Diário do Amapá - 05/08/2026
| OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ QUARTA-FEIRA | 05 DE AGOSTO DE 2026 2 LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA E m junho último, a Popular Science publicou uma interessante matéria sobre o efeito que os meios eletrônicos de memória têm no cérebro humano. Até algumas décadas atrás, mesmo com agendas, memorizávamos muitos telefones, hoje, mal sabemos o nosso próprio. Tudo começou com as pinturas rupestres nas cavernas até as letras da escrita e os números. Tábuas de argila, pergaminho e papiro, passando pela imprensa mecânica aos meios magnéticos e de silício e das câmeras do celular. Atualmente, há muitos dispositivos eletrônicos externos que nos auxiliam a concluir uma tarefa cognitiva, é o chamado descarregamento cognitivo (cognitive offloading). A utilização de meios externos para memória traz um grande benef ício, especialmente, por causa da quantidade cada vez maior de informações que consumimos diariamente. Os pesquisadores que estudam os efeitos da documentação digital concentram-se nas áreas de memória prospectiva (como lembrar um evento futuro), memória de trabalho (para uso imediato) e recordação factual (como lembrar o caminho enquanto dirige). Quando você documenta informações impor- tantes (como fotografar onde estacionou), o seu cérebro redireciona o processamento de duas maneiras: 1) Descartar essas informações da me- mória de curto prazo, reconhecendo que uma cópia duplicada existe com segurança em outro lugar. 2) Realocar a capacidade cognitiva recém- liberada. Em outras palavras, o descarregamento cognitivo alivia a carga mental, liberando a limitada memória de trabalho para outras tarefas. E quais são os benef ícios? 1) Conserva o esforço cognitivo, ou seja, o cérebro gasta menos calorias e reduz o esforço cognitivo, afinal, qual a vantagem de memorizar uns 50 telefones, como fazíamos antigamente? 2) Garante-se maior pre- cisão dos dados, pois o cérebro humano é propenso a alterações da memória e até alucinações. 3) Promove uma compreensão melhor do que se está fazendo, observando, falando e pensando. E o que de mal acontece? 1) A capacidade do seu cérebro de codificar e reter essas informações na memória de longo prazo pode ser prejudicada com o tempo, fenômeno chamado de amnésia digital ou "efeito Google". Quando se pode contar com um registro externo (como anotações, celular ou computadores), investe-se menos esforço mental na codificação interna daquela informação. Isso é chamado de hipótese do esforço de estudo (study-effort hypothesis). 2) Tomada de decisão prejudicada, uma vez que as informações ne- cessárias não estão no cérebro. 3) Priorização incorreta de informações. Ao armazenar o que seja mais importante, o cérebro tem mais espaço para tratar detalhes insignificantes, o que piora os processos cognitivos, já que não se lembra dos dados realmente importantes. No grupo de projetos de satélites do INPE, tínhamos um engenheiro que anotava tudo. Certa feita, precisávamos de uma informação já resolvida pelo grupo, mas ninguém lembrava, procurei o escriba e... ele não conseguiu achar nada. Da mesma forma, é preciso encontrar um meio termo no armazenamento de conhecimento ou ele será inútil. ■ A tecnologia auxilia o cérebro? E-mail: mariosaturno@uol.com.br Tecnologista Sênior A capacidade do seu cérebro de codificar e reter essas informações na memória de longo prazo pode ser prejudicada com o tempo, fenômeno chamado de amnésia digital ou "efeito Google". Quando se pode contar com um registro externo (como anotações, celular ou computadores), investe-se menos esforço mental na codificação interna daquela informação. MARIO EUGENIO T odo tempo tem sua mania. A diferença é que, antigamente, a febre precisava de alguns meses para pegar. Hoje ela nasce de manhã, viraliza à tarde e, quando chega a noite, já foi substituída por outra ainda mais barulhenta. A internet transformou a memória coletiva num grande condomínio de modismos des- cartáveis. Tudo começou, para muita gente, nas comunidades do Orkut, onde se discutia de receita de bolo a teorias conspiratórias. Depois vieram os eventos do Facebook, os rolezinhos, as dancinhas co- reografadas, os memes compartilhados em velocidade industrial e a certeza de que bastava um clique para transformar qualquer assunto em assunto de todo mundo. Em 2012, o país repetia "menos a Luiza, que está no Canadá" sem que boa parte sou- besse explicar a origem da frase. Quatro anos depois, multidões saíram às ruas em busca de Pokémon invisíveis. Houve quem atravessasse avenidas olhando apenas para a tela do celular, quem trombasse em postes e quem colocasse a própria segurança em risco para capturar um monstrinho que jamais pi- saria no mundo real. Vieram então os filtros milagrosos do Fa- ceApp, capazes de envelhecer rostos em se- gundos e de rejuvenescer a ingenuidade de quem aceitava qualquer novidade sem per- guntar o preço dos próprios dados. A brin- cadeira passou tão depressa quanto chegou. Logo depois desembarcaram os desafios virais, os vídeos de poucos segundos e a fá- brica de bordões. O Brasil cantou "Caneta Azul", respondeu "Receba", escapou do "Lá ele", cumprimentou com "boa, pai", chamou o "guerreiro" e descobriu que uma única pa- lavra bastava para render milhões de visua- lizações. Muito antes do TikTok, passinhos e co- reografias como o Passinho do Romano e a Sarrada no Ar já mos- travam que a criatividade das periferias costumava chegar primeiro, enquanto o restante do país apenas aprendia a copiar. No caminho, também apareceram golpes embalados em lin- guagem de meme, como o famoso Urubu do Pix, provando que a tecnologia evolui na mesma velocidade da esperteza humana. A impressão é que o brasileiro nunca perde a capacidade de transformar qualquer assunto em piada, dança, bordão ou negócio. Talvez seja esse nosso talento mais resistente. O problema começa quando a moda substitui o pensamento, quando o compartilhamento vale mais que a reflexão e quando a próxima tendência já nasce condenada ao esquecimento. A pergunta não é qual será o próximo viral. É saber se, entre um meme e outro, ainda sobrará tempo para que a realidade consiga competir com a distração. ■ Da febre da internet ao surto da semana A impressão é que o brasileiro nunca perde a capacidade de transformar qualquer assunto em piada, dança, bordão ou negócio. Talvez seja esse nosso talento mais resistente. O problema começa quando a moda substitui o pensamento, quando o compartilhamento vale mais que a reflexão e quando a próxima tendência já nasce condenada ao esquecimento. E-mail: gregogiojsimao@yahoo.com.br GREGÓRIOJ.L. SIMÃO Radialista e estudante de Filosofia
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