Diário do Amapá - 29/07/2026
| OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ QUARTA-FEIRA | 29 DE JULHO DE 2026 2 LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA N o último 4 de junho, faleceu uma de minhas heroínas mais admiradas, embora menos conhecida, Niède Guidon, de quem tomei conheci- mento no final da década de 1970, por suas descobertas que revolu- cionariam a história da ocupação das Américas. Uns anos atrás, assistindo um documentário a respeito desse assunto, diversos pesquisadores norte- americanos foram apresentados como se autores fossem da tese, lamentá- vel! Niède nasceu em 12 de março de 1933, na cidade de Jaú (SP). Curiosamente, morreu em São Raimundo Nonato, Piauí, na região que devotou sua vida. Ela estudou em uma escola pública, onde aprendeu a falar francês, inglês e espanhol! Depois, formou-se emHistória Natural pela Universidade de São Paulo (USP), em 1959. Passou no concurso para o magistério e foi indicada para Itápolis (SP). Mas, lá, os professores eram advogados e farmacêuticos, que criaram um movimento contra as professoras da USP. E o padre as taxou de comunistas... Então a Secretaria da Educação transferiu-a para o Museu Paulista da USP, que tinha as culturas indígenas e a arqueologia sem ninguém traba- lhando. Conseguiu uma bolsa e foi especializar-se em Arqueologia Pré- Histórica, com ênfase em arte rupestre, na Universidade de Sorbonne em Paris (1961–1962). De volta ao Brasil, foi contratada pelo Museu do Ipiranga, em São Paulo. Em 1963, o prefeito de Petrolina (Pernambuco) mostrou-lhe fotos de esboços curiosos descobertos nas paredes de um abrigo da Capivara, foi uma re- velação. Ela percebeu que eram pinturas antigas. Porém, aconteceu o golpe militar e ela foi perseguida, refugiou-se na França. Então, fez seu doutorado. Em 1973, ela conseguiu ir para a Serra da Capi- vara finalmente, após receber uma verba do Centro Nacional da Pesquisa Científica (equivalente ao CNPq brasileiro), e firmar uma parceria com a Universidade de São Paulo. Ficou três meses, visi- tando 58 sítios que eram conhecidos pela população local. Então, em 1978, o Ministério das Relações Ex- teriores da França financiou uma missão arqueo- lógica franco-brasileira no Piau, descobrindo novos sítios. Hoje, já tem mais de 1600 sítios. E suas descobertas foram de vestígios das pinturas a esqueletos que têm características morfológicas de povos africanos e aborígenes e não asiáticos, diferentes, portanto, das de povos asiáticos, que teriam atravessado o estreito de Bering há 13 mil anos. A consagração começou em junho de 1986, quando a revista Nature publicou suas descobertas: A visão de que o homem não chegou ao continente americano antes da última glaciação como tem sido sustentada pelos sítios arqueológicos. No entanto, relatamos agora datas de radiocarbono de um sítio brasileiro que comprovam que o homem primitivo já vivia na América do Sul há pelo menos 32.000 anos. Essas novas descobertas vêm do grande abrigo rochoso pintado do Boqueirão do Sítio da Pedra Furada, cujas paredes e teto são decorados com um rico conjunto de pinturas pré- históricas. Em suma, foi um exemplo de alguém que amou e protegeu nosso patri- mônio histórico, algo pouco valorizado por muitos radicais atualmente. ■ Niède Guidon, arqueóloga A consagração começou em junho de 1986, quando a revista Nature publicou suas descobertas: A visão de que o homem não chegou ao continente americano antes da última glaciação como tem sido sustentada pelos sítios arqueológicos. E-mail: mariosaturno@uol.com.br Tecnologista Sênior MARIO EUGENIO O Brasil nunca teve tantos médicos. E, paradoxalmente, nunca faltaram tantos médicos nos lugares onde mais se precisa deles. A 8ª Demografia Médica, divulgada em maio de 2025, revela um crescimento vertiginoso no número de profissionais de medicina no país: já somos mais de 620 mil médicos em atividade. Em tese, esse número deveria nos colocar em outro patamar de acesso à saúde. Mas a realidade, como sempre, desmente a teoria com a crueldade dos fatos. A distribuição dos médicos segue a lógica torta da desigualdade nacional. O Sudeste concentra quase metade de todos os profissionais do país. São Paulo, sozinho, já se aproxima da média europeia, com mais de 3 médicos para cada mil habitantes. Mas quando se olha para o Norte e parte do Nordeste, essa média despenca. No Amazonas, por exemplo, essa taxa mal chega a um terço do que se vê nos grandes centros. Ou seja, temos médicos demais onde há estrutura e médicos de menos onde há sofrimento. Ao invés de corrigir distorções, o sistema de formação médica as repete. O número de faculdades de medicina não para de crescer — já são mais de 370 cursos em operação, muitos deles abertos sem planejamento, sem hospital-escola, sem campo de prática real. Um processo que transforma a formação médica em um produto, e não em um compromisso com a saúde pública. Estamos formando profis- sionais com CRM na mão, mas sem o preparo e a vivência necessários para atuar no caos do SUS, onde falta tudo — menos gente precisando de atendimento. E se os dados da demografia médica apontam um avanço quantitativo, eles também evidenciam um descompasso cruel entre o setor público e o privado. Cerca de 60% dos médicos brasileiros atuam na rede privada, que atende apenas 25% da população. O restante, cerca de 75% dos brasileiros, depende do SUS — commenos profissionais, estrutura precária e um volume de pacientes cada vez mais elevado. Esse abismo, que já era conhecido, agora ganha contornos estatísticos. Amedicina brasileira é uma das poucas áreas em que o aumento da oferta não tem gerado distribuição justa. A lógica é a da con- centração, da comodidade, da lógica de mercado. Onde há plano de saúde, há fila de médicos. Onde há miséria, há fila de espera. O sistema vira as costas justamente para os que mais precisam. E se engana quem pensa que o problema será resolvido apenas com mais for- mandos. O Brasil não precisa apenas de mais médicos — precisa de bons médicos, bem formados, motivados e, sobretudo, comprometidos com a saúde pública. Médicos que saibam o que é atender em condições adversas, que entendam a importância do SUS, que escolham a medicina não só como profissão, mas como missão. É preciso, com urgência, uma política pública séria que trate a saúde como prioridade, e não como estatística. Sem planejamento, incentivo e dignidade para os profissionais que atuam na linha de frente, não haverá número que dê conta do colapso silencioso que se instala nos corredores dos hospitais públicos. A medicina avança, sim. Mas o país, como projeto de cuidado coletivo, ainda tropeça em suas velhas contradições. O que a Demografia Médica 2025 escancara, no fundo, é que seguimos tentando tratar o Brasil com band-aid, quando o que ele precisa é de ci- rurgia de Estado. ■ A medicina que avança sem curar o País É preciso, com urgência, uma política pública séria que trate a saúde como prioridade, e não como estatística. Sem planejamento, incentivo e dignidade para os profissionais que atuam na linha de frente, não haverá número que dê conta do colapso silencioso que se instala nos corredores dos hospitais públicos. E-mail: gregogiojsimao@yahoo.com.br Radialista e estudante de Filosofia GREGÓRIOJ.L. SIMÃO
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