Diário do Amapá - 31/05 e 01/06/2026

LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA |OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 31 DE MAIO E 01 JUNHO DE 2026 2 T alvez lembramos o caso da mosca que caiu no copo de leite e que, de tanto se mexer, conseguiu engrossá-lo e, assim, sair daquela perigosa si- tuação. Novamente, aquela mosca caiu num copo cheio de líquido. Tinha firme certeza de que, com o seu agitar-se, tudo seria resolvido. No entanto desta vez o líquido não engrossava. Outra mosca viu o desespero dela e se ofereceu para ajudar. Disse para a colega: “Tem um canudo ali. Nada até ele e sobe! Mas a tal mosca estava tão convencida de que o leite ia se transformar em manteiga, que não aceitou o socorro. Debateu-se por muito tempo. Suas energias se esgotaram e ela acabou afundando. Não percebeu que a situação era diferente e que, desta vez, o líquido não era leite. Era suco. Com o 9º Domingo do Tempo Comum voltamos à leitura do evangelho de Marcos. Teremos a possibilidade de acompanhar a sua catequese, lembrando que o objetivo de todos os evangelhos, também se por caminhos diferentes, é sempre o anúncio de “Jesus Cristo Filho de Deus” (Mc1,1). Se acolhemos a “boa notícia” dele, a nossa resposta deve ser a fé e o seguimento como discípu- los-missionários. Tudo isso exige escolhas. É nesse sentido que o evangelista Marcos nos apresenta algumas das “disputas” de Jesus comos seus adversários, que bem cedo começam a tramar “como haveriam de matá-lo” (Mc 3,6). Como era de se esperar, o primeiro grande embate entre Jesus e os fariseus acontece sobre a questão do sábado. De um lado, temos pessoas religiosas que cobram a observância rigorosa de um preceito ex- tremamente importante para os judeus e, do outro lado, gente com fome, que arranca espigas de trigo para comer, e umhomemdoente sentado num canto da sinagoga. A lei do sábado obrigava o descanso para que o povo pudesse reunir-se, ouvir a Palavra, louvar e agradecer a Deus pelas dádivas recebidas. O respeito da lei do sábado fazia com que os judeus se distinguissem dos outros povos e, ao mesmo tempo, confirmava-os na própria identidade de povo eleito. Era uma lei que devia ser respeitada pelo alto valor social: o repouso – e religioso – a gratidão pela eleição. No entanto, no tempo de Jesus, muitos detalhes para o cumprimento dessa lei a tinham tornado quase impraticável para muitos, so- bretudo para os mais pobres e as pessoas comalguma deficiência. Jesus não discute o valor da lei em si, mas lembra aos fariseus que ela existia para confirmar a dignidade do ser humano e não para humilhá-lo quando, por causa da fome, alguém era obrigado a algum trabalho no dia de sábado. Quando Jesus per- gunta se naquele dia era “permitido” fazer o bem ou fazer omal, ele está, simplesmente, colocando acima da lei do sábado a solidariedade com os irmãos so- fredores e marginalizados. Ele fica “triste” pela in- sensibilidade dos fariseus e partidários de Herodes com o homem aleijado. Colocando-o no meio e curando-o fica claro que Jesus prefere desobedecer à lei do sábado e enfrentar as consequências, que fechar o seu coração emnome de uma lei que, a essa altura, seria desumana. Como veremos, também, nos evangelhos dos próximos domingos, Jesus é uma pessoa livre que não pauta o seu agir conforme regras pré-estabelecidas sociais ou religiosas e nem para ganhar prestígio ou criar inúteis inimizades. Ele olha o ser humano na sua condição de fragilidade e, com isso, revela um Deus que ama a todos, a começar pelos mais fracos e necessitados. Ele não louva os observantes rigorosos da lei. Ao contrário, quer ajudá-los a se libertarem daquelas amarras que os prendiam e que os faziam ser insensíveis aos sofrimentos alheios. Só alguém livre, pode libertar, porque consegue ver e propor caminhos novos. Ao contrário, quem se achava – e ainda hoje se acha - “perfeito” no seu entendimento e na obediência a um Deus, que mais fiscaliza do que ama, acaba fechado em seu próprio orgulhoso rigor. Devemos duvidar de leis e normas que acomodam a nossa consciência, mas talvez nos impeçam de amar e de fazer o bem a quem está precisando. Jesus vem em nosso socorro, quer nos salvar da dureza do nosso coração. Ele sempre nos ensina a obedecer à lei do amor. ■ DOMPEDROCONTI E-mail: oscarfilho.ap@bol.com.br Bispo emérito de Macapá Como veremos, também, nos evangelhos dos próximos domingos, Jesus é uma pessoa livre que não pauta o seu agir conforme regras pré- estabelecidas sociais ou religiosas e nem para ganhar prestígio ou criar inúteis inimizades. Ele olha o ser humano na sua condição de fragilidade e, com isso, revela um Deus que ama a todos, a começar pelos mais fracos e necessitados. Era suco E xiste uma cena que se repete noBrasil comimpressionante regularidade. Após operações policiais ou medidas de investigação, surge rapidamente um vídeo do investigado. O roteiro quase nuncamuda: serenidade, confiança na Justiça, afirmação de respeito às ins- tituições e a promessa de que a verdade prevalecerá. Independentemente do partido, da região ou da gravidade dos fatos investigados, a mensagem segue a mesma lógica: afirmar inocência antes de qualquer julgamento e transmitir segurança ao público. Este artigo não discute culpa ou inocência, matéria reservada aos tribunais. O foco está no uso estratégico desse discurso como instrumento de influência política em um cenário que antecede