Diário do Amapá - 26 e 27/04/2026
LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA |OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 26 E 27 DE ABRIL DE 2026 2 E m abril de 1792, Joaquim José da Silva Xavier foi enforcado e esquartejado numa manhã de quinta-feira noRiode Janeiro. Seunome levouquase umséculopara ser transformado emsímbolo nacional. Hoje, umpolítico desconhecido pode acordar irrelevante e dormir celebrado como herói. A diferença não é de caráter, é de tecnologia. A construção da imagem de Tiradentes revela um paradigma clássico de formação de capital simbólico político. Foi somente com a Proclamação da República, em 1889, que o Estado brasileiro, necessitando de uma narrativa fundacional desvinculada da Coroa, passou a ressignificar sua trajetória. O processo envolveu seleção de elementos biográficos, supressão de ambiguidades e um longo ciclo de institucionalização por meio da educação formal e da iconografia oficial. A construção do herói Tiradentes demandou décadas de repetição pedagógica. Trata-se de um processo lento, cumulativo e dependente de estruturas de poder organizadas. Esse modelo está longe de desaparecer, ao longo da história foi se sofisticando. A evolução dos meios de comunicação acelerou o processo. Getúlio Vargas compreendeu, antes de qualquer outro líder brasileiro, que o rádio era uma máquina de fabricar intimidade. A “Hora do Brasil”, criada em 1935, transformou o Estado em narrador de si mesmo. Vargas não precisou de décadas para construir a imagem do “pai dos pobres”, precisou de ummicrofone, que com a cadência certa e da repetição sistemática de um arquétipo simples: o protetor que fala diretamente ao povo. A imagem ainda precisava de tempo para criar raízes. Fernando Collor de Mello eliminou boa parte desse tempo. Em 1989, o Brasil assistiu ao primeiro experimento nacional de candidato-produto fabricado em escala industrial pela televisão. Filho de um senador, herdeiro de um grupo de comunicação, ex-governador de Alagoas, Collor não tinha nada outsider. Mas a Rede Globo e a revista Veja construírammeti- culosamente o personagem: jovem, atlético, num jet-ski no Lago Paranoá, numa Ferrari a 200 km/h, comquimono de karatê e discurso de combate à corrupção. O “caçador demarajás” era, ele próprio, um marajá, como o Brasil descobriu três anos depois. O impeachment foi aprovado por 441 a 38 votos na Câmara. Em2025, o STF omandou prender. Oherói televisivo tinha prazo de validade, mas durou tempo suficiente para chegar ao poder. Oque Collor fez coma televisão, certos gestores da atualidade fazemcomo Instagram, Fa- cebook, TikTok e, muitas vezes, comuso do dinheiro público. Não faltamexemplos pelo Brasil afora: prefeitos reeleitos compercentuais históricos, aclamados como “prefeitões do povo”, que constroemsua popularidade sobre três pilares cuidadosamente escolhidos. 1. praças reformadas, avenidas asfaltadas (obras visíveis, fotografáveis, virais); 2. shows gratuitos de artistas nacionais que replicam, em escala municipal, o modelo “panen et circenses”, frase cunhada pelo poeta satírico do século II D.C, ao se referir a uma estratégia de controle social; e 3.uma presença digital obsessiva com conteúdos onde: o gestor em plenachuva, com a narrativa de identificar pontos de alagamentos, transmiteem lives sua atuação, revertendo, como num passe de mágica, a adversidade do momento; no palco sendo homenageado pelos artistas, e, uma vez consolidada a popularidade, mergulhando nos braços da multidão em cenas calculadas de exaltação popular, onde o povo aclama e o algoritmo registra. A imagem é sempre a mesma: o herói incansável, jovem, próximo, que resolve pessoalmente, os problemas da comunidade. Não se contesta que as obras existem. Oproblema está no que elas escondem. Emmais de uma capital brasileira governada por esse perfil de gestor, os índices de saneamento básico figuram entre os piores do país, o erário previdenciário definha em silêncio e as obras de drenagem profunda, invisíveis nas redes, mas essenciais para a população, simplesmente não acontecem. Quando as chuvas chegame as cidades alagam, o diagnóstico se repete: priorizou- se o que é fotográfico sobre o que é estrutural, e realmente, necessário. O desfecho também tende a se repetir. Operações policiais, afastamentos cautelares, in- vestigações por desvios milionários, renúncias estratégicas para preservar a elegibilidade. E, mesmo assim, pesquisas eleitorais que mantêm esses gestores à frente das disputas seguintes com margens expressivas. É aqui que reside o dado mais perturbador sobre a nova lógica da imagem política. Collor caiu rapidamente porque a televisão que o construiu também podia destruí-lo: quando a Globo cobriu a CPI, o edif íciomidiático ruiu. Ogestor digital controla di- retamente sua narrativa para centenas de milhares de seguidores, sem passar por nenhum editor. Amesma ferramenta que fabricou o herói serve como bunker de contenção de danos. A acusação vira perseguição política. O afastamento vira martírio. O escândalo vira conteúdo. As redes sociais introduziram, portanto, não apenas uma aceleração na construção de heróis políticos, mas uma nova resistência à destruição deles. Oque antes exigia décadas de se- dimentação, como no caso de Tiradentes, passou a ser produzido em dias, como Collor demonstrou. Mas o que antes desmoronava em meses, quando a mídia virava, agora pode resistir indefinidamente, porque o político tornou-se o próprio veículo de