os bancos cobram das pessoas f ísicas, as famílias, uma taxa de juros média de 61% ao ano. Para as empresas, a taxa média foi de 24%. ■ NOVO DESENROLA: JUROS ALTOS PRESSIONAM ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS SELIC V Foto/ Tomaz Silva/Agência Brasil

RkJQdWJsaXNoZXIy NDAzNzc=