Diário do Amapá - 05 e 06/07/2026

LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA |OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 05 E 06 JULHO DE 2026 2 A noite de 24 de junho começou como registro sismográfico e terminou como fato geopolítico. Dois abalos em sequência — magnitude 7,2 e, trinta e oito segundos depois, 7,5 — atingiram o centro-norte da Venezuela, os maiores a sacudir o país em mais de um século. A onda percorreu o continente: o tremor foi sentido em Caracas, na Colômbia e no Norte do Brasil, e em Belém as autoridades evacuaram preventivamente seis prédios; a vibração alcançou também o Pará, o Amazonas, Roraima e o Amapá. Quando o chão do vizinho treme e a vibração atravessa a nossa janela, a interdependência regional deixa de ser figura de linguagem. O balanço oficial divulgado em 1º de julho pelo presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, contabiliza 2.295 mortos e 11.267 feridos. AOrganização Internacional para as Migrações estima, em cálculo preliminar, que 6,76 milhões de pessoas podem ter sido afetadas — cerca de dois milhões delas em Caracas. Tomado o Censo mais recente como régua, é um contingente próximo de nove vezes a população inteira do Amapá. Sob os escombros, contudo, a aritmética convive com o improvável. Equipes francesas e norte-ame- ricanas retiraram com vida um pai e um filho de um edif ício colapsado em La Guaira, quatro dias após os sismos; no dia seguinte, socorristas da Ve- nezuela, do México e de El Salvador resgataram um jovem de 21 anos depois de 106 horas soterrado. México, Chile, El Salvador, Estados Unidos, Catar, Espanha e Nações Unidas mantêm delegações no país. O Brasil está entre os primeiros a chegar: desde 26 de junho, aeronaves da FAB transportam bombeiros de três estados, cães farejadores, inte- grantes da Defesa Civil Nacional e técnicos da Anatel — estes últimos equipados para localizar sinais de celulares ainda ativos sob os escombros. O quinto voo, em 30 de junho, levou 52 militares e 18 toneladas de medicamentos para ampliar o hospital de campanha brasileiro em La Guaira. A missão, coordenada pela Agência Brasileira de Cooperação, deve durar ao menos trinta dias. A análise bifurca- se a partir daqui, olhando o plano interno, em dois percursos. O primeiro lê os escombros como atestado terminal da falência do modelo chavista. O segundo os lê como colheita exclusiva do estrangulamento externo. Ambas são leituras de superf ície. O meca- nismo profundo é menos confortável para qualquer trincheira: capacidade estatal é infraestrutura acumulada —hospitais abastecidos, defesa civil treinada, telecomunicações redundantes, estoques estratégicos —, e ela se erode tanto pela desorganização doméstica quanto pelo cerco financeiro, em proporções que a poeira ainda não permite medir. O desastre não cria a fragilidade; ele a audita. Há, ainda, uma janela que a tragédia entreabre. A história regional conhece o fenômeno da chamada diplomacia do terremoto: em 1999, os sismos que atingiram a Turquia e a Grécia destravaram canais bilaterais que a política convencional mantinha fechados havia décadas. Se algo análogo germinará no norte sul-americano — entre Caracas, Washington e os vizinhos que hoje dividem o mesmo canteiro de resgate —, é cedo para afirmar. Mas o tabuleiro foi embaralhado, e embaralhado pelo subsolo. Para o Brasil, a lição tem endereço amazônico. A fronteira norte conhece de longa data o transbordamento da crise venezuelana, e Roraima o sabe melhor do que qualquer chancelaria. A resposta brasileira — avião, hospital de campanha, cão farejador, técnico de telecomunicações — é a diplomacia de vizinhança em sua versão prática, sem inflação retórica. Por isso a diplomacia e as relações internacionais não podem prescindir da re- ciprocidade e de valores humanitários: quando o próximo desastre auditar a nossa própria capacidade de resposta, o que e quem exatamente ele encontrará? ■ DANIELCHAVES E-mail: Daniel.s.chaves@gmail.com Analista e Professor da Unifap Os terremotos de 24 de junho não medem apenas a energia liberada pelas placas tectônicas. Medem, sobretudo, a capacidade de resposta de um Estado desgastado por duas décadas de crise, por anos de sanções e por um interregno político sem precedentes — e testam, de passagem, a qualidade da diplomacia de vizinhança sul- americana. A Venezuela e o desafio da solidariedade humanitária em tempos de fragmentação O homem foi nomeado mandarim. Daquele momento em diante, seria uma grande autoridade e precisava de um manto adequado ao cargo. Um