comunicação. Tiradentes não escolheu ser herói. Foi escolhido postumamente, por necessidade do Estado, numprocesso lento e honesto emsua lentidão. Os heróis contemporâneos escolhema si mesmos, constroem o roteiro, contratam a equipe de comunicação, definem o arquétipo e testamas narrativas emtempo real combase no engajamento do público. Tiradentes demorou umséculo. Vargas demorou anos. Collor demoroumeses. E hoje precisamapenas de semanas. A velocidade é só o sintoma. O problema real está na ausência de substância que ela permite disfarçar. Nunca foi tão barato parecer um herói, e nunca foi tão fácil cobrar o preço disso, e, na maioria das vezes, usamdinheiro público. ■ E-mail: fabio@fabiogarcia.adv.br Heróis em Semanas FÁBIOLOBATOGARCIA Advogado, Especialista e Mestrando emDireito Eleitoral e Político C hovia muito naquele dia. Dois homens, que viviam juntando coisas velhas descartadas, rodavam pela cidade, empurrando um carrinho de mão, em busca de algo jogado fora e que tivesse ainda algum valor. Numa lata de lixo, encontraram um guarda-chuva preto. Parecia novo. Sem acreditar muito, o pegaram para olhar. Um dos dois logo começou a reclamar: - - Que pena, o cabo está quebrado. Não vamos ganhar nada. O outro, ao contrário, ficou feliz e disse: - - Que sorte que temos. Encontramos um guarda-chuva no meio do lixo justo hoje com toda esta água. E assim os dois, um alegre e o outro triste, con- tinuaram no seu caminho debaixo do guarda-chuva todo quebrado. Estamos chegando ao final do Ano Litúrgico. Por isso, o evangelho de Marcos do 33º Domingo do Tempo Comum nos apresenta algumas palavras de Jesus sobre as “realidades últimas” e que parecem nos apresentar aquele que chamamos de “fim dos tempos”. Ele usa a linguagem “apocalíptica”, específica para esses assuntos e bastante dif ícil para a nossa compreensão. Aquelas expressões, apesar das imagens às vezes assustadoras, queriam transmitir esperança sobretudo em tempos dif íceis, de provações e inseguranças. Era uma forma para dizer que, um dia, aqueles sofrimentos acabariam com a vitória do bem. Não muito mais do que isso. Nada de previsões do futuro ou ameaças de desastres. O próprio evangelho não marca nem o dia e nem a hora, porque não sabe, mas apresenta o evento mais importante de todos: a volta do Filho do Homem. Esse revelar e esconder ao mesmo tempo, obri- ga-nos, simplesmente, a estar sempre prontos e acor- dados. Se quisermos estar preparados para esse mo- mento, devemos prestar atenção aos sinais. Este é o sentido da parábola da figueira: “quando os ramos ficam verdes e as folhas começam a brotar” (Mc 13,28) é sinal que o verão está para chegar. Sinais nunca vão faltar, mas a dificuldade sempre será in- terpreta-los. O que pode ser um sinal positivo para alguns, pode ser negativo para outros. O discernimento é dom do Espírito Santo! No caso das palavras de Jesus, no evangelho deste domingo, o sinal é sem dúvida confortante: a figueira vai florescer e produzir logo os seus frutos doces e gostosos. Como dizer que não devemos aguardar a volta do Senhor pres- tando atenção primeiramente aos desastres naturais ou à destruição causada pelos homens com a explo- ração, poluição e exaustão dos recursos naturais e as consequências de guerras deflagradas com armas, cada vez mais, destruidoras. O Senhor Jesus não virá no meio de sinais de morte, mas de vida, de luz e esperança. A quem fala do próximo fim do planeta e da própria humanidade, nós, cristãos, só podemos responder nos comprometendo sempre e de novo com a fraternidade, a solidariedade, a colaboração de todos para um mundo de paz e de alegria. Somos convidados a ver, mas sobretudo, a ser sinais do bem que vence o mal. Muitas vezes são gestos pequenos, escondidos. Isso porque cada ser humano, em qualquer lugar ou situação que esteja, é chamado a mudar o seu coração de pedra em um coração de carne, apaixonado pela vida, pela vontade de estarmos juntos, de partilhar os benditos frutos da terra e da inteligência humana. Papa Francisco, em sua mensagem para o 8º Dia Mundial dos Pobres, que celebramos neste domingo, lembra-nos que “os pobres têm um lugar privilegiado no coração de Deus”. Eles não têm outros recursos a não ser a própria coragem e a confiança de serem ouvidos em suas preces. Além disso, o Papa nos diz que “os pobres têm ainda muito para nos ensinar, porque numa cultura que colocou a riqueza em primeiro lugar e que sacrifica muitas vezes a dignidade das pessoas no altar dos bens materiais, eles remam contra a corrente, tornando claro que o essencial da vida é outra coisa”. Devemos, portanto, ajudar concretamente os pobres e aprender com eles a sermos mais sóbrios e humildes, promovendo uma vida sem os desperdícios de um consumo desen- freado e os gastos absurdos em armas de morte em lugar de construir obras de vida. Até um guarda-chuva quebrado é sinal de alegria para quem tem um coração simples e desapegado. ■ DOMPEDROCONTI E-mail: oscarfilho.ap@bol.com.br Bispo de Macapá Papa Francisco, em sua mensagem para o 8º Dia Mundial dos Pobres, que celebramos neste domingo, lembra-nos que “os pobres têm um lugar privilegiado no coração de Deus”. Eles não têm outros recursos a não ser a própria coragem e a confiança de serem ouvidos em suas preces. O guarda-chuva A construção instantânea da imagem política na era digital Da série “já aconteceu antes”, provocamos com este artigo nova reflexão histórica eleitoral, com a passagem do feriado de Tiradentes:
RkJQdWJsaXNoZXIy NDAzNzc=