Diário do Amapá - 11/07/2026

| OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ SÁBADO | 11 DE JULHO DE 2026 2 LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA Radialista e estudante de Filosofia E-mail: gregogiojsimao@yahoo.com.br A esquerda brasileira sempre teve uma virtude e um problema. A virtude foi nunca depender apenas da ordem unida. O problema foi exatamente nunca depender apenas desta união. O cenário que se desenha para 2026 mostra isso outra vez. Enquanto o campo governista trabalha com a possibilidade de recondução de Luiz Inácio Lula da Silva, partidos e correntes à esquerda do PT seguem sem um nome único e, em alguns casos, sem disposição declarada para embarcar automaticamente nesse projeto. Siglas e grupos como PCB, PSTU, PCO e UP indicam intenção de lançar candidaturas próprias ou manter autonomia política neste momento. Não é novidade. A história da esquerda brasileira é também a história de cisões, mani- festos, rupturas e reencontros de ocasião. Houve tempos em que a diver- gência era vista como riqueza intelectual. Depois virou método. Hoje, em certos momentos, parece esporte. O discurso costuma repetir um padrão co- nhecido. O PT é acusado de conciliação excessiva. O governo é cobrado por não avançar o suficiente. Surgem propostas maximalistas, às vezes sem sustentação política concreta ou sem maioria social construída. Ao mesmo tempo, algumas críticas feitas por esses grupos acabam encontrando eco em temas como desigualdade, concentração de renda, financiamento da política e limites da coalizão tradicional. Mas política não premia apenas quem aponta problemas. Premia quem transforma crítica em maioria. O Brasil conhece esse roteiro. Em 1989, na primeira eleição direta para pre- sidente após a redemocratização, o país teve o recorde de 22 candidatos à Presidência da Repú- blica. Foi um desfile de correntes, lideranças e projetos que fragmentaram o debate nacional antes do segundo turno reorganizar o tabuleiro. E toda eleição brasileira produz um fenômeno paralelo. Os pré-candidatos. Até o registro oficial, muitos entram na disputa para ocupar espaço de mídia, fortalecer partidos, negociar alianças ou construir capital político que depois será convertido em candidatura à Câmara dos Deputados, ao Senado ou às Assembleias Legislativas. Não é fraude. É método político. Em 2026, o número de nomes colocados na praça pública já sugere um quadro pulverizado entre campos ideológicos distintos e ainda sujeito a mudanças até as convenções partidárias. A esquerda que não fecha questão agora talvez esteja dizendo que quer sobreviver para além de uma liderança histórica. Ou talvez esteja repetindo um velho hábito nacional. Multiplicar can- didaturas quando faltam consensos. Neste momento, porém, o retrato é esse. Muitos discursos. Muitas bandeiras. Muita disposição para marcar posição. E pouca gente disposta a abrir mão do próprio palanque antes da hora. ■ A esquerda que não fecha questão agora talvez esteja dizendo que quer sobreviver para além de uma liderança histórica. Ou talvez esteja repetindo um velho hábito nacional. Multiplicar candidaturas quando faltam consensos. Neste momento, porém, o retrato é esse. Muitos candidatos, poucos projetos GREGÓRIOJ.L. SIMÃO E m um episódio que reverberou por todo o Brasil, a promotora de justiça Elayne Christina da Silva Rodrigues protagonizou uma cena polêmica durante um fórum de conselheiros tutelares em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. O que deveria ser um espaço de diálogo e colaboração entre as autoridades e a so- ciedade civil foi abruptamente interrompido por uma declaração da promotora, que se disse "assolapada por uma oração evangélica" e ameaçou retirar o Ministério Público da cerimônia, classificando a menção a Deus como inconstitucional. Essa situação gerou um acalorado debate sobre a laicidade do Estado e os limites da ma- nifestação religiosa em espaços públicos. A laicidade do Estado é um princípio fundamental da democracia brasileira, consagrado na Constituição. Ela garante que o Estado seja neutro em questões re- ligiosas, não favorecendo nem discriminando qualquer crença ou culto. Porém, essa