amigo lhe indicou um bom alfaiate de seu conhecimento. Para poder confeccionar o manto, o alfaiate quis saber desde quando o homem era mandarim. Aquele senhor estranhou a pergunta, mas o alfaiate logo explicou: “É que um mandarim recém-nomeado fica tão deslumbrado com o cargo que mantém a cabeça altiva, ergue o nariz e estufa o peito. Assim sendo, tenho que fazer a parte da frente maior que a parte de trás. Anos mais tarde, o trabalho e a experiência o tornammais sensato e eu costuro o manto igual na frente e de trás. Com o passar dos anos, o seu corpo fica encurvado, semmencionar a humildade adquirida através de uma vida de esforços e trabalho. Então eu faço o manto de forma que as costas fiquem mais longas que a frente. Portanto – concluiu o alfaiate – tenho que saber há quanto tempo o senhor está no cargo para que a roupa lhe assente apropriadamente”. O novo mandarim saiu da loja pensando menos no manto e mais na sabedoria daquele simples artesão. No evangelho de Marcos do 25º Domingo do Tempo Comum, Jesus continua andando pelos caminhos da Galileia, ensina os seus discípulos e volta a falar da sua paixão, morte e ressurreição. Eles não compreendiam o que ele queria dizer. Estavam demais ocupados em outra questão. Animados, talvez, pela própria ambição, discutiam sobre quem seria o mais importante entre eles. Ao perceber o teor da disputa, Jesus derruba todas aquelas expectativas. Para oMestre quemquiser ser o primeiro seja aquele que se coloca no último lugar e serve a todos os demais. O que vale mesmo é a busca do bem dos irmãos, a disponibilidade para ser- vi-los, nada de briga pelo poder. Em seguida, para exemplificar a gratuidade do serviço, Jesus abraça uma criança e a coloca no meio deles afirmando que quem a acolherá, por causa do seu nome, estará acolhendo a ele em pessoa e aquele que o enviou: Deus Pai. Com efeito, uma criança era, e ainda é, totalmente dependente dos adultos. Só pode ser ajudada por generosidade, porque não tem poder algum para devolver algum favor e nem dinheiro para pagar a atenção recebida. Jesus fala aos discípulos, mas, no fundo, está apresen- tando a escolha dele de não ser um“messias” dominador, mas servidor, pronto para dar o exemplo de entregar a sua própria vida para que outros possam aprender a amar cada vez mais (Mc 10,45). Não podemos excluir que a memória desse ensi- namento de Jesus possa ter sidomotivada por divisões e disputas de poder naquelas primeiras comunidades cristãs onde foi escrito o evangelho de Marcos. No entanto, amensagemé de uma atualidade extraordinária entre pessoas e grupos da própria Igreja. Parece que a vontade de estar na frente e mandar nos outros é sempre uma grande tentação da qual não é fácil se livrar. Se também olharmos a situação atual da sociedade, existe uma verdadeira guerra para ocupar os primeiros lugares do poder em todos os âmbitos. As declarações são sempre juras de dedicação e humildade, mas depois, muitas vezes, na atuação prática acontece o contrário. No pensamento de muitos, quem chega a ocupar um cargo e não se organiza para se promover e subir mais é um incapaz que não soube aproveitar a oportunidade. Assim se perpetuam a corrupção e a descrença de que possa existir alguém que, estando em lugares de grande responsabilidade, consiga agir mais para o bem comum do que para os próprios interesses particulares. Para Jesus ser “últimos” não significa simplesmente ter humildade, verdadeira ou falsa que seja, mas saber de fato colocar os outros a nossa frente, trabalhar mais para o bem-estar dos demais do que para o nosso. Precisamos de autoridades que estejam a serviço do bem de todos, de maneira especial os mais necessitados e esquecidos. Segundo João 13,12-15, quando Jesus lavou os pés dos discípulos não disse que deixava de ser Mestre e Senhor, mas que era justamente nesta condição que os estava servindo de maneira tão exemplar. Um detalhe: na ocasião Jesus tirou o manto e cingiu o avental como faziam os servos. Não precisou de alfaiate. ■ DOMPEDROCONTI E-mail: oscarfilho.ap@bol.com.br Bispo Emérito Não podemos excluir que a memória desse ensinamento de Jesus possa ter sido motivada por divisões e disputas de poder naquelas primeiras comunidades cristãs onde foi escrito o evangelho de Marcos. No entanto, a mensagem é de uma atualidade extraordinária entre pessoas e grupos da própria Igreja. Parece que a vontade de estar na frente e mandar nos outros é sempre uma grande tentação da qual não é fácil se livrar. O mandarim e o alfaiate

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