Diário do Amapá - 01/10/2026

| OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ QUINTA-FEIRA | 01 DE OUTUBRO DE 2026 2 LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou nesta sexta feira, 25 de setembro, uma Medida Provisória que proíbe as bets no Brasil, atingindo apostas esportivas e jogos online. A decisão chega a apenas nove dias do primeiro turno das eleições e coloca em dis- cussão não apenas o problema do vício em apostas, mas também a res- ponsabilidade de um governo que primeiro regulamentou o setor e agora determina sua extinção. O problema não nasceu do nada. Milhões de brasileiros recorreram às apostas em uma tentativa, muitas vezes desesperada, de melhorar de vida. Em um país marcado por desigualdade, endividamento e perda de poder de compra, a promessa de dinheiro rápido encontrou terreno fértil. Em 2023, mais de 28 milhões de brasileiros haviam apostado nos 12 meses anteriores e 10,9 milhões apresentavam padrão de jogo consi- derado de risco ou problemático. Enquanto as loterias tradicionais da Caixa enfrentavam a concorrência de um novo modelo digital, as bets avançavam agressivamente, ocu- pando celulares, transmissões esportivas, redes sociais e camisas de clubes. O governo afirma que o mercado ilegal também se multiplicou e anuncia uma ofensiva contra plataformas clan- destinas, com bloqueio de sites, aplicativos e meios de pagamento. A dimensão dessa clan- destinidade ajuda a explicar por que simplesmente fechar as empresas autorizadas não resolve au- tomaticamente o problema. Há ainda uma conta esportiva. As bets des- pejaram cerca de R$ 1,03 bilhão em patrocínios nos clubes da Série A em 2025. Ao menos 28 equipes das Séries A e B mantinham vínculos comerciais com empresas do setor em setembro. Isso significa que o futebol terá de procurar ra- pidamente outra fonte de financiamento. A contradição política também é inevitável. O próprio governo concedeu 85 outorgas, cada uma por R$ 30 milhões, arrecadando R$ 2,55 bi- lhões, para permitir a exploração do mercado. Agora, essas mesmas autorizações são extintas por interesse público, sem previsão de indenização por lucros cessantes. E o momento não poderia ser mais sensível. A medida foi anunciada em plena campanha eleitoral, nove dias antes da votação. Pesquisas di- vulgadas na semana mostram uma disputa apertada entre Lula e Flávio Bolsonaro, com empate técnico em alguns cenários de segundo turno. Lula despenca na corrida eleitoral e quem colhe os dividendos? O combate ao vício em apostas é uma questão real de saúde pública. Mas também é legítimo cobrar coerência. O Brasil permitiu que esse mercado crescesse, arrecadou bilhões com sua regulamentação, deixou clubes e empresas estruturarem negócios em torno dele e agora muda radicalmente as regras. A proibição pode atingir o problema, mas também revela outro. O Estado chegou tarde, depois de permitir que a aposta deixasse de ser apenas um jogo e se transformasse em parte da economia brasileira. ■ E o momento não poderia ser mais sensível. A medida foi anunciada em plena campanha eleitoral, nove dias antes da votação. Pesquisas divulgadas na semana mostram uma disputa apertada entre Lula e Flávio Bolsonaro, com empate técnico em alguns cenários de segundo turno. O fim das bets expõe a conta que o Brasil terá de pagar E-mail: gregogiojsimao@yahoo.com.br Radialista e estudante de Filosofia D aqui a uns dias, no dia 4 de outubro, você vai escolher presidente, governador, senador e deputados. E, como sempre, vai cobrar honestidade dos eleitos. Mas antes de apontar o dedo, quero te fazer um convite, olhe no espelho. Eu passei quase três décadas dentro de fóruns, cartórios e salas de audiência. Nesse tempo, aprendi uma coisa que nenhum diploma ensina, aprendi que a desonestidade não começa no cargo público. A desonestidade começa muito antes, começa na fila que a gente fura, no troco que a gente não devolve, no gato da energia elétrica, na vantagem que a gente aceita sem pensar duas vezes. O Brasil tem uma mania que dói na alma. Todo mundo odeia a corrupção, desde que seja a corrupção dos outros. Quando o político desvia milhões, é bandido. Quando a gente fura a fila, é esperto. Quando compra celular sabendo que é produto roubado, fez um bom negócio. Quando leva vantagem porque conhece alguém lá dentro da repartição é porque tem contatos. Quando fica com o troco a mais, deu sorte. Quando mente para