Diário do Amapá - 26 e 27/04/2026

ENTREVISTA MÉDICO |ENTREVISTA | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 26 E 27 DE ABRIL DE 2026 14 V DA/ Reprodução Dormirmal é uma realidade para cerca de um terço da população, e o problema foi agravado para muita gente durante e após a pandemia, como afirma o médico e pesquisador Luciano Drager, presidente da Associação Brasileira do Sono D iário do Amapá – Enquando boa parte da po- pulação mundial e brasileira vem relatando problemas relacionados a um dos momentos mais revigorantes, o ato de dormir, dá pra di- zer que a pandemia é a principal causa ou de fato existe um indicativo de que dormimos mal? Luciano Drager - Parte da culpa da privação crônica de sono atual pode ser atribuída ao uso intensificado de aparelhos eletrôni- cos à noite. Eles emitem um tipo de luz que prejudica a arquitetura do sono, além de trazer conteúdos que excitam a mente. Mas tam- bém existem transtornos mentais que podem interferir qualidade do descanso de diversas formas, como ansiedade, depressão e bru- xismo. Esses males têm afetado mais gente nos últimos tempos, e precisam ser tratados adequadamente. Diário – E quais são os riscos de tratar insônia por conta própria? Luciano - Vários pacientes fazem uso de substâncias ou medica- mentos não aprovados ou que não mostraram eficácia para a insô- nia e, com isso, existe um atraso na busca de tratamentos eficazes”, conta Drager, nesta entrevista ao site Doutor Jairo. Essa mania de automedicação deve aumentar com a aprovação recente, no Brasil, de doses baixas de melatonina em produtos de venda livre. Esse hormônio tem sido indicado por médicos para quem trabalha em turnos noturnos ou se submete a mudanças de fuso horário. Diário – Estamos mesmo vivendo uma epidemia de privação de sono? Existem dados que confirmam isso? Luciano - Sim. Dados realizados antes da pandemia já mostra- vam um cenário preocupante: nos EUA, estimava-se que 1 em cada 3 adultos relatava dormirem menos do que 6 horas por noite. Realizamos um estudo em São Paulo com mais de 2.000 pessoas, no qual monitorizamos de forma objetiva a duração do sono (estudo ELSA-Brasil) e encontramos dados semelhantes: aproximadamente 27% estava tendo um sono com menos de 6 horas. A pandemia piorou a qualidade do sono de uma maneira geral e isto inclui, obviamente, a privação do sono, além de ou- tros importantes distúrbios: insônia, bruxismo, pesadelos, etc. Mas é importante destacar que esta piora não foi verificada para todos: pessoas que tinham privação do sono antes da pandemia, isto é, dormiam menos do que a necessidade para ter um sono reparador, tiveram oportunidade de adequar a quantidade e ho- rário de sono com o trabalho remoto. Essa situação também foi observada nos adolescentes que tiveram a oportunidade de dor- mir um pouco mais pela manhã e driblar a situação fisiológica da idade, que é a tendência de atrasar o horário de sono com di- ficuldade para despertar pela manhã. Diário – Quais são as principais causas dessa falta de sono suficiente ou de boa qualidade? Luciano - Maus hábitos de sono, presenças de algumas doen- ças crônicas, como ansiedade e depressão, problemas familiares/financeiros, uso de álcool, uso excessivo de estímulos visuais e conectividade. Diário – É verdade que o Brasil é um dos países com maior número de usuários de medicamentos para dormir? Luciano - O Brasil certamente ocupa uma posição de destaque no uso de medicamentos com o intuito de melhorar o sono. Dois aspectos, aqui, precisam ser destacados: vários pacientes fazem uso de substâncias ou medicamentos não aprovados ou que não mostraram eficácia para a insônia e, com isso, existe um atraso na busca de tratamentos eficazes; ainda existe um uso ex- cessivo de medicações que induzem uma dependência impor- tante, além de não serem indicados para a maioria dos casos de insônia. Efeitos colaterais importantes também são uma preocu- pação. Estas medicações, chamadas de benzodiazepínicos, aca- bam sendo prescritas por anos aos pacientes sem uma avaliação adequada. Diário – Muita gente se animou com a recente apro- vação da melatonina pela Anvisa. Luciano - A A melatonina é um hormônio produzido natural- mente pelo corpo humano. Ela está relacionada com a regulação do metabolismo ao longo do dia, o que inclui os períodos em que a pessoa está dormindo ou acordada. A indústria já sintetiza esse hormônio há muitos anos e, nos EUA, ela é encontrada de fato à disposição para compras sem receita. ■ Texto: CLEBER BARBOSA Foto: DIVULGAÇÃO PERFIL Atualmente é Professor-Doutor doDepartamento deClínicaMédica da FMUSP, Médico Assistente da Unidade de Hipertensão do Instituto do Coração InCor- HC-FMUSP. Formação Acadêmica - Graduado em Medicina (1998) pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, Doutorado (2007) em Cardiologia pela Faculdade de Medicina da USP, Pós-Doutorado (2009-2011) pela Johns Hopkins University, USA Experiência e atuação no setor - Pós-Doutorado pela Johns Hopkins University, USA (2009-2011). - Doutor em Ciências pela FMUSP (2007). - Orientador permanente da Pós- graduação da Cardiologia e da Nefrologia da FMUSP. - Médico Assistente da Unidade de Hipertensão do Instituto do Coração (InCor), HCFMUSP. - Desenvolve desde 2003 pesquisas na área das consequências cardiovasculares dos distúrbios de sono. Premiações - Recebeu diversos prêmios entre eles o prêmio de Jovem Investigador pela American Thoracic Society (James B Skatrud New Investigator Award, 2011) InterAcademy Medical Panel Young Physician Leader (2012). - É membro do Programa Jovens Lideranças Médicas da Academia Nacional de Medicina (2015-2020). Luciano Ferreira Drager Parte da culpa da perda de sono são aparelhos eletrônicos à noite. ■ Dr. Luciano Drager é cardiologista, especialista em sono e atual presidente da ABMS.

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