Diário do Amapá - 20 e 21/09/2026

ENTREVISTA PESQUISADOR | ENTREVISTA | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 20 E 21 DE SETEMBRO DE 2026 14 Especialista em logística portuária afirma que Margem Equatorial pode abrir nova frente econômica no Norte, mas que não se limite à exportação de petróleo bruto e invista em refino, multimodalida de, portos e formação de mão de obra. D iário doAmapá - Depois de 35 anos de atuação no Sistema Petrobras e de acompanhar a evolução da infraestrutura energética e logística brasileira, como você avalia hoje a integração entre os diferentes modais de transporte no país? Giovanni Cavalcanti - Primeiro, precisamos respeitar o tamanho do Brasil. Somos umpaís de dimensões continentais e comuma popu- lação distribuída demaneiramuito desigual. Grande parte da popula- ção está concentrada próxima ao litoral, enquanto o interior possui uma densidade populacional muitomenor e, aomesmo tempo, tornou-se umgrande celeiro de commodities da agroindústria. Oproblema é que essas áreas não receberam, demaneira proporcional à sua importância, toda a estrutura logística de que o país necessita. Isso acontece nas fer- rovias, nas hidrovias e tambémemoutrosmodais. Houve crescimento e existem investimentos acontecendo, inclusive nas hidrovias, mas a matriz brasileira continuamuito concentrada no transporte rodoviário. O transporte por rodovia ainda representa uma parcela enorme das movimentações de longa distância e, naminha avaliação, isso gera inefi- ciência. Precisamos de umamatrizmais equilibrada. Diário - E por que ferrovias, hidrovias e dutovias são tão importantes para corrigir esse desequilíbrio? Giovanni - Quando olhamos para o interior do Brasil, temos gran- des volumes de soja e minério. Não é eficiente querer transportar soja e minério por distâncias superiores a 500 quilômetros dependendo basicamente de caminhões. Países competitivos, vemos uma utiliza- çãomuitomaior das ferrovias. Nos Estados Unidos e empaíses euro- peus, por exemplo, a malha ferroviária possui umpapel muito impor- tante. No Brasil, alguns grandes investimentos ferroviários foram rea- lizados por empresas como a Vale. Na área de dutovias, também tive- mos investimentos importantes da Petrobras, mas ainda exploramos muito pouco esse modal. Temos gasodutos e oleodutos, mas a malha dedicada ao transporte de derivados para os centros consumidores ainda é pequena diante do tamanho do país. Existem alguns exem- plos, como o oleoduto São Paulo-Brasília e outros sistemas que aten- dem refinarias e regiões específicas, mas ainda é muito pouco. Por isso considero que existe umdesequilíbrio na nossa malha logística. Diário - Falta uma integraçãomaior entre o planejamento energético e o planejamento dos transportes? Giovanni - Eu acredito que sim. Temos bons projetos, mas conside- ro necessária uma integraçãomaior entre oMinistério deMinas e Energia e as áreas responsáveis por transportes, portos e aeroportos. Não podemos planejar uma parte e esquecer, por exemplo, a movi- mentação dos combustíveis. Dentro do universo portuário, o contêi- ner recebe muita atenção porque transporta cargas de alto valor agre- gado, mas existemoutros fluxos extremamente importantes para a economia nacional. Quando falamos em energia, combustíveis e no- vas fronteiras produtivas, precisamos pensar desde o início em como essa produção será transportada, processada e distribuída. É uma dis- cussão que precisa reunir energia e logística. Diário - Trazendo essa discussão para o Norte, como os portos do Arco Norte deveriam se preparar para um possível crescimento econômico provocado pela Margem Equatorial? Giovanni - Eu acredito que não podemos perder a oportunidade de explorar adequadamente aMargemEquatorial. E, quando falo em explorar adequadamente, quero dizer que não deveríamos simples- mente retirar petróleo e colocá-lo emnavios de longo curso para ex- portação. OBrasil já é exportador de petróleo e temos esse modelo acontecendo emoutras regiões. Se a economia ficar baseada apenas na exportação do óleo, naturalmente serão desenvolvidas atividades importantes, como a indústria offshore, a indústria naval, os estalei- ros, a fabricação de peças e sobressalentes para perfuração e produ- ção. Tudo isso gera atividade econômica. Mas podemos ir além. Pode- mos tentar transformar essa matéria-prima emprodutos de maior va- lor agregado e fazer comque uma parcela maior dessa riqueza perma- neça no país e, principalmente, na região onde ela será produzida. Diário - É nesse ponto que entra a discussão sobre uma refinaria na região? Giovanni - Exatamente. O Brasil ainda depende da importa- ção de parcelas importantes de diesel e GLP. Então precisamos fazer essa pergunta: se vamos explorar um petróleo que, pelas informações disponíveis, apresenta características de um petró- leo leve e de alto valor agregado, por que não pensar no proces- samento dessa matéria-prima mais próximo da região produto- ra? Um petróleo leve permite obter uma quantidade maior de produtos como diesel, gasolina e GLP, enquanto possui uma participação menor das frações mais pesadas. (A íntegra da entrevista em www.diariodoamapa.com.br ) Edição: CLEBER BARBOSA Texto: MÁRCIAA. ALMEIDA PERFIL Engenheiro Mecânico de formação e pós- graduado em Gestão e Logística Portuária e em Engenharia de Equipamentos de Petróleo. PRINCIPAIS EXPERIÊNCIAS - Formação em construção, montagem e instalação de equipamentos da indústria do petróleo (dutos, terminais, refinarias e petroquímicas): - Com 35 anos de trabalho no sistema Petrobras, atua, desde 1985, no setor de dutos e terminais aquaviários de petróleo e derivados, nas disciplinas de projeto, construção, manutenção, inspeção de equipamentos, operação, regulação e gestão. - Foi Gerente Operacional dos terminais de São Sebastião (2006- 2008), Coari, Manaus e Belém (2004-2006), Cabedelo, Natal e São Luís (2001- 2004). - Esteve presente no Governo Federal, com atuação na ANTAQ – Agência Nacional de Transportes Aquaviários – como Superintendente Nacional de Portos (2008-2011) e de Fiscalização e Controle (2011- 2013). - Desde 2015, é Gerente Geral de Relações Institucionais da Transpetro, além de exercer funções como conselheiro tanto na ATP – Associação de Terminais Portuários Privados - quanto na ABTP - Associação Brasileira dos Terminais Portuários. Luciana Gatti ■ Giovanni Cavalcanti durante participação no quadro Conexão Margem Equatorial, na Diário FM Refino, qualificação e infraestrutura para ampliar ganhos do Amapá. Refino, V DA/ Breno Barbosa

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