conseguir um benef ício social, está sobrevivendo. Queremos que um homem resista a milhões em Brasília, enquanto uma caneta, numa repartição pública ou no balcão e um banco, precisa ficar amarrada para ninguém levar. Essa caneta diz mais sobre nós do que mil discursos. Percebeu? A gente não acabou com a corrupção. A gente só deu nomes mais bonitos para ela quando somos nós que praticamos. E aqui eu falo como quem viu de perto. Emquase 30 anos de advocacia, quantas vezes vi pessoas entrarem num cartório com um documento falso, numa audiência com uma testemunha en- saiada, numa vara de família escondendo bens para não dividir? Quantas vezes vi o "jeitinho" ser tratado como inteligência, e a honestidade como ingenuidade? Não estou falando de casos raros. Estou falando do que se repete todos os dias, em todas as esferas. E é por isso que a desonestidade não nasce só na política. A desonestidade também se aprende e muitas vezes se aprende onde menos se espera, nos templos religiosos. É preciso ter coragempara dizer isso, mas vou dizer. Quantas vezes vemos líderes religiosos pregaremhonestidade emcima do palco e, nos bastidores, praticarem exatamente o contrário? O pastor que pede o dízimo do fiel que mal temo que comer e, no fim do mês, troca o carro por ummais caro. O líder que prega contra a ganância e usa o dinheiro da oferta para financiar o próprio luxo. Não é questão de uma religião ou de outra. É uma questão de hipocrisia. E a hipocrisia tem um preço, ela ensina. Quando o fiel vê o líder que prega a verdadementir, o que ele aprende? Aprende que a honestidade é discurso e não prática. Aprende que a regra vale para os outros, não para quem está no altar. Que, no fundo, todo mundo é assim, então por que eu seria diferente? É exatamente amesma lógica do político. Opolítico corrupto não nasce político. Antes do cargo, ele foi cidadão e cidadão é o que a gente forma todos os dias, em casa, na escola, na fila do banco. E, muitas vezes, o político cresceu vendo a desonestidade ser aplaudida, inclusive dentro da própria igreja, quando o líder que deveria dar o exemplo é o primeiro a se corromper. Aí esse cidadão chega ao poder, encontra uma brecha de milhões e faz exatamente o que aprendeu a vida inteira. Só mudou o tamanho da oportunidade. E nós ficamos indignados. Não porque a lógica é diferente, mas porque agora quem levou vantagem foi ele, e não nós. E aqui no Amapá não é diferente. O candidato que pede seu voto cresceu na mesma cultura, foi seu vizinho, seu colega. Se a regra da casa é o jeitinho, se a regra da igreja é o discurso que não se cumpre, o que esperar de quem chega ao poder pelo voto? Não estou dizendo que todo político é corrupto, nem que toda igreja é hipócrita. Estou dizendo que a gente colhe o que planta e temos plantado muita malandragem, em todos os lugares, inclusive onde se prega o bem. Então, na hora de votar, faça duas perguntas. A primeira: quem é esse candidato? A segunda, mais dif ícil, mais dolorosa é que tipo de gente nós somos? Porque enquanto a honestidade for coisa de otário e a malandragem for motivo de orgulho, podemos trocar presidente, trocar de partido e trocar todo oCongresso quantas vezes quisermos. Opolíticomuda. Osistema continua fabricando o próximo e o religioso, quando se corrompe, continua ajudando a fabricar. Eu passei quase 30 anos defendendo o direito das pessoas e posso te dizer que não existe justiça que conserte uma sociedade que aprendeu a amar a vantagem. A justiça pune depois. A educação para a honestidade previne antes. Mudar o Brasil de verdade não começa na urna. Começa na fila que você não fura. No troco que você devolve. Na vantagemque você recusa. E começa tambémemexigir coerência de quem prega, porque quem prega a verdade e vive na mentira só está servindo a si mesmo. No dia 4 de outubro, vote. Mas vote com o coração limpo, porque quem cobra honestidade do outro precisa, primeiro, ser honesto consigo mesmo. ■ Não estou dizendo que todo político é corrupto, nem que toda igreja é hipócrita. Estou dizendo que a gente colhe o que planta e temos plantado muita malandragem, em todos os lugares, inclusive onde se prega o bem. Então, na hora de votar, faça duas perguntas. O voto e o espelho: o que quase 30 anos de advocacia me ensinaram JORGE ANAICE E-mail: diario-ap@uol.com.br Advogado e Jornalista GREGÓRIOJ.L. SIMÃO

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