Diário do Amapá - 23 e 24/08/2026

LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA |OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 23 E 24 AGOSTO DE 2026 2 E m 14 de agosto a Petrobras confirmou a presença de hidrocarbonetos no poço Morpho, bloco FZA-M-59, a cerca de 175 quilômetros da costa amapaense e a quase quinhentos da foz do rio Amazonas, sob 3 mil metros de lâmina d'água. A pergunta relevante - e já vencida - não é se o Amapá deve explorar petróleo. Essa decisão já foi tomada na rodada de 2013, no leilão de junho de 2025, na licença emitida em outubro de 2025, na perfuração em curso. Mais de 70% da população amapaense apoia a exploração. É obvio que aMargemEquatorial pode mudar o patamar da economia não só do Amapá, mas do Brasil. A matriz econômica ainda é relevante, globalmente. Podemos falar, com segurança, que mesmo quem não apoia o petróleo deve ponderar: é através das riquezas dele que financiamos, como outros fizeram no mundo, a transição para o futuro verde da sustentabilidade energética e social. O percurso não foi fácil. Lembremos os célebres episódios com o Ibama, que emitiu a licença de operação em 20 de outubro de 2025 autorizando a perfuração de um único poço; no dia seguinte a Petrobras pediu a inclusão de outros três — Marolo, Maracujá e Manga — e teve o pedido negado em 10 de fevereiro de 2026 por documentação insuficiente; em 4 de janeiro, cerca de 18 mil litros de fluido de perfuração vazaram durante a operação, e o parecer técnico do órgão apontou efeitos tóxicos que a companhia contesta. Agora, com a bola no chão, o que se anunciou é uma descoberta, e entre a indicação de hidrocarbonetos e a declaração de comercialidade há naturalmente poços de avaliação, testes de formação e engenharia de produção — a própria Petrobras fala em sete anos até a coisa andar de vez. A Agência Na- cional de Petróleo, em informações costumeiramente sérias e confiáveis, estima 30 bilhões de barris de óleo equivalente atribuídos à Margem Equatorial. O que foi anunciado não é só riqueza. É prazo. Começa uma contagem regressiva e o relógio parece ter pressa. *** Os desafios já são, em larga medida, conhecidos. Organizar as regras fiscais, proteger e qualificar pessoas, resolver infraestrutura e conectividade com resiliência, intensificar a produção com fortalecimento da Ciência e Tecnologia, prover segurança urbana, fronteiriça e marítima e criar transparência para um futuro resiliente e desejável. Fazer o crescimento virar desenvolvimento, não só acontecendo e passando, mas ficando. James Cust e DavidMihalyi chamaramdemaldição pré-recurso o fenômeno pelo qual países que anunciam grandes descobertas crescemmenos do que as projeções feitas no dia do anúncio, e por vezes menos do que teriam crescido sem elas — a expectativa chega antes da receita, o Estado gasta contra um futuro não realizado, e o passivo sobrevive à decepção. No plano municipal brasileiro, Francesco Caselli e GuyMichaels encon- traram padrão análogo: municípios que passaram a receber royalties expressivos registraram forte alta de receita e declararam gasto correspondente, mas os ganhos efetivos em infraestrutura, serviços públicos e renda domiciliar ficaram muito abaixo do que o gasto declarado sugeria. Alguns contrastes iluminam o que está em jogo. A produção ocorrerá a 175 quilômetros da costa, com engenharia, embarcações e serviços de poço; em terra, o Amapá registrou PIB per capita de R$ 38.187 em 2023, contra R$ 53.887 da média brasileira; taxa de desocupação de 10,0% no primeiro trimestre de 2026, a maior do país; 42,7% dos ocupados sem vínculo formal; e a maior taxa de mortes violentas intencionais do Brasil em 2025, 42,5 por 100 mil habitantes, mais que o dobro da média nacional. Todo o desenvolvimento social, produtivo, tecnológico e de infraestrutura, que são parte imprescindível do que chamamos de futuro desejável, não depende do Petroleo do amanhã, depende das decisões do agora. Qualidade nas pessoas, nas instituições e nos bons exemplos, nós já temos. Já sabemos o que é para fazer e o que não é para fazer. Construir o nosso futuro desejável é a tarefa da década. ■ DANIELCHAVES E-mail: Daniel.s.chaves@gmail.com O anúncio do poço Morpho, em 14 de agosto, importa menos pelo que foi encontrado sob 3 quilômetros de água do que pelo prazo que abriu em terra. A contagem regressiva pelo futuro de um ciclo econômico novo ganha velocidade e urgência. Quo vadis, Amapá? Analista e Professor da Unifap Alguns contrastes iluminam o que está em jogo. A produção ocorrerá a 175 quilômetros da costa, com engenharia, embarcações e serviços de poço; em terra, o Amapá registrou PIB per capita de R$ 38.187 em 