Diário do Amapá - 13 e 14/09/2026
ENTREVISTA ENGENHEIRO | ENTREVISTA | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 13 E 14 DE SETEMBRO DE 2026 14 Especialista em logística e comércio exterior aponta posição privilegiada do estado na Foz do Amazonas, defende investimentos em portos, ferrovias e rodovias e cobra políticas de Estado para aproveitar o crescimento dos corredores do Norte. D iário do Amapá - Omundo tem aumentado as exigências relacionadas à sustentabilidade, des- carbonização marítima e eficiência dos portos. Como você enxerga a relação entre navios e portos e a necessidade de preparar os terminais para o longo cur- so e para o amadurecimento da cabotagem? Aluisio Sobreira - Nós esbarramos em alguns problemas impor- tantes, e um dos principais é a falta de uma política de Estado. Preva- lecem políticas de governo e, praticamente a cada quatro anos, você pode sofrer algum tipo de ruptura, mesmo quando existe continuida- de administrativa. Quando olhamos especificamente para o Amapá, vejo um estado que está saindo de uma situação de maior estagnação e caminhando para assumir uma posição de importante elo logístico. OAmapá está situado estrategicamente na Foz do Rio Amazonas, em uma área fundamental para o fluxo das embarcações que entram e saem da Amazônia. São cargas provenientes dos estados amazôni- cos e também do Pará. Por essa localização, o Amapá precisa receber um tratamento especial quando pensamos em logística e na estrutu- ra necessária para atender aos novos fluxos econômicos. Diário - Qual é a importância econômica e geopolítica que o Norte e o Nordeste passam a assumir com essas novas fronteiras? Aluisio - Essa mudança não começou agora. Nas últimas três déca- das tivemos um enorme trabalho de desenvolvimento da Região Centro-Oeste, inclusive com participação importante da Embrapa. Só que estamos falando de estados interiores, sem acesso direto ao mar, enquanto o comércio exterior brasileiro é realizado fundamen- talmente pelo mar. Ao mesmo tempo, o perfil das nossas exporta- ções mudou significativamente. A indústria de transformação per- deu espaço e tivemos um grande crescimento do agronegócio no Centro-Oeste. Com isso, as necessidades de infraestrutura ficaram cada vez mais evidentes. E essas cargas possuemmão e contramão: de um lado, o Centro-Oeste recebe fertilizantes e combustíveis; do outro, exporta grandes volumes de produtos do agronegócio, princi- palmente soja, milho e farelos. Isso naturalmente desloca uma par- cela crescente da importância logística brasileira para os corredores do Norte e Nordeste. Diário - E o aumento do volume dessas cargas represen- ta um desafio ainda maior para esses novos corredores? Aluisio - Sem dúvida. Hoje somos grandes exportadores de peso, e estou falando literalmente de peso. São volumes enormes de produ- tos que precisam ser escoados. Não por acaso, um novo plano de lo- gística editado pelo Ministério de Portos e Aeroportos aponta a ne- cessidade desses corredores. Na região que envolve Amapá, Pará e também os portos nordestinos, temos o chamado Corredor Centro- Norte, que se conecta a áreas como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Tocantins, onde a produção continua crescendo. Parte importante dessas cargas já utiliza o complexo do Porto do Itaqui e o Amapá deverá ser um dos estados beneficiados por essa nova confi- guração logística. O problema é que esse crescimento já era previsí- vel, mas ainda temos uma série de gargalos, tanto nos portos maríti- mos e interiores quanto na infraestrutura terrestre. Diário - Que tipo de gargalo terrestre ainda impede que essa produção chegue aos portos commaior eficiência? Aluisio - Temos exemplos muito claros. Estados como Piauí e Ma- ranhão ganharam enorme importância econômica com o cresci- mento da produção e com a necessidade de escoamento dessas car- gas. Mas ainda convivemos com situações como uma viagem entre Teresina e São Luís levar cerca de dez horas para percorrer aproxi- madamente 600 quilômetros. Quando essas rodovias foram conce- bidas, não existia o volume atual de soja, milho, combustíveis e veí- culos pesados, como os bitrens. Estamos utilizando infraestrutura de outra época para atender uma realidade econômica completa- mente diferente. Além disso, ferrovias foram desativadas ou enfren- tam grandes dificuldades de implantação. Então o que estamos vi- vendo é realmente uma revolução logística, mas essa revolução pre- cisa ser acompanhada pela infraestrutura. Diário - O que o Brasil poderia aprender com a estraté- gia chinesa de infraestrutura e comércio exterior?? Aluisio - A comparação é interessante porque, na década de 1980, China e Brasil tinham participações relativamente próximas no co- mércio internacional. A China fez uma escolha estratégica e promo- veu uma revolução na infraestrutura. O Brasil, por sua vez, conti- nuou muito concentrado na movimentação de produtos básicos, tanto importação quanto na exportação, com baixo valor agregado. Nota: Devido a limitação de espaço, publicação foi reduzida. Para ler a entrevista completa acesse www.diariodoamapa.com.br ) ■ Reportagem: Márcia A. Almeida Edição: Cleber Barbosa PERFIL Aluisio é engenheiro civil, sócio fundador e diretordaMerco Shipping Marítima. ÉVice- Presidente da Câmara Brasileira deContêineres e Transporte Ferroviário e Multimodal. Breve currículo - Graduado em Engenharia pela Faculdade de Engenharia de Nova Iguaçu, Sobreira iniciou sua sólida caminhada profissional no setor industrial. Foram 16 anos dedicados à liderança de complexas iniciativas de engenharia no competitivo mercado de cimento, período que moldou sua visão sobre eficiência operacional e supply chain de alta escala. - Com mais de 40 anos de atuação na espinha dorsal do comércio exterior brasileiro, o engenheiro e executivo Aluísio de Souza Sobreira consolidou-se como uma das vozes mais experientes no debate sobre a modernização da infraestrutura portuária, regulação e transporte multimodal no país. Sua trajetória reflete a própria evolução das cadeias de suprimentos e do fluxo comercial do Brasil com o mercado global.- Mercado atual - Sua liderança também se estende ao comércio global como Diretor da Associação de Comércio Exterior do Brasil.Para quem acompanha o desenvolvimento regional, Aloísio também é o Presidente do Conselho do Nordeste Export.eficiência energética; e modelos energéticos. Aluísio Sobreira ■ Entrevista coma especialista, no quadro ConexãoMargemEquatorial, da Rádio Diário FM (90,9) Amapá pode virar elo estratégico da nova revolução logística brasileira V DA/ Breno Barbosa
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