Diário do Amapá - 10/10/2026
| OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ SÁBADO | 10 DE OUTUBRO DE 2026 2 LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA Teólogo, pedagogo e advogado E-mail: drrodrigolimajunior@gmail.com N a saída de uma escola em Macapá, entre mochilas coloridas, uniformes e vendedores de lanche, a infância parece protegida pelo movimento da cidade. Mas, por trás da rotina social existe uma realidade que não respeita muros, países ou continentes: crianças são vítimas de violência dentro de casa, na escola, nas ruas e, cada vez mais, no ambiente digital. O cenário mundial confirma que essa tragédia permeia diversos países. Segundo o UNICEF, mais de 370milhões demeninas emulheres vivas atualmente sofreramestupro ou abuso sexual antes dos 18 anos. Quando são incluídas formas sem contato f ísico, como assédio verbal e violência on-line, o número sobe para 650 milhões — uma em cada cinco. Entre homens e meninos, estima-se que entre 410 milhões e 530 milhões tenham sofrido algum tipo de violência sexual na infância. A Organização Mundial da Saúde estima que até 1 bilhão de crianças entre 2 e 17 anos tenham experimentado violência f ísica, sexual ou emocional, ou negligência, no período de um ano. A violência também aparece na disciplina doméstica: cerca de 1,6 bilhão de crianças sofrem punições violentas ou agressões psicológicas regularmente. Guerras, deslocamentos forçados, pobreza extrema e ausência de instituições ampliam a vulnerabilidade. Em contextos frágeis, o UNICEF aponta que a prevalência de estupro ou abuso sexual na infância entremeninas é superior a uma emcada quatro. A internet acrescentou uma nova fronteira ao problema: criminosos podem aliciar crianças por jogos, redes sociais e aplicativos, aproximando-se delas sem jamais aparecer fisicamente No Brasil, o problema assume proporções alarmantes. Em2023, oAnuárioBrasileirode Segurança Pública registrou 125,5 estupros por 100 mil crianças e adolescentes. Entre vítimas de 10 a 13 anos, a taxa chegou a 233,9 por 100 mil. Em 84,7% dos casos, o agressor era familiar ou conhecido; em 61,7%, o crime ocorreu na residência da vítima. A estatística desmonta uma crença perigosa: a de que omaior risco está sempre no desconhecido que ronda a escola. Muitas vezes, o perigo está no círculo de confiança. No Amapá, dados da Secretaria de Saúde apontaram 196 ocorrências de violência sexual contra crianças e ado- lescentes em 2023, com meninas de 10 a 14 anos entre as principais vítimas. O número, porém, não representa toda a realidade. A subnotificação é um dos aspectos mais perversos desse crime: por medo, vergonha, dependência financeira ou ameaça, muitas vítimas ficam em silêncio. Se isso não fosse o bastante, as crianças ainda são sub- metidas a violência digital quando acessam jogos que pro- movem a utilização e armas e práticas criminosas, ou são utilizados pelos abusadores para as cooptarem. Ainda sofrem, a violência escolar que as sujeita a um ensinamento enviesado, que discute na idade inapropriada temas como: prevenção sexual, identidade de gênero, aborto, descons- truindo valores religiosos e familiares. Diante disso, é legítimo que pais e responsáveis acom- panhem o conteúdo oferecido pelas escolas, questionem materiais inadequados e rejeitem a sexualização precoce. Crianças não devem ser expostas à pornografia, à erotização publicitária, a discursos incompatíveis com sua idade ou a conteúdos que banalizem aborto, drogas e relações sexuais. A família tem o direito — e o dever — de participar da formação moral dos filhos. Há relatos de famílias e registros demateriais pedagógicos que levantampreocupação sobre a divulgação de conteúdos inadequados à idade, envolvendo erotização, identidade de gênero e sexualização precoce. Essa preocupação se amplia diante da presença, na rede pública, de alguns docentes formados em ambientes acadêmicos nos quais predominam discursos de liberdade sexual, relativização de valores morais e revisão de concepções tradicionais de família. Por isso, é indispensável garantir transparência curricular, participação efetiva dos pais e fiscalização dos conteúdos, sem permitir que a escola substitua a família na formação