2023, contra R$ 53.887 da média brasileira; taxa de desocupação de 10,0% no primeiro trimestre de 2026, a maior do país; 42,7% dos ocupados sem vínculo formal; e a maior taxa de mortes violentas intencionais do Brasil em 2025. Os futuros do Petróleo no Amapá U m rei tinha dois escravos muito capacitados, obedientes e prestativos. Um dia, por causa da fidelidade deles, quis premiá-los. Chamou o primeiro e lhe disse: - Como recompensa do seu trabalho lhe dou a liberdade e uma boa quantia de dinheiro para viver bem com a sua família. Vá em paz! Depois chamou o segundo e lhe disse: - Como recompensa do seu trabalho lhe dou a liberdade. Quero, porém, que fique aqui comigo como meu conselheiro e amigo. Depois disso, os dois antigos escravos se encontraram e partilharam as decisões do rei. Apesar da liberdade e do dinheiro, o primeiro não ficou satisfeito e voltou com o rei para saber das razões do tratamento desigual. Logo perguntou: - Senhor, o meu serviço não era tão bom como aquele do outro, por que esta diferença? O rei respondeu: - Você tem razão, o serviço de ambos sempre foi excelente, mas você me obedecia por medo de ser castigado. Desejava a liberdade. Foi o que lhe dei. O outro, ao contrário, sempre obedecia para ter, em primeiro lugar, a minha estima e a minha amizade. Por isso, eu quis ficar com ele. No evangelho de João deste 21º Domingo do Tempo Comum, chegamos à conclusão do capítulo 6, cujo assunto principal, é bom lembrar, é a apresentação de Jesus como “o pão descido do céu”, “o pão da vida”. Nos versículos ante- riores, Jesus afirma que o sinal do pão, é “carne” – ou seja o corpo-vida - dele - e é verdadeiro alimento para os que acreditam. Igualmente, o sinal do vinho – o sangue-vida derramado na cruz - é verdadeira bebida. Para entender essa passagem do “pão” (e vinho) para “a carne e o sangue” precisamos confrontar as duas afirmações que encontramos em João 6,51: “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente” e em João 6, 54: “Quem come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia”. Esse jeito de falar gera a dúvida dos judeus que não compreendem o sentido do sinal do “pão” e se perguntam: “Como é que ele pode dar a sua carne a comer?” (Jo 6,52). Os discípulos também não entendem e dizem que é uma palavra “dura” demais: “Quem consegue escutá- la?” (Jo 6,60). Acreditar, de verdade, é exigente, pede escolhas. “A partir daquele momento, muitos discí- pulos”, diz o evangelho, “voltaram atrás e não andavam mais com ele” (Jo 6,66). Por isso, Jesus pergunta aos doze se também querem ir embora. A resposta de Si- mão Pedro: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68) além de uma declaração de fé no “Santo de Deus”, é o reconhecimento dele como presença e fonte daquela vida plena que somente Deus pode dar. O nosso pensamento vai de imediato a quantos passaram e passam pelas nossas paróquias, comunidades, grupos e movimentos, a quantos recebem os sacramentos, e depois... não participam mais. Jesus não obriga ninguém a se- gui-lo contra a sua vontade ou por medo. Mas ele, também, não quer seguidores de qualquer jeito. Conseguimos acompanhar Jesus – mais ou menos e cada um com o seu jeito – somente se reconhecermos nele “palavras de vida eterna”, ou seja, algo que possa realmente abrir novos horizontes para a nossa existência. Todo o esforço da Igreja com a sua organização e as suas atividades, de fato, deve ter uma só finalidade: anunciar a fé em Jesus de uma forma que permita o encontro livre e pessoal com ele. Devoções, costumes, conjunto de doutrinas, planejamentos, tudo pode ajudar, mas nada substitui a nossa adesão consciente e responsável à pessoa de Jesus. É ele que precisamos conhecer mais e melhor. É a sua palavra e o seu exemplo que devem ecoar em nossa consciência, quando somos chamados a tomar as grandes decisões da nossa vida, quando exultamos e agradecemos pelas metas alcançadas. Contudo, é com o tempo que passa, no serviço cotidiano, cansativo e rotineiro, na fidelidade humilde e escondida, na oração e no silêncio da nossa secreta interioridade, que amadu- recemos a amizade com Jesus. Se formos cristãos por amor ao Senhor e não para aparecer ou para ganhar alguma coisa, será ele mesmo a nos chamar, um dia, de amigos seus e não mais de servos (Jo 15,15). ■ DOMPEDROCONTI E-mail: oscarfilho.ap@bol.com.br Bispo de Macapá O nosso pensamento vai de imediato a quantos passaram e passam pelas nossas paróquias, comunidades, grupos e movimentos, a quantos recebem os sacramentos, e depois... não participam mais. Jesus não obriga ninguém a segui-lo contra a sua vontade ou por medo. Os dois escravos

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