as eleições de 2026. Emuma sociedade cada vezmais conectada, a disputa não ocorre apenas nos processos judiciais, mas tambémna formação da opinião pública. Ao longo dos últimos anos, as redes sociais transformaram a comunicação política. Narrativas passarama ser construídas e amplificadas por influenciadores, grupos demensagens, portais digitais e, em alguns casos, por ferramentas de inteligência artificial. Nesse contexto, o pronunciamento do próprio investigado tornou-se peça central da estratégia comunicacional. Diferentemente de perfis anônimos ou automatizados, ele possui o poder da identificação pessoal: é o próprio agente político falando diretamente ao eleitor. Pesquisadores da comunicação política identificampadrões recorrentes nesses pronuncia- mentos. Entre eles estão a demonstração de surpresa diante da investigação, a declaração de confiança nas instituições, a promessa de colaboração com as autoridades, a afirmação de que a inocência será comprovada e, em versões mais agressivas, a alegação de perseguição política. Trata-se de uma técnica amplamente conhecida no campo da comunicação de crise e das relações públicas aplicadas a litígios. Oobjetivoprincipal nãoé convencermagistrados ou investigadores,mas ocupar rapidamente o espaço narrativo perante a sociedade. No ambiente eleitoral, isso possui enorme relevância, pois a percepção pública frequentemente se forma antes que os fatos sejam plenamente esclarecidos. O palco decisivo deixa de ser o processo judicial e passa a ser a opinião do eleitor. O fenômeno torna-se ainda mais preocupante quando a própria investigação envolve estruturas destinadas à produção e disseminação de narrativas. Nesses casos, o discurso pós- operação não representa apenas uma defesa pessoal, mas a continuidade de uma estratégia co- municacional já existente. Opronunciamento inicial é rapidamente reproduzido, comentado e amplificado por redes digitais alinhadas ao investigado, reforçando uma versão dos fatos antes mesmo que a sociedade tenha acesso às informações completas. Nos últimos anos, esse discurso também sofreu uma transformação relevante. Antes, pre- dominava a postura de respeito ao sistema de Justiça, apresentando a investigação como um equívocoque seria corrigido. Hoje, emmuitos casos, a narrativa assume tomde enfrentamento, transformando o investigado emvítima de perseguição e convertendo instituições, autoridades ou adversários políticos emsupostos responsáveis por uma injustiça. Oréupassa a ocupar sim- bolicamente opapel demártir. Omaior desafio está na assimetria de informação. O investigado conhece os detalhes do processo, as provas existentes e as estratégias de defesa disponíveis. O eleitor, por sua vez, recebe informações fragmentadas, muitas vezes limitadas ao conteúdo que circula em suas redes sociais. Nessa realidade, o discurso padronizado funciona como mecanismo de neutralização do debate, reduzindo a complexidade dos fatos a mensagens simples, emocionais e facilmente compartilháveis. Outro aspecto revelador é aquilo que normalmente não é dito. Raramente esses pronun- ciamentos enfrentam diretamente as acusações específicas. Em vez disso, concentram-se em valores abstratos, como honra, fé, serenidade e confiança institucional. A estratégia é eficiente porque transmite segurança sem assumir o risco de discutir elementos concretos que possam repercutir juridicamente. É importante destacar que a presunção de inocência constitui garantia fundamental do Estado de Direito e deve ser integralmente respeitada. Entretanto, presunção de inocência jurídica e avaliação política são planos distintos. O Estado não pode condenar sem processo e prova, mas o eleitor tem o direito de analisar criticamente a conduta, o discurso e as circunstâncias envolvendo aqueles que pretendemexercer funções públicas. Odireito eleitoral brasileiro avançouno combate à desinformação, aouso abusivoda tecnologia e àsmanipulações digitais. Ainda assim, permanece uma lacuna: nãohámecanismo capaz de exigir que candidatos ou agentes políticos prestem esclarecimentos substanciais ao eleitorado sobre fatos relevantes que recaem sobre suas trajetórias públicas. Nesse espaço entre o que a lei permite e o que a de- mocracia exige, prosperamestratégias de comunicaçãoquemuitas vezes privilegiama narrativa emdetrimento da informação. Por isso, o principal antídoto continua sendo o eleitor informado. Não aquele que aceita au- tomaticamente a versão apresentada em vídeos ou notas oficiais, mas aquele que questiona, compara informações e observa não apenas o que é dito, mas tambémo que é omitido. Emum ambiente político marcado pela velocidade da informação e pela disputa permanente de narrativas, a qualidade da democracia depende cada vezmais da capacidade crítica do cidadão. Ao final, a pergunta que permanece é simples: quando um agente político afirma estar tranquilo e confiar plenamente na Justiça, o eleitor deve ouvir com atenção não apenas as palavras pronunciadas, mas também os fatos que ainda aguardam explicação. A Justiça julga. Quem escolhe seus representantes é o povo. E o povo merece mais do que discursos bem en- saiados. ■ E-mail: fabio@fabiogarcia.adv.br “Estou Tranquilo e Confio na Justiça”: O Discurso da Inocência como Arma Eleitoral em 2026 FÁBIOLOBATOGARCIA Advogado, Especialista e Mestrando emDireito Eleitoral e Político

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