Diário do Amapá - 28 e 29/06/2026
LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA |OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 28 E 29 JUNHO DE 2026 2 A recente eleição presidencial no Peru foi decidida por uma margem tão estreita que caberia, confortavelmente, na arquibancada de um estádio de futebol demédio porte. Keiko Fujimori assegurou a vitória no segundo turno com cerca de 50,1% dos votos válidos, superando Roberto Sánchez, que obteve 49,9%. A diferença real ficou abaixo da marca dos vinte mil votos — um contingente demográfico menor do que a população de um único bairro planejado de Macapá. Para alémdo aperto estatístico, umdetalhe inédito carrega umpeso analítico formidável: o fiel da balança foi o voto dos peruanos residentes no exterior, ma- joritariamente concentrados em nações como o Japão e a China. Pela primeira vez na história eleitoral daquela república, o escrutínio da diáspora teve a força de reverter o resultado consolidado dentro das fronteiras nacionais. Olhar os fatos friamente é premissa para evitar os caprichos do palpite. Esta foi a quarta tentativa de Keiko Fujimori, herdeira política do ex-presidente Alberto Fujimori, de alcançar a chefia de Estado. Sua plataforma, ancorada na ortodoxia de mercado e emuma retórica de "mão dura" contra a criminalidade, colidiu como projeto de Sánchez, egresso da esquerda tradicional e defensor do alargamento da presença estatal na economia. Odesenho geográfico dos votos expõe as vísceras de umpaís profundamente cindido. Keiko estruturou sua vitória na capital, Lima, e nas províncias litorâneas, de perfil mais urbano e comercial. Sánchez, em contrapartida, arrebatou o sul andino, o eleitorado rural, a floresta e as zonas montanhosas. Trata-se do velho Peru partido emdois: a centralidademetropolitana de um lado e as periferias re- gionais historicamente esquecidas do outro. Contudo, cabe a ressalva jurídica: embora Keiko tenha sido declarada eleita, o desfecho formal ainda aguarda a análise de recursos interpostos perante a Justiça Eleitoral. É uma vitória que, por ora, deve ser anotada a lápis. Quando distanciamos o foco do território peruano e passamos a observar a totalidade da América do Sul, a engrenagem regional revela-se com clareza. O fenômeno não é exclusivamente limenho. Na Argentina, o desenho reformista de Javier Milei vigora desde fins de 2023. No Chile, José Antonio Kast venceu o pleito e assumiu o Palácio de LaMoneda emmarço deste ano, sucedendo o ciclo de esquerda de Gabriel Boric. Na Bolívia — terreno que acompanho de perto por dever de of ício acadêmico—, a eleição de Rodrigo Paz pôs fim a quase duas décadas de hegemonia ininterrupta do Movimento ao Socialismo (MAS), de EvoMorales e Luis Arce. No Equador, Daniel Noboa obteve sua chancela de ree- leição. Ao alinhar Argentina, Chile, Bolívia, Equador, Peru e Colômbia, constata-se que, em um intervalo ligeiramente superior a 24 meses, o mapa político sul- americano operou uma transição cromática radical. Aanálise apressada—e fre- quentemente preguiçosa — apressa-se em diagnosticar uma "onda ideológica conservadora" que avassala o continente. Trata-se de uma leitura de superf ície. O traço de união entre essas realidades nacionais não é a súbita conversão doutrinária das massas à direita, mas sim a fadiga generalizada. A Bolívia rompeu sua hegemonia partidária sob o peso da pior crise econômica de uma geração, marcada por escassez de divisas, inflação crônica e desabastecimento de combustíveis. O Peru compareceu às urnas com um sistema partidário pul- verizado em trinta e cinco candidaturas presidenciais no primeiro turno, resultando em índices alarmantes de votos nulos e absenteísmo: mais de sete milhões de cidadãos simplesmente ignoraram o chamado das urnas, a despeito da obrigatoriedade do sufrágio. O que testemunhamos não é necessariamente um endosso entusiasmado aos programas da direita, mas simo acionamento de ummecanismo de punição contra quem ocupa o poder de turno e falha em entregar estabilidade e bem- estar. Não se trata de uma onda oceânica, estável e perene; assemelha-se, antes, a umpêndulo rigoroso. O eleitorado latino-americano penaliza o governante de hoje — papel que cabia, majoritariamente, às coalizões progressistas no último ciclo — e fará o mesmo amanhã com os novos mandatários caso as respostas econômicas não se materializem. As franjas desse movimento tocam diretamente as perspectivas brasileiras para o pleito de outubro. No Brasil, o governo em exercício detém a máquina, mas carrega o ônus inerente à vidraça da gestão pública. Amesmíssima régua de exigência e desgaste que solapou as bases governistas de Santiago a Bogotá operará no cenário nacional. A grande questão que o cenário andino e platino nos impõe é clara: estamos diante de uma guinada ideológica consciente ou as- sistimos à cobrança implacável de uma fatura social aos inquilinos do poder? ■ DANIELCHAVES E-mail: Daniel.s.chaves@gmail.com Analista e Professor da Unifap O Pêndulo Sul-Americano e a Lição do Fio da Navalha no Peru Q uando o outro não faz é preguiçoso. Mas quando você não faz... é porque está muito ocupado. Quando o outro se decide a favor de um ponto, é cabeça dura. Mas quando você o faz... está sendo firme. Quando o outro fala sobre si mesmo, é egoísta. Mas quando você fala... é porque precisa desabafar. Quando o outro se esforça para ser agradável, tem segundas intenções. Mas quando você age assim...