Diário do Amapá - 07 e 08/06/2026
LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA |OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 07 E 08 JUNHO DE 2026 2 F oramquase quatrohoras. De umlado e de outro, semtrégua, opresidente doCongresso Nacional, Senador pelo Amapá, Davi Alcolumbre, ouviu com resiliência ofensas e ataques de seus pares, por não ter lido o requerimento de mais uma comissão de inquérito, desta vez sobre o caso do BancoMaster. Quando reagiu, disse em alto e bom som o que muita gente pensa, mas não tem a coragem de expressar: “querem abrir uma nova CPMI para fazer palanque eleitoral”. Pode-se até discordar do tom, mas o diagnóstico foi certeiro. A comissão parlamentar mista de inquérito é um dos instrumentos mais poderosos que a democracia brasileira possui. A Constituição lhe dá, no art. 58, § 3º, poderes de juiz para apurar determinado fato, por um limite de tempo. É, sem dúvida, uma arma legítima das minorias representadas no Congresso, que recebe constitucionalmente o empoderamento investigativo. O que é legitimo! O problema nunca foi a ferramenta, mas o uso que se passou a fazer dela. Ocorre que, mesmo quemuitas vezes, imperceptível, há uma diferença pequena, porém, decisiva, entre querer, verdadeiramente, apurar e buscar, unicamente, aparecer. Existe CPI que nasce para descobrir a verdade, essa serve ao seu país. E, outras que nascem para render manchetes, conteúdos e posts virais, servem apenas para a promoção da imagem de quem a conduz. A fórmula se repete: os depoentes, a imprensa, os requerimentos, as perguntas retóricas, “lições de moral” aos interrogados, com o propósito de render boas entrevistas, stories viralizados, e até feeds ávidos por engajamento. O que se altera é o propósito. Quando o objetivo deixa de ser a apuração e passa a ser a exibição pública, resta apenas uma fachada: a fiscalização esvaziada, reduzida a ummero espetáculomidiático. O “caso Master” sugere isso com nitidez. Liquidada pelo Banco Central, com prisões no âmbito da Operação Compliance Zero, a instituição financeira tornou-se o centro de um esforço investigativo sem precedentes. Sobre o episódio já se debruçam a Polícia Federal, o Ministério Público, a Comissão de Valores Mobiliários, o Tribunal de Contas e o próprio Supremo Tribunal Federal, configurando, talvez, o caso mais escrutinado da história recente do país. Emmeio a esse atual cerco jurídico, uma comissão parlamentar pouco acrescentaria em termos de apuração real. No entanto, o palco político que ela projeta, sob o magnetismo de um ano eleitoral, revela-se irresistivelmente atraente. E aqui reside o ponto que costuma incomodar ambos os lados: essa não é uma doença de esquerda ou de direita, é de todos. Basta olhar para trás. ACPI da Covid, em2021, teveméritos inegáveis ao expor contratos suspeitos, como o da vacina Covaxin, emumpaís que enterrava milhares de cidadãos por semana. Paralelamente, contudo, transformou-se emuma espécie de programa diário de televisão. Foram seis meses de audiência, um relatório commais de mil páginas e cerca de 80 pedidos de indiciamento, que alcançaram desde o presidente da República até médicos e burocratas de escalões inferiores. No fim, o saldo prático foi irrisório. Mas, o que restou, com folga, foi a visibilidade política, e seguidores conquistados. A investigação era legítima, o espetáculo, porém, engoliu o seu propósito. Dois anos depois, do outro lado do tabuleiro político, a CPI do MST repetiu o roteiro com o sinal invertido. Instalada com estardalhaço para emparedar um movimento social, a comissão promoveu diligências midiáticas, monopolizou o noticiário por quatro meses e encerrou as atividades sem sequer conseguir votar o seu relatório final. Produziu discursos inflamados, fotos para as redes e nenhum resultado concreto. O fenômeno, contudo, não é isolado: no mesmo período, as CPIs das Americanas e da manipulação de resultados no futebol acenderam-se sob os refletores e apagaram-se sem apontar umúnico responsável. O padrão se repete porque o incentivo está invertido. Pouco antes de ser hostilizado por horas, aquele mesmo plenário havia derrubado um veto do presidente da República para destravar emendas, os recursos com que milhares de cidades poderão construir escolas, creches e as obras que faltam ao dia a dia das pessoas. Era trabalho de verdade, útil ao parlamentar e, sobretudo, aquemvive longedeBrasília.Não rendeuumúnico reconhecimento. E a razão é, desconfortavelmente, simples: fazer o certo não dá audiência, mas, tripudiar sobre o cancelado da vez virou a estratégia perfeita para garantir audiência. E quem perde com isso não é este ou aquele parlamentar. Somos nós. Cada comissão montada para as câmeras representa outra que deixou de investigar o que de fato importa. Cada minuto gasto na produção de um “videozinho”, para usar o mesmo termo