Diário do Amapá - 03/06/2026

| OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ QUARTA-FEIRA | 03 DE JUNHO DE 2026 2 LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA A casa própria ocupa um lugar curioso na imaginação nacional. Obrasileiro desconfia de banco, de político, de previsão econômica e até da meteorologia. Mas acredita numa parede de tijolos com uma convicção quase religiosa. Se sobrou algumdinheiro, compra-se um lote. Se apareceu uma oportunidade, fecha-se negócio. Se o vizinho garantiu que está tudo certo, melhor ainda. O documento fica para depois. Sempre para depois. Os números ajudam a explicar o tamanho desse costume. Levantamento do IBGE mostra que 12,3% dos domicílios próprios do país não possuem título de registro regular. Nas áreas rurais, a proporção alcança 26%. Emoutras palavras, milhões de brasileiros moram em imóveis que consideram seus, mas cuja situação jurídica conta uma história menos tranquilizadora. É fácil atribuir tudo à informalidade histórica do país. Seria uma explicação confortável e incompleta. Existe também um cálculo doméstico perfeitamente racional. Quando a família já fez malabarismo para comprar o imóvel, surge a notícia de que ainda faltam escritura, registro, certidões, taxas, honorários pro- fissionais e uma peregrinação por repartições que parecem ter sido desenhadas por um inimigo da felicidade humana. O comprador olha para a pilha de despesas e conclui que a parede já está de pé, o telhado não cai e a cozinha funciona. A documentação pode esperar. E espera. Muitas vezes por décadas. Oresultadoéuma espéciedepropriedadeprovisória permanente. O imóvel existe, a família mora nele, paga contas, faz reformas, planta árvore no quintal e discute com o vizinho por causa do muro. Falta apenas o detalhe de provar juridicamente que aquilo lhe pertence. A burocracia brasileira tem um talento especial para produzir esse fenômeno. Em teoria, a docu- mentação garante segurança patrimonial, facilita fi- nanciamentos, reduz conflitos e valoriza o bem. Na prática, o cidadão frequentemente encontra custos que parecem desproporcionais à sua renda e proce- dimentos que exigemtempo, dinheiro e uma paciência que já não é distribuída em larga escala no país. O medo dos honorários também pesa.O temor de gastar hoje acaba produzindo um prejuízo maior amanhã. Quando chega a hora de vender o imóvel, fazer inventário, buscar crédito ou resolver uma disputa familiar, descobre-se que o problema não de- sapareceu. Apenas amadureceu. O paradoxo brasileiro é admirável. O cidadão aceita assumir uma dívida de trinta anos para comprar uma casa, mas hesita diante da conta necessária para legalizar a posse dessa mesma casa. É como comprar um automóvel e decidir economizar justamente no volante. Enquanto isso, cidades inteiras convivem com territórios juridicamente ne- bulosos. Oproblema não está apenas nas famílias. Está tambémna incapacidade histórica do Estado de transformar a regularização fundiária em um processo simples, acessível e previsível. Talvez a grande ironia nacional seja esta. O brasileiro sonha com a escritura como quem sonha com a aposentadoria. Sabe que seria importante. Sabe que traria tranquilidade. Sabe que um dia precisará dela. Mas sempre existe uma conta mais urgente, uma reforma mais necessária ou uma emergência mais imediata. E assim seguimos. Um país apaixonado pela casa própria e desconfiado do papel que a transforma, de fato, em propriedade. Um país onde milhões de pessoas possuem a chave da porta, mas ainda procuram a chave jurídica do pa- trimônio. Afinal, entre enfrentar a burocracia hoje e empurrá-la para amanhã, o brasileiro frequentemente escolhe amanhã. Aburocracia, por sua vez, agradece e permanece exatamente onde sempre esteve, esperando pacientemente pela próxima vítima. ■ Enquanto isso, cidades inteiras convivem com