Diário do Amapá - 17/07/2026
| OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ SEXTA-FEIRA | 17 DE JULHO DE 2026 2 LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA O presidente Trump declarou que "os Estados Unidos são, de longe, o maior produtor de petróleo do mundo, então, quando os preços do petróleo sobem, ganhamos muito dinheiro". Apesar de muito ingênuo acreditar, o apresentador Jimmy Kimmel, em seu programa, lembrou que isso que o Trump fez é "gaslighting". Ele ainda brincou que se ouve muito o termo gaslighting, mas raramente quando se trata de gasolina de verdade. A palavra foi inspirada na peça Gas Light, de Patrick Hamilton, nos anos 1930, mas que Ocou conhecida por causa do Olme de 1944, Gaslight (no Brasil, ganhou como título: À Meia Luz), estrelado por Ingrid Bergman e Charles Boyer e dirigido por George Cukor, e que dramatiza o conceito de gaslighting. No Olme, o ladrão de joias Gregory procura pedras preciosas raras que pertenciam a uma mulher rica que ele assassinou anos antes. Ele se casa com a sobrinha da vítima, Paula, e continua sua busca pelas joias, que acredita estarem escondidas na casa dela. Com medo de que Paula descubra seu plano, ele tenta levá-la à loucura. Entre outras táticas, ele muda objetos de lugar e quando ela percebe, ele diz que ela está esquecida. Com o tempo, Paula começa a duvidar de si mesma e de sua percepção da realidade. Só mais de uma década depois o termo gas- light foi associado ao fenômeno. O antropólogo Anthony Wallace usou a palavra em 1961, no livro Culture & Personality, para descrever essa tática de manipulação. A palavra gaslight foi a "Palavra do Ano" da Merriam-Webster em 2022. Tornou-se uma pa- lavra da moda usada contra chefes ruins, ex- namorados e líderes de todo o espectro políti- co. A socióloga e cientista da Universidade de Michigan Paige Sweet, que estuda o fenômeno em relações íntimas, descreve o gaslighting como fazer alguém se sentir louco. "É alguém tentando fazer você parecer ou se sentir louco", diz ela. É como "ver algo acontecer e depois ser informado de que isso não está acontecendo". Mas vai além de simplesmente mentir. Kate Abramson, autora de On Gaslighting diz que "Mentirosos comuns só querem que você acredite em algo. Isso pode fazer parte de um esforço maior para minar sua ca- pacidade de julgamento, ou não." Quando o gaslighting funciona, diz Sweet, "você sente que a culpa é sua ou que há algo errado em você por pensar que o que está acontecendo está realmente acontecendo, fazendo você desconOar de si mesmo como testemunha da realidade." No Olme de 1944, o gaslighting é explícito, uma manipulação planejada por um criminoso com intenções claras. Na vida real, os sinais nem sempre são tão óbvios. O abusador alimenta-se da vítima não saber exatamente o que está acontecendo com ela. Mas quem pratica gaslighting nem sempre age por pura maldade. Muitas vezes, é um mecanismo de defesa para exercer poder em uma situação. Mulheres são mais frequentemente vítimas de gaslighting. Elas são socializadas para serem mais conciliadoras e mais propensas a buscar terapia. Ser capaz de nomear essa experiência desorientadora pode ajudar as vítimas a recuperar sua identidade. Então, divulguemos! ■ MARIO EUGENIO E-mail: mariosaturno@uol.com.br Tecnologista Sênior No filme de 1944, o gaslighting é explícito, uma manipulação planejada por um criminoso com intenções claras. Na vida real, os sinais nem sempre são tão óbvios. O abusador alimenta-se da vítima não saber exatamente o que está acontecendo com ela. Gaslighting A ntes de tudo, vale uma pergunta que raramente fazemos. Quem cuida de quem cuida enquanto o tempo faz seu trabalho silencioso sobre os corpos e as memórias. A velhice nunca chega sozinha. Ela entra pela porta trazendo remédios, consultas, esquecimentos, noites interrompidas e uma cadeira vazia onde antes havia autonomia. O idoso, tantas vezes tratado como estatística ou despesa, continua sendo a biblioteca mais antiga de uma família. O problema é que ninguém percebe que, para manter essa biblioteca aberta, outro ser humano vai fechando as próprias páginas. Há um país inteiro sustentado por mãos invisíveis. Mãos que seguram corpos, organizam medicamentos, enfrentam banhos dif íceis, levantam quem já não consegue levantar sozinho e Ongem força quando a exaustão já tomou conta da alma. Não é coincidência que 53% desses cuidadores confessem viver sob estresse emocional. O espanto seria descobrir que ainda existe serenidade onde a rotina aprendeu a sobreviver sem descanso. O corpo protesta antes da consciência. Metade sente dores nas costas e nas articulações. Quase metade perdeu o sono e convive diariamente com a ansiedade. Não porque lhes falte coragem. Falta tempo para existir além da obrigação. Cin- quenta por cento já desistiram do próprio auto- cuidado, como se cuidar de si fosse um luxo re- servado a quem não ama ninguém. A matemática dessa realidade não fecha. Cin- quenta e sete por cento ainda precisam trabalhar para pagar as contas enquanto cuidam de um idoso. Outros dezesseis por cento tentam estudar, acreditando que o futuro ainda lhes deve alguma oportunidade. Entre uma esperança e outra, a vida cobra horas. Trinta e quatro por cento dedi- cam de três a cinco horas diárias ao cuidado. Vinte e seis por cento entregam de seis a oito horas. Dezesseis por cento vivem em dedicação integral, como se o relógio tivesse deixado de lhes pertencer. Existe uma ironia cruel escondida nessa história. Seis em cada dez cuidadores nunca receberam treinamento. Ainda assim são convocados a ad- ministrar medicamentos, movimentar corpos fragilizados e realizar pro- cedimentos delicados como a higiene íntima. A sociedade exige competência, mas oferece improviso. Cobra precisão, mas entrega solidão. Espera ex- celência enquanto economiza preparo. Talvez o verdadeiro retrato da velhice não esteja no rosto enrugado de quem envelheceu. Talvez esteja no rosto cansado de quem impede que esse envelhecimento aconteça no abandono. Cuidar de um idoso nunca foi apenas um gesto de afeto. Tornou-se um ato de resistência contra uma cultura que celebra a juventude e terceiriza a responsabilidade pelo Om da vida. Uma sociedade revela sua verdadeira idade não quando conta quantos idosos possui, mas quando decide se eles serão um peso compartilhado ou uma dignidade protegida. Enquanto essa escolha continuar sendo empurrada para dentro das casas, haverá milhões de heróis anônimos envelhecendo antes do tempo para que alguém possa envelhecer com um pouco mais de humanidade. ■ Quem cuida também envelhece e adoece E-mail: gregogiojsimao@yahoo.com.br Radialista e estudante de Filosofia Talvez o verdadeiro retrato da velhice não esteja no rosto enrugado de quem envelheceu. Talvez esteja no rosto cansado de quem impede que esse envelhecimento aconteça no abandono. Cuidar de um idoso nunca foi apenas um gesto de afeto. GREGÓRIOJ.L. SIMÃO
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