do próprio presidente, é um minuto a menos dedicado a legislar, fiscalizar ou governar. A conta da encenação chega silenciosa, sempre depois, sob a forma de problemas reais que ninguém se dispôs a resolver. O recente desabafo do presidente do Congresso, ao se referir aos ataques vindos de todos os flancos, traduz comprecisão o esgotamento do sistema. Não se defende aqui o fim das investigações, mas que elas busquem resultados reais, e não a lacração. OBrasil precisa de parlamentares comprometidos com o povo, e não consigo mesmos. Tal apelo, por mais impopular que soe nestes tempos, precisa ser exaltado para que atinja os brios dos nossos representantes. Afinal, deve existir uma dignidade silenciosa no trabalho de quem cumpre a sua missão e serve ao país, mesmo sem esperar aplausos. Reconhecer essa postura, e co- brá-la, é o que ainda nos separa de transformar de vez o Parlamento empalco, e a cidadania emmera plateia. ■ E-mail: fabio@fabiogarcia.adv.br “Parlamento não é palanque” FÁBIOLOBATOGARCIA Advogado, Especialista e Mestrando emDireito Eleitoral e Político C erta vez, um pai passeava pelas ruas da cidade com os seus dois filhos. Eles estavam chorando e de cara fechada. Um conhecido, ao encontrá-los, perguntou: – Qual é o problema com os dois meninos? – É o mesmo problema do resto do mundo, respondeu o pai. Tenho três nozes e ambos querem duas. No evangelho de Lucas, deste Sétimo Domingo do Tempo Comum, en- contramos diversos ensinamentos de Jesus. Ele nos chama a uma verdadeira revolução em nossos relacionamentos humanos e… econômicos. Nos pede para amar os inimigos, fazer o bem àqueles que nos odeiam e falam mal de nós, de não pedir de volta o que nos foi tirado. Devemos abençoar aqueles que nos amaldiçoam e oferecer a outra face a quem já nos esbofeteou de um lado. Jesus nos diz que amar somente aqueles que nos amam, fazer o bem a quem o faz para nós, emprestar dinheiro a quem temos certeza pagará a dívida, não tem nada de novo. Qualquer pessoa pode agir assim. Até os pecadores fazem negócios desse jeito. Afinal, é uma questão de troca de favores e prestações. Ninguém quer perder nada e, assim, vivemos na defensiva, sempre atentos para não sermos enganados. Jesus nos pede para agirmos de uma maneira diferente, mais corajosa, inesperada, capaz de surpreender. Isso porque a referência dos “filhos do Altíssimo” não pode mais ser a esperteza do mundo, mas deve ser, nada menos, que a misericórdia de Deus. Ele é um Pai “bondoso também para com os ingratos e os maus” (Lc 6,35). Na manifestação das nossas opiniões a respeito dos outros não de- vemos julgar e nem condenar. Devemos usar de uma medida larga, abundante de compreensão e perdão, porque com a mesma medida serão também avaliadas as nossas ações. Após ter escutado essas palavras de Jesus, somos tentados a pensar que ele foi um profeta visionário, que tinha muita imaginação e vivia fora da realidade. No entanto ele nos deu o exemplo quando perdoava os pecadores e, sobretudo, quando invocou a mi- sericórdia do Pai para aqueles que o crucificavam. Talvez sejamos nós a não saber mais acreditar que algo diferente possa acontecer nesta sociedade, onde sobram disputas, vio- lências e injustiças e faltam demais fraternidade, solidariedade e paz. Continuamos a querer possuir mais, na ilusão de sermos mais felizes pelo poder ou os bens materiais que acumulamos. O chamado “bolo” das riquezas talvez continue crescendo, até quando o planeta Terra aguentar. Mas quando será partilhado de forma justa e respeitosa da dignidade de toda pessoa humana? Ainda no evangelho deste domingo, Jesus nos mostra o caminho. É a bem conhecida “regra de ouro”: “O que vós desejais que os outros vos façam, fazei-o também vós a eles” (Lc 6,31). Se queremos amor sincero, devemos também oferecer amor sem outra finalidade que o bem de quem dizemos amar. Se tratamos mal o nosso próximo ou o excluímos com a nossa insensi- bilidade e indiferença, não podemos pretender atenção e ajuda quando precisarmos. Podemos esperar carinho se semeamos afeto e ternura. Quem não sabe renunciar nem a uma noz para alegrar o irmão e semear união, di- ficilmente encontrará um ombro para se apoiar na hora da privação. ■ DOMPEDROCONTI E-mail: oscarfilho.ap@bol.com.br Administrador Apostólico da Diocese de Macapá Continuamos a querer possuir mais, na ilusão de sermos mais felizes pelo poder ou os bens materiais que acumulamos. O chamado “bolo” das riquezas talvez continue crescendo, até quando o planeta Terra aguentar. Mas quando será partilhado de forma justa e respeitosa da dignidade de toda pessoa humana? Ainda no evangelho deste domingo, Jesus nos mostra o caminho. O problema A CPMI - Comissão Parlamentar Mista de Inquérito nasceu para investigar, não para promoção e visualização de políticos influencers.
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