territórios juridicamente nebulosos. O problema não está apenas nas famílias. Está também na incapacidade histórica do Estado de transformar a regularização fundiária em um processo simples, acessível e previsível. Brasileiro ignora documentação legal de seus imóveis E-mail: gregogiojsimao@yahoo.com.br Radialista e estudante de Filosofia GREGÓRIOJ.L. SIMÃO E m artigo anterior citei o livro "A Bíblia dos Pergaminhos do Mar Morto" (e Dead Sea Scrolls Bible) de Eugene Ulrich e outros pes- quisadores que traduziram para o inglês e que utilizo como material de consulta. OsPergaminhos doMarMorto incluemmais de225manuscritos "bíblicos", dos quais cerca de 215 foram encontrados em Qumran. Quase todos esses manuscritos estão fragmentados, com algumas exceções, como 1QIsaa e 11QPsa. Estão incluídas partes de todos os livros doAntigoTestamento judeu e protestante, com exceção de Ester e Neemias, e alguns livros das Bíblias Católicas foramencontrados emQumran: Tobias, BenSira (tambémconhecido como Sirac ou Eclesiástico) e a Carta de Jeremias (conhecida como Baruc 6). Também se acredita que a comunidade de Qumran considerasse os livros de 1 Enoque e Jubileus como Escritura Sagrada. Um pergaminho importante, a Carta Halákica de Qumran (4QMMT), sugere a organização das Escrituras: "E também escrevemos para vocês para que tenham discernimento no livro de Moisés e nos livros dos Profetas e em Dav[id]". É a mesma que Jesus utiliza, conforme vemos emLucas (24,44): "que tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos deve ser cum- prido". O livro de Tobias foi ignorado por judeus, pro- testantes e evangélicos, especialmente por não ser original em hebraico, embora São Jerônimo tenha dito que utilizou uma cópia nesta língua para traduzir para latim. Afirmam ainda hoje que a Igreja só aceitou os deuterocanônicos no século XVI, o que não é verdade e ignoram que eles estavam na Septuaginta, o Antigo Testamento uti- lizado pelos primeiros cristãos, os apóstolos e dis- cípulos. O Livro de Tobias foi confirmado como um livro canônico pelo Concílio de Roma (382). Os protestantes ainda criticavam a utilização das partes do peixe como se fossemagia, embora achem normal mirar a estátua de uma serpente para se curar de envenenamento. Então, descobriramo livro de Tobias naCaverna 4 de Qumran, quatro rolos estão escritos em aramaico e um está em hebraico. Isso não prova qual seja a língua original, mas confirma relatos de que era popular na época de Jesus. Era consenso, antes das descobertas de Qumran, que Tobias estava datado entre os séculos I e III d.C., mas o manuscritomais antigo, 4QTobitd, foi datado em100 a.C., embora a história provavelmente tenha sido composta já no final do século III a.C. "Eu, Tobit, andei nos caminhos da verdade e da justiça todos os dias da minha vida", assim começa a fascinante história de Tobit, um judeu do final do século VIII a.C., que viveu no exílio em Nínive, a capital da antiga Assíria. A história narra as adversidades de Tobit, que culminam em cegueira. Seu filho Tobias, com a ajuda de Azarias, o anjo Rafael dis- farçado, embarca em uma aventura que proporciona a cura para a cegueira de seu pai, resgata uma donzela em apuros e que se torna sua esposa e estabelece sua fortuna. Ao longo da narrativa, o leitor aprende que alimentar os famintos, vestir os pobres e honrar o pai e a mãe são as chaves para a piedade. ■ Então, descobriram o livro de Tobias na Caverna 4 de Qumran, quatro rolos estão escritos em aramaico e um está em hebraico. Isso não prova qual seja a língua original, mas confirma relatos de que era popular na época de Jesus. Era consenso, antes das descobertas de Qumran, que Tobias estava datado entre os séculos I e III d.C. Tobias hebraico E-mail: mariosaturno@uol.com.br Tecnologista Sênior MARIO EUGENIO

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