Diário do Amapá - 26 e 27/07/2026
ENTREVISTA PESQUISADORA | ENTREVISTA | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 26 E 27 DE JULHO DE 2026 14 A pesquisadora e professora do INPE Luciana Gatti, concedeu uma entrevista abrangente ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), onde analisa o impacto direto da destruição da floresta na aceleração da crise climática mundial. D iário doAmapá - Diante do Dia Nacional da Ciência e do PesquisadorCientífico, qual é a importância da pesquisa científica para o país, principalmente no que diz respeito ao avanço dasmudanças climáticas e no desenvolvimento de ações de proteção ambiental? Luciana Gatti - Aciência é como os olhos da sociedade emrelação ao futuro e ao presente. É através da ciência que nós conseguimosmo- nitorar as transformações que a ação humana está provocando no pla- neta. Sema ciência, estaríamos completamente cegos diante da gravida- de da crise climática. No caso do Brasil, a nossa ciência temumpapel aindamais estratégico, porque nós temos amaior floresta tropical do mundo, que é aAmazônia.Os cientistas brasileiros têmo papel crucial demostrar aomundo e ao próprio país o que está acontecendo coma floresta e como a sua destruição está alterando o regime de chuvas, au- mentando a temperatura e intensificando os eventos extremos que nós já estamos sofrendo na pele. Proteger os povos da floresta, os povos in- dígenas e as comunidades tradicionais tambémdepende da ciência, porque são eles que guardamo conhecimento tradicional e o território. Aciência valida essa importância emostra o tamanho do risco se nós os deixarmos desamparados. Diário - Quais os principais impactos ambientais e climá- ticos que o desmatamento e as queimadas naAmazônia? Luciana - Emmais de 20 anos de coleta de dados na atmosfera da Amazônia, mostramum cenário extremamente preocupante. A Amazônia está deixando de ser um sumidouro de carbono—ou seja, ela está deixando de absorver o CO₂ da atmosfera—e, em algumas regiões, principalmente no sudeste da Amazônia, ela já se transfor- mou emuma fonte de carbono. Isso significa que aquela região está emitindomais gases de efeito estufa do que consegue absorver. Diário - E por que isso acontece? Luciana - Por causa do desmatamento e do uso do fogo. Quando você desmata e queima a floresta, você acelera as mudanças climáticas globais de duas formas: primeiro, liberando o carbono que estava es- tocado nas árvores há séculos; segundo, reduzindo a capacidade da floresta de resfriar a atmosfera e de produzir chuva. Odesmatamento provoca um aumento na temperatura local de até 2 a 3 graus e uma redução drástica nas chuvas. Isso afeta o agronegócio no centro-sul do Brasil, seca os reservatórios das hidrelétricas e causa essas ondas de calor insuportáveis que estamos vivendo. Diário - Por que o atual modelo econômico, que prio- riza a expansão do agronegócio e a destruição da flo- resta, se tornou insustentável para a sobrevivência do bioma e da humanidade? Luciana - Esse modelo econômico é baseado emuma ilusão de curto prazo. O agronegócio predatório avança sobre a floresta achan- do que vai lucrar mais expandindo a área de pastagemou de plantio de soja. Mas a ironia cruel é que esse mesmomodelo destrói as condi- ções climáticas que permitem a agricultura existir. Sem a Amazônia empé, não existemos chamados "rios voadores", que levamumidade para o resto do país. Estamos vendo quebras de safra sucessivas por conta de secas prolongadas e calor extremo. Destruir a Amazônia é cometer um suicídio econômico e ecológico. Para a humanidade, a perda da floresta acelera o chamado "ponto de não retorno" (tipping point), onde a floresta não consegue mais se regenerar sozinha e co- meça a se transformar emuma vegetação degradada, liberando bi- lhões de toneladas de carbono na atmosfera. Se isso acontecer, será impossível cumprir as metas do Acordo de Paris e conter o aqueci- mento global. Diário - De que forma os movimentos populares do campo, como o MST, e a sociedade civil em geral po- dem contribuir na defesa da floresta? Luciana - Os movimentos sociais têm um papel absolutamen- te fundamental. A defesa da Amazônia e o combate à crise cli- mática não podem ser feitos apenas com fiscalização de satélite ou canetada do governo. É preciso uma transformação na forma como produzimos e nos relacionamos com a terra. O MST e ou- tros movimentos populares mostram, na prática, que é possível produzir alimentos saudáveis através da agroecologia e de siste- mas agroflorestais, que combinam a produção de comida com a floresta em pé.Vocês estão na linha de frente da restauração am- biental com o plano nacional de plantar árvores e de recuperar áreas degradadas. Esse é o caminho. Precisamos de uma reforma agrária popular que valorize a floresta em pé e que dê condições para que as famílias camponesas vivam com dignidade, gerando renda a partir da bioeconomia de base comunitária, e não da destruição. A sociedade civil urbana precisa se conectar com essa luta, apoiando a agroecologia e cobrando o fim definitivo do desmatamento legal e ilegal. ■ Edição: CLEBER BARBOSA Texto: Solange Engelmann/MST PERFIL Graduada em Química (USP) e doutora em Ciência (UFSCar), principalmente empesquisas na área deMudanças Climáticas, focadas no entendimento do papel da Amazônia na emissão/absorção deGases de Efeito Estufa evariáveis climáticas. PRINCIPAIS EXPERIÊNCIAS - Pesquisadora titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais/ Centro de Ciências do Sistema Terrestre e professor de pós- graduação do curso Tecnologia Nuclear do IPEN / Universidade de São Paulo. - Bolsista CNPq, oordena Laboratório de Gases de Efeito Estufa (LaGEE), parte integrante do LaPBio/CCST/INPE. - Membro do IG3IS Implementing an Integrated, Global. Greenhouse Gas Information System. - Atua desde 2003 principalmente em pesquisas na area de Mudanças Climáticas, focadas no entendimento do papel da Amazonia na emissão e absorção de Gases de Efeito Estufa e o efeito das variáveis climáticas nestes balanços. - Atua nas áreas de Química da atmosfera, com ênfase em Análise de Gases Traços e Química Ambiental, atuando principalmente nos seguintes temas: gases de efeito estufa, interações atmosfericas, gases traços, compostos organicos volateis. - Possui graduação em Química na FFCLRP- Ribeirão Preto pela Universidade de São Paulo (1987), Mestrado em Quimica Analítica pela Universidade de São Paulo – IQF São Carlos (1991) e doutorado em Ciencia – UFSCar. Luciana Gatti ■ Coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do INPE, a cientista Luciana Gatti Desmatar e queimar a Amazônia é acelerar mudanças climáticas. eimar V DA/ Divulgação
RkJQdWJsaXNoZXIy NDAzNzc=