neutralidade precisa ser compreendida, pois, não implica em cerceamento das manifestações de fé. O Brasil, com sua diversidade cultural e religiosa, abriga uma infinidade de expressões de crença que fazem parte da identidade nacional. A interrupção do fórum por parte da promotora não foi apenas uma ação isolada, mas, o reflexo de uma interpretação distorcida do princípio da laicidade, e que se tornou uma caixa de ressonância que reverbera a mesma compreensão equivocada. A afirmação de que a menção a Deus é inconstitucional ignora a com- plexidade do debate sobre a relação entre religião e Estado. A Constituição Brasileira, ao garantir a liberdade de culto, também permite que as pessoas expressem suas crenças de maneira pública, desde que isso seja feito de modo consensual e não interfira nos direitos de terceiros. É válido ressaltar que a laicidade do Estado não sig- nifica um Estado ateu. A visão de um Estado que não reconhece a espiritualidade de seu povo é tão limitada quanto a ideia de que todas as manifestações religiosas devem ser silenciadas em nome da neutralidade. A di- versidade de crenças faz parte da riqueza cultural bra- sileira, e deve ser respeitada e acolhida, assim como, a oração em si, deve ser vista como uma expressão de es- perança e solidariedade, elementos essenciais em qualquer função pública, especialmente em um evento que trata de direitos e proteção de crianças e adolescentes. O incidente em Duque de Caxias também nos leva a refletir sobre a crescente polarização em torno das questões religiosas no Brasil. A atitude da promotora, ao ameaçar retirar o Ministério Público do evento por causa de uma oração, pode ser vista como uma forma de perseguição sutil, mas real, que ignora a pluralidade religiosa que caracteriza a sociedade brasileira. A não compreensão do princípio da laicidade pode levar a uma negação do espaço de expressão para todas as reli- giões, criando um ambiente onde apenas certas crenças têm voz e visibilidade, enquanto outras são silenciadas. Esse tipo de comportamento não é apenas um ataque à liberdade religiosa, mas também um desrespeito à Constituição, que prega a convivência pacífica entre diversas crenças e práticas. A liberdade de crença implica na liberdade de expressão e a aceitação das diferenças. Quando a laicidade é interpretada como um veto à expressão religiosa, corre-se o risco de criar uma sociedade intolerante, onde a fé é vista como algo a ser escondido. O episódio em questão não deve ser tratado como um simples desentendimento em um evento público, mas como um alerta sobre o que está em jogo nas discussões acerca da laicidade e liberdade religiosa. O Estado deve ser um espaço de acolhimento, onde as diferenças são respeitadas e celebradas, e não um ambiente hostil que desencoraja a expressão de crenças. A reflexão que se impõe é que a verdadeira laicidade é aquela que garante a todos os cidadãos o direito de praticar sua fé, seja ela qual for, sem medo de represálias ou de deslegitimação. A busca por um equilíbrio entre o respeito à di- versidade religiosa e a neutralidade do Estado é um desafio que merece ser enfrentado com seriedade e compromisso. Portanto, é fundamental que, ao discutirmos a laicidade, tenhamos em mente que a expressão da fé não deve ser silenciada, mas sim compreendida como parte do tecido social que nos une. O desafio é garantir que a laicidade do Estado não se transforme em um instrumento de opressão, mas sim em um facilitador da convivência pacífica e respeitosa entre todos os cidadãos, independentemente de suas crenças. Somente assim poderemos construir uma sociedade verdadeiramente plural e justa. ■ Estado laico ou intolerância religiosa? A reflexão que se impõe é que a verdadeira laicidade é aquela que garante a todos os cidadãos o direito de praticar sua fé, seja ela qual for, sem medo de represálias ou de deslegitimação. A busca por um equilíbrio entre o respeito à diversidade religiosa e a neutralidade do Estado é um desafio que merece ser enfrentado com seriedade e compromisso. E-mail: drrodrigolimajunior@gmail.com Teólogo, pedagogo e advogado RODRIGO LIMA JUNIOR

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