Diário do Amapá - 19 e 20/07/2026

LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA |OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 19 E 20 JULHO DE 2026 2 A cena percorreu os noticiários europeus na semana passada: eliminada aHolanda pela seleção do Marrocos, a festa estourou não apenas no Magreb, mas em Haia, onde milhares de torcedores de origemmarroquina —nascidos, criados, escolarizados e pagadores de impostos em solo neerlandês — tomaram as ruas com a bandeira vermelha e verde. O paradoxo é apenas aparente. Boa parte do elenco marroquino que encanta esta Copa nasceu justamente na Europa, filhos da diáspora que escolheram vestir a camisa do país dos pais. Já no Catar, em 2022, quando o Marrocos se tornou o primeiro semifinalista africano e árabe da história do torneio, a maioria dos convocados havia nascido no exterior. O fenômeno ganhou moldura institucional. Em 2020, a FIFA flexibilizou as regras de elegibilidade, permitindo, sob condições restritas, que atletas troquem de seleção mesmo após atuarem pela equipe principal de outro país. O resultado é um ambiente de trocas (e tambémummercado) simbólicas de pertencimentos: federações africanas e árabes disputam, berço a berço, os filhos da emigração formados nas academias de Paris, Amsterdã e Bruxelas. ACopa que se encerra amplifica a questão. Trata-se de umtorneio sediado por três países—Estados Unidos, México e Canadá—costurados por cadeias produtivas, por umtratado comercial cuja renovação, aliás, fracassou em 1º de julho, em plena competição, e por uma das maiores correntes migratórias do planeta. O futebol joga sobre a mesma fronteira que a política tenta admi- nistrar. E nem sempre consegue. Cabe a ressalva de método: nada disso autoriza leituras apressadas sobre “lealdades divididas”. Otorcedor de Haia que celebra oMarrocos não está desertando da Holanda; está exercendo uma identidade que a vida real — ao contrário dos formulários — gera na prática. *** Quando distanciamos o foco do presente e percor- remos a linha do tempo do torneio, descobrimos que a “novidade” é velha de noventa anos. A Itália bicampeã de 1934 e 1938, vitrinemáxima do regime deMussolini, venceucomos oriundi—jogadores nascidos naArgentina, filhos e netos da emigração italiana, repatriados para vestir o azul da pátria dos avós. Luis Monti é o caso- limite: disputou a final de 1930 pela Argentina e a de 1934 pela Itália. O fascismo, que pregava a pureza da nação, precisou importar os filhos da própria diáspora para afirmá-la emcampo. A ironia dispensa comentário adicional. O padrão tampouco era exclusividade europeia. Uruguai e Argentina, potências fundadoras do futebol de seleções, eramsociedades feitas de imigraçãomassiva — italiana, espanhola, britânica —, e seus elencos dos anos vinte e trinta eram o espelho disso. No Brasil, a questão chega primeiro pela via racial: um futebol nascido branco e elitista, no qual o jogador negro alisava o cabelo precisou esperar 1938 para consagrar Leônidas da Silva na Copa da França. Naquele mesmo junho, Gilberto Freyre publicava suas linhas sobre o “foot-ball mulato” — e, com todas as ressalvas que a obra freyriana exige, fixava a intuição que nos interessa: a seleção como espelho racial da nação, exibindo em campo o que a sociedade ainda negava fora dele. Anos depois, os irmãos Mário e Nelson Rodrigues lançariam a tese definitiva sobre o papel do Negro no Futebol Bra- sileiro. O que a globalização operou, portanto, não foi uma criação, mas uma inversão de fluxo. Nos anos trinta, o filho do emigrante europeu retornava para servir à velha metrópole; hoje, o filho do imigrante africano ou árabe, nascido na Europa, escolhe a seleção da origem familiar. O vetor mudou de sentido; o mecanismo — a nação futebolística recrutando além da própria linha de fronteira — permanece o mesmo. E a cada ciclo o tema reacende a fogueira política: a França campeã de 1998, celebrada como black-blanc-beur, foi atacada pela extrema direita precisamente por sua composição. Oque representa uma seleção nacional quando a nação vive, emparcela crescente, fora do próprio território? Quem tem direito à camisa — quem nasce no chão ou quem carrega a história? E, se o futebol já respondeu que ambos, quanto tempo a política levará para alcançar o placar? A escalação virou o terreno onde a Europa discute quem tem o direito de ser nação - e como sempre, é jogada fácil e desleal culpar o imigrante. Merece cartão vermelho. ■ DANIELCHAVES E-mail: Daniel.s.chaves@gmail.com Analista e Professor da Unifap As celebrações marroquinas nas ruas holandesas após a eliminação da Holanda não são anomalia da globalização. São o capítulo mais