Diário do Amapá - 17 e 18/05/2026

ENTREVISTA PESQUISADOR |ENTREVISTA | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 17 E 18 DE MAIO DE 2026 14 O pesquisador brasileiro Luciano Moreira foi incluído na lista Nature's 10, publicada pela revista Nature, que destaca figuras que marcaram a ciência em 2025. Ele é reconhecido por criar o mosquito Aedes aegypti: Wolbachia. D iário doAmapá - Professor, como funciona exata- mente ométodo desenvolvido pelo senhor, chama- doWolbachia, para combater a dengue? LucianoMoreira - Ométodo introduz a bactériaWolbachia noAe- des aegypti, impedindo que ele transmita vírus como dengue, zika e chi- kungunya. Diferente demétodos tradicionais, não envolvemodificação genética e permite que omosquito continue existindo, mas semtrans- mitir doenças.. Diário - Quais foramos resultados práticos observados? Luciano - Com a estratégia em15 países, no Brasil, Niterói registrou uma redução de 89% nos casos de dengue, enquanto Campo Grande teve 63%menos ocorrências. Diário -Como foi a trajetória do estudo? Luciano - É Iniciado na Austrália (2008-2009), o projeto foi trazido para a Fiocruz no Brasil AWolbito, emCuritiba, foi criada como a maior fábrica domundo de mosquitos comWolbachia, visando ex- pandir ométodo para dezenas de cidades brasileiras.entre 2011 e 2012, seguindo com anos de pesquisa em campo. Representa a perse- verança da ciência brasileira e a importância de valorizar a pesquisa local, apesar dos desafios. Diário - Quais foram as maiores inovações em tecno- logia/processos nos últimos anos? Luciano - Lembro-me de quando comecei, nos primeiros dias da produção, tudo era realmente prático e feito à mão. Isso mudou um pouco com a introdução de mais processos agora. Foi um grande salto há alguns anos, quando adquiri- mos novos equipamentos que nos ajudaram a expandir as operações, e também nossas técnicas de campo se adaptaram e simplificaram. Diário - O Brasil poderia ser usado como um estudo de caso global sobre como combater doenças trans- mitidas por mosquitos? Luciano - Acho que o Brasil, com o apoio do Ministério da Saúde e, claro, a parceria com WMP, realmente apoia a ideia de incluir o programa na iniciativa nacional de saúde. O pro- grama é confiável, cientificamente comprovado, e o governo está vendo resultados muito bons em muitas cidades, onde os casos de dengue foram significativamente reduzidos. Já so- mos referência para muitos países em todo o mundo. Muitos entram em contato conosco para nos visitar, ver como fun- ciona e se o programa poderia funcionar em seu país, muitas vezes perguntando sobre o caminho regulatório e o impacto. Acho que, por ter a maior instalação do mundo, ela será vista ainda mais como um símbolo de investimento e algo em que as pessoas confiarão para crescer e beneficiar a todos. Diário - Como o impacto da dengue no Brasil afeta o sistema de saúde e traz desafios socioeconômicos mais amplos? Luciano - A dengue já existe no Brasil há quatro décadas e é tipicamente sazonal. Sabemos que existem quatro sorotipos diferentes e, dependendo da circulação de cada sorotipo, a si- tuação pode ficar muito grave, pois as pessoas não têm imu- nidade ao vírus. Com o aquecimento global, estamos obser- vando uma mudança na distribuição dos mosquitos no país, que estão se espalhando por todas as cidades, especialmente na região sul, onde estamos sediados, em Curitiba. Curitiba, por exemplo, nunca teve esse problema no passado, porque é uma cidade alta e mais fria. O ano passado foi o maior surto de dengue aqui. Com os mosquitos se estabelecendo em dife- rentes cidades e a doença circulando, isso é tudo o que é ne- cessário para que todos os aspectos epidemiológicos da doen- ça e a situação no Brasil continuem piorando. Eu vi no ano passado (o pior ano já registrado para a dengue no Brasil) na cidade de Belo Horizonte, eu ia ao supermercado e quase não havia funcionários porque todos estavam doentes em casa. Diário - Muita gente. Luciano - Alguns membros da minha família foram afeta- dos, minha irmã, meu cunhado, e foi muito ruim. Minha filha também teve dengue e ficou muito doente, acamada por duas semanas. A dengue é uma doença que afeta a todos, ricos ou pobres, tem um grande impacto na vida das pessoas e elas precisam parar de trabalhar. Está se tornando um problema cada vez maior para o país, e é muito caro para o município internar as pessoas em hospitais, então a ideia de que pode- mos reduzir o impacto da doença com Wolbachia é uma boa solução, juntamente com outras ferramentas. ■ Reportagem: CLEBER BARBOSA V DA/ Breno Barbosa PERFIL LucianoAndrade Moreira, Engenheiro Agrônomo, formado pela Universidade Federal deViçosa (UFV), mestrado emFitotecnia com ênfase em Controle Biológico de Insetos pelaUFV. Concluiu o doutorado em Genética e Melhoramento de Plantas em1998 pelaUFVeCentre of Plant Breeding andReproduction Research (CPRO- DLO), Holanda. BREVE BIOGRAFIA - Moreira entrou para a lista de uma das mais importantes revistas científicas do mundo. A Nature destacou o pesquisador entre as pessoas que influenciaram a ciência em 2025. - A escolha reconhece sua atuação na implementação dos mosquitos com Wolbachia no Brasil. - O pesquisador dirige uma fábrica em Curitiba que produz milhões de mosquitos com Wolbachia. A unidade tem uma sala climatizada com gaiolas onde os Aedes se reproduzem. Mais de 80 milhões de ovos são produzidos semanalmente. - A Wolbachia reduz a transmissão de vírus como o da dengue. A bactéria diminui a probabilidade de o mosquito adquirir o vírus ao entrar em contato com sangue contaminado. - O governo federal reconheceu o método como medida de saúde pública. Antes disso, os mosquitos com Wolbachia eram liberados apenas em pequenos projetos. Luciano Moreira ■ Luciano Moreira participou da descoberta do bloqueio dos vírus transmitidos pelo Aedes aegypti. Quem é o brasileiro premiado por bloquear o “Aedes”.

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