é gentil. Quando o outro progride, teve oportunidade. Mas quando você progride...é fruto de muito trabalho. Quando o outro luta pelos seus direitos, é teimoso. Mas quando você o faz...é prova de caráter. Etc. etc. etc. Só olhamos para nós. Como é dif ícil ver o bem e as qualidades dos outros. Neste domingo, a liturgia da Festa da Apresentação do Senhor, quarenta dias após o Natal, prevalece sobre a do Quarto Domingo do Tempo Comum. O evangelho de Lucas nos fala de Maria e José que vão ao Templo de Jerusalém para cumprir a lei que exigia o resgate dos primogênitos. Para o sacrif ício, eles entregam aos sacerdotes a oferta dos pobres: dois pombinhos. Era uma pequena família como muitas outras que deviam estar lá para cumprir a mesma obrigação. Nada de extraordinário. No entanto, eis que aproximam-se dois idosos: Simeão e Ana. Ambos frequentavam o Templo praticando orações e jejuns. O evangelho não relata as palavras de Ana, somente nos diz que louvava a Deus e falava “do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém” (Lc 2,38). De Simeão sa- bemos mais. Foi “movido pelo Espírito Santo...tomou o menino nos braços e bendisse a Deus” (Lc 2,27- 28). Reveladoras são as suas palavras. Simeão diz estar disposto a partir, porque agora viu com os seus olhos a salvação que Deus preparou para todos os povos. Declara com palavras solenes que aquela criança será “luz para iluminar as nações e glória do povo de Israel” (Lc 2,32). Aquele menino será, porém, também um “sinal de contradição”, de queda ou de reerguimento. Serão revelados os pensamentos de muitos corações a favor dele ou contra. Por fim, Simeão profetiza para a mãe de Jesus, que uma espada lhe traspassará o coração. Palavras enigmáticas naquele momento, mas que Maria guardou em seu coração junto com todos aqueles acontecimentos (Lc 2,51). Quando nasceu João, que depois será o Batista, todos se perguntavam: “O que virá a ser este menino?” (Lc 1,66). É bastante fácil perceber que as narrações do evangelista Lucas, de fato, querem suscitar a nossa curiosidade a respeito daquele outro menino que ainda devia nascer. A página do evangelho deste do- mingo nos prepara para conhecer melhor a pessoa e a missão de Jesus. Começamos pelo “sinal de contra- dição”. Jesus não é somente um divisor de águas entre o Antigo e o novo Testamento, entre a religião dos judeus e a fé cristã. Com o seu mandamento do amor e o seu jeito de amar, fiel até a cruz, ele nos obriga, no melhor sentido da palavra, a tomar a maior decisão da nossa vida. Todos nós podemos procurar ser felizes sozinhos, zelando pelo nosso bem- estar individual, ou gastar a nossa vida para alegrar a existência de outros, pra- ticando o bem e a justiça e servindo de maneira especial os irmãos mais neces- sitados corporal e espiritualmente. Simeão fala daquele menino como “luz das nações”. Nós acreditamos nisso, mas, alguns anos atrás, houve quem dissesse que a Coca Cola era mais conhecida que Jesus Cristo. Talvez ainda hoje. A fé não é um produto comercial, que se pode vender ou comprar. A verdadeira “propaganda” dela vai além das palavras, depende do nosso testemunho de vida. Cabe a nós cristãos provar com as nossas escolhas se Jesus é mesmo a luz que ilumina o caminho da nossa vida ou não. É significativo que Simeão e Ana, os dois idosos, não falem deles ao Menino, não peçam nada para eles. Ficam felizes por ter encontrado e reconhecido o Salvador e agradecem a Deus por isso. Para falar bem de alguém, ou de nós mesmos, não precisa falar mal dos outros, como se isso diminuísse os nossos defeitos. Sejamos cristãos que conhecem tão bem o Senhor ao ponto de estar sempre prontos a dar razão da nossa esperança a todo aquele que a pedir (cf. 1Pd 3,15). ■ DOMPEDROCONTI E-mail: oscarfilho.ap@bol.com.br Bispo Emérito Quando nasceu João, que depois será o Batista, todos se perguntavam: “O que virá a ser este menino?” (Lc 1,66). É bastante fácil perceber que as narrações do evangelista Lucas, de fato, querem suscitar a nossa curiosidade a respeito daquele outro menino que ainda devia nascer. Os outros e você
RkJQdWJsaXNoZXIy NDAzNzc=