recente de uma história que acompanha o processo desde a origem em suas contradições, maravilhas e limites. A Camisa e o Passaporte: a Copa como Censo das Nações em Movimento D urante a aula de geografia, uma criança, em sua simplicidade, respondeu às perguntas da professora e disse: “A vantagem da longitude e da latitude é que quando estamos afogando podemos gritar em que lon- gitude e latitude estamos e, assim, poderão nos encontrar”. O evangelho de Mateus, deste 19º Domingo do Tempo Comum, apre- senta-nos uma situação inusitada e surpreendente, cheia de simbolismos e de mensagens. Com a costumeira arte narrativa dos evangelhos, as coisas vão acontecendo. Jesus decide se despedir das multidões depois de ter satisfeito a fome delas. Pede aos apóstolos que o precedam, de barco, para a outra margem do lago de Tiberíades. Ele fica sozinho para orar. Aquela que devia ser uma simples travessia ameaça se tornar uma tragédia. Uma súbita ventania contrária agita as ondas e o barco dos discípulos não alcança a terra firme. Era mesmo para ficar com medo. Os experientes pescadores, porém, não gritam por causa das ondas. Ficam apavorados, porque na es- curidão da noite enxergam uma figura humana caminhando ao encontro deles por cima das águas. Estava acontecendo algo evidentemente impossível para eles. O evangelista nos diz que o “fantasma” visto por eles era Jesus. O Mestre se aproxima e pronuncia palavras confortadoras: “Coragem! Sou eu. Não tenham medo!” (Mt 14,27). Mas isso não basta para eles acreditarem. Assim, Pedro desafia o desconhecido e pede para poder também caminhar sobre a água. Jesus aceita, mas o apóstolo ainda não venceu a insegurança e o medo e começa a afundar. Contudo Pedro consegue dizer palavras que são um verdadeiro grito de fé: “Senhor, salva- me!” (v.30). Em resposta, Jesus o repreende porque foi fraco na fé e duvidou. No final os discípulos re- conhecem quem é Jesus: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus” (v.33). Desde quando Jesus chamou os primeiros se- guidores e disse que faria deles “pescadores de ho- mens”, foi fácil comparar aquela pequena comuni- dade – que hoje chamamos de Igreja – com um barco enfrentando as ondas, mansas ou agitadas, na travessia dos tempos. Muitas obras artísticas buscaram representar isso. Em geral, na proa do barco está Pedro e, às vezes, os seus sucessores. No entanto, fica a pergunta à qual o evangelho deste domingo nos ajuda a responder: Jesus onde está? Não é ele o único, verdadeiro e “bom” pastor que conduz a sua Igreja? Sem dúvida alguma é assim! Contudo, depois da Ressurreição, o próprio Jesus entregou o dom do Espírito Santo e enviou os apóstolos para continuar a missão que o Pai lhe tinha confiado. Desde então a Igreja de Jesus Cristo, animada pelo Espírito Santo, singra os mares da história enfrentando as inevitáveis turbulências da fragilidade humana. Devemos ser realistas e não ter medo. A comunidade Igreja sempre será formada por pessoas – hoje somos nós – que, ao mesmo tempo, são santas e pecadoras. Ambas essas realidades são visíveis, não só porque experimentamos isso todos os dias em nossas vidas, mas também como conjunto de irmãos e irmãs. Somos chamados à santidade, mas ainda temos que fazer as contas com as nossas imperfeições humanas. A “outra margem” não se alcança tão facilmente. Mais uma vez, o segredo para continuar a travessia é ter fé. Nunca ter receio de gritar a Jesus nas horas dif íceis e nas horas de alegria também: “Senhor, salva-me”. Tem até um canto que diz: “Segura na mão de Deus e vai...”. O que acontece é que muitas vezes esquecemos disso. Preferimos confiar mais nas nossas próprias forças ou recorrer a outros “salvadores” que se apresentam como capazes de solucionar todos os nossos problemas e, assim, confundem a nossa cabeça e esfriam a nossa fé. Segurar na mão do Senhor não significa que sempre vai acontecer o que nós pensamos e que ele vai fazer tudo o que nós pedimos. Não, não foi isso que Jesus prometeu e não é esta a Vida Nova daquele Reino que começa neste mundo, mas não acaba por aqui. Ter fé significa acreditar que nunca estamos sozinhos, ele está sempre conosco. Jesus não precisa de latitude e longitude para nos encontrar e salvar. Basta gritar com fé: “Senhor, salva-me!” ■ DOMPEDROCONTI E-mail: oscarfilho.ap@bol.com.br Bispo de Macapá A comunidade Igreja sempre será formada por pessoas – hoje somos nós – que, ao mesmo tempo, são santas e pecadoras. Ambas essas realidades são visíveis, não só porque experimentamos isso todos os dias em nossas vidas, mas também como conjunto de irmãos e irmãs. Longitude e latitude

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