ética e moral das crianças.As crianças devem ser enxergadas com um olhar especial. Elas precisam, de famílias fortalecidas, adultos atentos, informação adequada à idade, instituições funcionais e coragem para denunciar. A infância não pode ser tratada como território de disputa partidária, mas, reconhecida como umcompromisso coletivo. O futuro começa quando a sociedade deixa de discutir apenas quem tem razão e passa a perguntar, com urgência, quem está protegendo as crianças — e quem está falhando nessa responsabilidade. ■ É necessário também, fortalecer Conselhos Tutelares, delegacias especializadas, escolas, unidades de saúde mental e serviços de assistência social; capacitar professores para identificar sinais de abuso; fiscalizar plataformas digitais; oferecer atendimento psicológico às vítimas; e responsabilizar rapidamente os agressores. CRIANÇAS EM PERIGO: Uma crise que atravessa fronteiras Tecnologista Sênior E-mail: mariosaturno@uol.com.br E Lula descobriu, depois do primeiro turno, aquilo que a política costuma ensinar da maneira mais dolorosa. Não basta ter história, discurso e memória eleitoral. É preciso falar com o eleitor de hoje. E, desta vez, a voz das mulheres parece ter se tornado indispensável. A campanha petista passou a convocar mulheres de grande votação e forte presença nas redes para reforçar a comunicação no segundo turno. Entre elas estão Erika Hilton e Ana Elisa, esta última eleita aos 21 anos e com enorme alcance digital. A mudança não é apenas de elenco. É uma tentativa de corrigir uma comunicação que recebeu críticas por falhas de organização, linguagem e presença nas redes. Há, portanto, uma pergunta inevitável. Trata-se de uma mudança de convicção ou de necessidade eleitoral? A dúvida não é gratuita. No início do terceiro mandato, Lula nomeou 11 mulheres para 37 ministérios, um recorde. Depois, esse número caiu. Em 2024, eram dez mulheres diante de 28 homens. A redução ocorreu em meio às negociações políticas que ampliaram o espaço do Centrão, e duas substituições foram particularmente simbólicas, Ana Moser e Da- niela Carneiro deixaram seus cargos e foram substituídas por homens. O histórico também recomenda cautela. No segundo mandato de Lula, sete mulheres ocu- param o comando de ministérios, contra 51 homens, segundo levantamento da Folha. Não é possível afirmar que Janja tenha de- terminado essa escolha. Não há evidência sufi- ciente para isso. É possível, contudo, observar que a primeira-dama ganhou espaço político e comunicacional na campanha atual e tem par- ticipado de atos voltados às mulheres. A própria campanha petista apresenta esse protagonismo como parte de sua estratégia eleitoral. O ponto central está em outro lugar. Lula precisa das mulheres agora porque precisa de votos. Isso não significa que não tenha políticas voltadas a elas. Seu governo re- criou o Ministério das Mulheres e estabeleceu políticas específicas para o setor. Mas política pública e distribuição efetiva de poder são coisas diferentes. Uma campanha pode descobrir subitamente a força eleitoral feminina sem necessariamente descobrir, junto, a necessidade de entregar às mulheres mais espaços reais de comando. É aí que está a prova para um eventual novo governo. Não serão os discursos de campanha que responderão à pergunta. Serão as nomeações. Serão os ministérios considerados estratégicos. Serão os postos onde circulam orçamento, poder e decisões. Se a mulher é indispensável para ganhar a eleição, deveria ser igualmente indispensável para governar. Caso contrário, haverá apenas uma velha prática política com nova embalagem. Chama-se a mulher para pedir o voto, coloca-se sua imagem na propaganda, utiliza-se sua influência nas redes e, depois da urna fechada, devolve-se o poder aos homens. A eleição pode exigir a voz feminina. O governo é que terá de provar se pretende ouvi-la. ■ Uma campanha pode descobrir subitamente a força eleitoral feminina sem necessariamente descobrir, junto, a necessidade de entregar às mulheres mais espaços reais de comando. É aí que está a prova para um eventual novo governo. Lula precisa das mulheres MARIO EUGENIO RODRIGO LIMA JUNIOR
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