Diário do Amapá - 30/05/2026

| OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ SÁBADO | 30 DE MAIO DE 2026 2 LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA O Brasil descobriu mais uma vez que o cigarro mata. A novidade é que continua matando com uma eficiência empresarial ad- mirável. Segundo levantamento recente, mais de 63 mil brasileiros morreram de câncer associado ao tabagismo. Quase um quarto de todas as mortes por câncer do país. Uma tragédia estatística tão gigantesca que parece ter sido transformada em paisagem. O mais curioso é que ninguém se espanta. Sessenta e três mil mortos não produzem comoção nacional. Não interrompem campeonatos. Não provocam pronunciamentos emocio- nados. Não geram correntes de solidariedade nas redes sociais. A fumaça tem um talento extraordinário para esconder cadáveres. Enquanto isso, a indústria do tabaco continua sua obra de ficção científica. Durante décadas vendeu câncer enrolado em papel e o chamou de charme. Associou fumaça à liberdade, ao su- cesso, à aventura e até ao romantismo. Conseguiu uma façanha histórica. Convenceu milhões de pessoas a pagar para adoecer. Agora a velha engrenagem se reinventa. O cigarro eletrônico surge embalado em design moderno, sabores adocicados e promessas tec- nológicas. É o mesmo veneno com departamento de marketing atualizado. O que antes vinha com cheiro de cinzeiro agora chega com aroma de frutas tropicais e aparência de aparelho ele- trônico sofisticado. A lógica permanece intacta. Primeiro cria- se a dependência. Depois vende-se a ilusão. Por fim entrega-se a conta ao sistema de saúde. Os números são brutais. Cerca de 90% das mortes por câncer de pulmão mantêm relação com o tabagismo. Mesmo assim ainda existe quem trate o assunto como mera escolha indi- vidual. É uma escolha tão livre quanto cair em areia movediça depois de ter sido empurrado para dentro dela desde a adolescência por cam- panhas milionárias e estratégias de sedução comercial. A sociedade também tem sua parcela de hipocrisia. Condena o tráfico de drogas com indignação permanente, mas convive com natu- ralidade com um produto que responde por dezenas de milhares de mortes todos os anos. A diferença está no recibo fiscal. O Dia Mundial sem Tabaco se aproxima. 31 de maio. Haverá cam- panhas, discursos e alertas. Tudo necessário. Mas talvez falte uma sin- ceridade desconfortável. O cigarro não é apenas um problema de saúde pública. É um dos negócios mais lucrativos já construídos sobre a fra- gilidade humana. E continua funcionando. Os cemitérios sabem disso. Os hospitais também. Só parece que parte da sociedade ainda insiste em não ler a fumaça. ■ A sociedade também tem sua parcela de hipocrisia. Condena o tráfico de drogas com indignação permanente, mas convive com naturalidade com um produto que responde por dezenas de milhares de mortes todos os anos. A diferença está no recibo fiscal. A indústria da morte com filtro E-mail: gregogiojsimao@yahoo.com.br Radialista e estudante de Filosofia GREGÓRIOJ.L. SIMÃO N a última semana, o Senado brasileiro deu um passo histórico ao aprovar a Proposta de Emenda a Constituição (PEC) 221/2019, que extingue a famosa escala 6x1, um padrão de trabalho que há anos temmoldado a rotina de milhões de trabalhadores no país. Essamudança, que promete transformar a vida de quem labuta emsetores como comércio e serviços, abre um leque de possibilidades para umequilíbrio mais saudável entre trabalho e vida pessoal. Contudo, ao mesmo tempo em que celebra essa conquista, surgem desafios que demandam atenção. A escala 6x1, que exige seis dias consecutivos de trabalho, seguidos por um dia de folga, tornou-se uma prática comum, mas não sem consequências. Para muitos, essa rotina imposta resulta emdesgaste f ísico emental, comprometendo a saúde e a qualidade de vida. A nova proposta não apenas visa oferecer jornadas mais equilibradas, mas também promove uma visão de trabalho que prioriza o bem-estar do trabalhador. Ana Cláudia Ribeiro, professora de Sociologia do Trabalho da Universidade de