Diário do Amapá - 18 e 19/10/2026

ENTREVISTA PESQUISADORA | ENTREVISTA | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 18 E 19 DE OUTUBRO DE 2026 14 Especialista relata os desafios de construir uma carreira em um ambiente predominante mente masculino, fala sobre liderança, voluntariado e defende mais mulheres na engenharia, na ciência e nas oportunidades que podem surgir. D iário do Amapá - Você saiu ainda muito jovem de uma cidade pequena para construir sua tra- jetória profissional em uma metrópole. O que trouxe da infância que foi fundamental para enfren- tar os desafios encontrados depois na indústria de óleo e gás? Karen Alves - Eu saí de casa com 17 anos, de uma cidade bem pequena, onde existiam muitos sonhos e uma vontade muito grande de vencer. Fui criada em um ambiente extremamente acolhedor e fraterno, onde o voluntariado estava presente desde cedo. Aprendi dentro de casa a lidar com o próximo com muito respeito. Quando saí do interior para uma cidade grande, levei comigo justamente esses valores. E, falando particularmente da minha família, acredito que uma das principais coisas que recebi foi a valorização da educação. A maior parte da minha formação aconteceu na educação pública, e acredito muito que, por meio da educação e do conhecimento, conseguimos vencer barreiras que muitas vezes nem imaginávamos que conseguiríamos supe- rar. Outra coisa muito importante são os sonhos. É algo sobre o qual também falo no livro: precisamos acreditar que podemos sonhar e realizar aquilo que desejamos quando existe muita vontade para buscar. Diário - A indústria de óleo e gás ainda é um ambiente predominantemente masculino. Como foi chegar a esse setor e, muitas vezes, ser uma das poucas mu- lheres nos espaços técnicos? Karen - Eu já tive uma preparação durante a própria faculdade porque fiz Engenharia Química, que também era um curso pre- dominantemente masculino. Estudava em uma cidade do inte- rior e convivi com muito machismo. De certa maneira, aquilo acabou sendo um treinamento para quando cheguei ao universo de óleo e gás, que é gigantesco e também possui muito mais ho- mens. Eu já sabia que determinadas piadinhas poderiam apare- cer e, naquela época, até quais roupas eu poderia ou não usar em certos ambientes. No início não foi fácil. Convivi com assé- dio moral, inclusive com situações de assédio sexual e piadas de mau gosto. Mas fomos caminhando e evoluindo. Quando você constrói uma carreira e estabelece que o respeito é a base da re- lação profissional, começa a conquistar seu espaço. Liderança não significa simplesmente aumentar a voz ou impor autoridade. Você precisa construir respeito. Hoje ainda existem problemas, evidentemente, mas, no ambiente em que estou, esse tipo de si- tuação é muito menor. Muitas barreiras foram sendo vencidas aos poucos. Diário - Em vários momentos você precisou provar sua competência. Como essas experiências ajudaram a moldar sua visão sobre liderança feminina? Karen - O conhecimento foi fundamental. Quando saí da fa- culdade, talvez ainda não tivesse dimensão de como aquela for- mação havia sido dif ícil e importante. Tive professores e profes- soras que foram referências e que me alertavam: você entrou muito nova, veio do interior e será testada o tempo inteiro. E ha- via também o fato de ser mulher. Éramos poucas. Então comecei a pensar muito sobre aquilo que eu queria para minha carreira e continuei estudando. Fiz faculdade, mestrado, pós-graduações, doutorado e continuei buscando conhecimento. Conhecimento nunca é demais. Quando me colocavam à prova, eu tinha condi- ções de demonstrar que sabia sobre aquilo que estava falando. Desde o momento em que ingressei na ANP, procurei estudar e conhecer profundamente a área de petróleo. Sempre pensei muito antes de falar. Isso exige paciência e resiliência, principal- mente porque a mulher muitas vezes é testada para saber se realmente possui aquele conhecimento. Hoje, ter títulos não me torna superior a ninguém, mas me dá confiança sobre aquilo que estou dizendo. E também aprendi uma coisa importante: quando não sei, digo que não sei, vou estudar e procurar saber. Diário - Essa diferença entre homens e mulheres já aparecia claramente na própria universidade? Karen - Sim. Entraram cerca de 120 alunos na minha turma de Engenharia Química e acredito que havia algo entre 20 e 30 mu- lheres, no máximo. Nós já éramos uma minoria desde o início. No decorrer do curso, muita gente foi ficando pelo caminho ou seguindo sua própria grade e seu próprio ritmo. Quando concluí a graduação, com quatro anos e meio, apenas duas pessoas da turma conseguiram se formar exatamente naquele período, e eram duas mulheres. Então essa presença minoritária das mu- lheres nos cursos de engenharia era uma realidade bastante evi- dente. Isso vem mudando, mas naquele momento fazia parte do ambiente em que construí minha formação. NOTA DA REDAÇÃO Leia a entrevista completa no portal www.diariodoamapa.com.br Reportagem: Márcia A. Almeida Edição: Cleber Barbosa V DA/ Breno Barbosa PERFIL Ocurrículo da Dra. KarenAlves de Souza reflete uma sólida trajetória acadêmica aliada amais de duas décadas de experiência técnica e regulatória no setorde óleo e gás. Ela é servidora pública federal de carreira naANPdesde 2006, atuando como Especialista emRegulação. Formação Acadêmica e Especializações - Doutorado (D.Sc.) em Engenharia Metalúrgica e de Materiais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPE/UFRJ) (com pesquisas também vinculadas à UNICAMP). - Mestrado em Ciência e Engenharia de Materiais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). - Graduação em Engenharia Química pela Faculdade de Engenharia Química de Lorena (FAENQUIL / atual EEL-USP). - Pós-Graduação (Especialização) em Engenharia de Petróleo com ênfase em Reservatório. - Pós-Graduação (Especialização) em Engenharia da Qualidade pela Faculdade de Engenharia Química de Lorena Mercado atual - Como Especialista em Regulação de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, ocupou posições de liderança técnica e gestão em diferentes frentes estratégicas da Agência Nacional do Petróleo Karen Alves ■ Entrevista coma especialista, no quadro ConexãoMargemEquatorial, da Rádio Diário FM (90,9) Conhecimento, propósito e coragem abrem espaço a mulheres na indústria de óleo e gás

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