São Paulo, celebra a aprovação da lei como um avanço significativo. “A possibilidade de jornadas mais humanas não apenas melhora a saúde mental dos trabalhadores, mas tambémaumenta a produtividade a longo prazo”, afirma. Essa perspectiva é compartilhada por muitos que acreditam que um ambiente de trabalho mais saudável pode resultar emmaiores índices de satisfação e produtividade. Além disso, a mudança pode facilitar a inclusão de mais pessoas nomercado de trabalho, especialmente aquelas que enfrentam dificuldades em conciliar suas obrigações profissionais com a vida familiar. Com mais tempo livre, a expectativa é que muitos possam investir em educação e desenvolvimento pessoal, criando um ciclo positivo de crescimento. Entretanto, a transição para esse novo modelo não será simples. Os críticos da proposta levantam preocupações legítimas sobre os impactos na economia. Carlos Eduardo Silva, economista da Fundação Getúlio Vargas, alerta que “amudança pode gerar resistência por parte de empregadores, especialmente emsetores que dependemde alta rotatividade demão de obra”. Anecessidade de incentivos governamentais que ajudemas empresas a se adaptarema essa nova realidade é um ponto crucial no debate. Outro fator que gera apreensão é a possibilidade de au- mento nos custos operacionais, especialmente em setores competitivos onde a eficiência é crucial. Juliana Costa, em- presária à frente de uma rede de lojas de varejo, expressa suas inquietações: “Precisamos de um tempo para entender como essa mudança vai afetar nossa capacidade de atender os clientes. A flexibilidade é importante, mas não podemos comprometer a viabilidade do negócio”. Omodelo aprovado na PEC é a escala 5x2, adotado em diversos países, onde os trabalhadores trabalhamcinco dias e têm dois dias de folga. Países como Alemanha, Reino Unido e Canadá implementaramesse sistema comsucesso, observando impactos positivos na produtividade e na saúde dos trabalhadores. Estudos mostramque essa jornada mais equilibrada não só aumenta a eficiência dos funcionários, mas também reduz o absenteísmo, melhorando a saúde mental e a satisfação no trabalho. Além disso, mais tempo livre estimula o consumo, impulsionando a economia local. Nesse contexto, o papel do poder público e das empresas se tornam ainda mais relevante. A criação de subsídios fiscais para pequenas e médias empresas que adotarem a nova escala, bem como programas de capacitação, são estratégias que podem mitigar os impactos negativos dessa transição. Paulo Henrique Gomes, sociólogo e especialista emrelações de trabalho, sugere que “é fundamental que asmudanças sejamacompanhadas de perto para que possamos identificar rapidamente os pontos que precisam de ajustes”. A flexibilidade deve ser uma via de mão dupla, contemplando as necessidades de traba- lhadores e empregadores. A aprovação dessa PEC, pode ser vista como um importante passo emdireção a uma nova cultura de trabalho no Brasil. Com um foco crescente na qualidade de vida e na saúde mental, as empresas terão que se adaptar a umnovo paradigma, onde o bem-estar do trabalhador é uma prioridade. Enquanto os benef ícios da mudança são claros, os desafios visíveis e os invisíveis definirão a eficácia dessa Lei. Contudo, a colaboração entre trabalhadores, empregadores e o governo será fundamental para garantir que essa transição ocorra de maneira suave e equilibrada. O futuro do trabalho no Brasil depende da capacidade de todos os envolvidos em encontrar um caminho que respeite os direitos dos trabalhadores e mantenha a saúde da economia em primeiro plano. ■ O fim da escala 6x1: benefícios e desafios A aprovação dessa PEC, pode ser vista como um importante passo em direção a uma nova cultura de trabalho no Brasil. Com um foco crescente na qualidade de vida e na saúde mental, as empresas terão que se adaptar a um novo paradigma, onde o bem-estar do trabalhador é uma prioridade. E-mail: drrodrigolimajunior@gmail.com Teólogo, pedagogo e advogado RODRIGO LIMA JUNIOR

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