Diário do Amapá - 28 e 29/06/2026

ENTREVISTA ENGENHEIRO |ENTREVISTA | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 28 E 29 JUNHO DE 2026 14 Ele diz que o Amapá não precisa apenas extrair minério, mas agregar valor, industrializar, com empregos e deixar riqueza no estado. Amineração precisa ser ambientalmente responsável, tecnicamente bem conduzida e socialmente aceita. D iário doAmapá - Marcelo, para começarmos, como você avalia omomento atual damineração no Bra- sil e como isso se conecta comoAmapá? MarceloVelazquez - Primeiro é umprazer participar aqui e poder conversar sobre umtema tão importante para o nosso estado. Eu acho que amineração precisa ser analisada emduas escalas: primeiro no contexto do Brasil e depois olhando especificamente para oAmapá. No Brasil, amineração continua sendo uma atividade econômica estratégi- ca. Segundo dados recentes do IBRAM, o setormineral brasileiro fatu- rou quase R$ 300 bilhões em2025, arrecadou cerca de R$ 7,9 bilhões emCFEMe temuma previsão de investimentos de aproximadamente US$ 76,9 bilhões entre 2026 e 2030. Então, quando falamos deminera- ção, não estamos falando de uma atividade isolada. Estamos falando de uma cadeia econômica completa, que envolve pesquisamineral, licen- ciamento ambiental, engenharia, operação demina, beneficiamento, transporte, energia, porto, exportação, impostos, CFEM, empregos di- retos e indiretos, fornecedores e desenvolvimento regional. Diário - E a realidade local atualmente Marcelo? Marcelo - Trazendo isso para o Amapá, o estado temuma vocação mineral histórica muito clara. Nós temos ouro, ferro, cromo, caulim, minerais industriais e outros potenciais minerais ainda em fase de pesquisa e desenvolvimento. Odesafio é transformar esse potencial geológico emprojetos licenciados, responsáveis, competitivos e capa- zes de gerar riqueza dentro do próprio estado. Eu diria que o Amapá vive hoje ummomento de oportunidade. Não é uma euforia, não é algo automático, mas existe uma movimentação real de vários proje- tos minerais emdiferentes fases: alguns emoperação, alguns em reto- mada, outros em licenciamento e outros buscando investimento. Diário - Amapá tem vocação para mineração? Marcelo - Semdúvida. OAmapá temuma história mineral muito forte. A própria formação econômica de regiões como Serra do Navio, Pedra Branca do Amapari, Porto Grande, Mazagão, Calçoene e Vitó- ria do Jari tem relação direta ou indireta com a atividade mineral. Historicamente, o estado teve ciclos importantes de manganês, ouro, ferro, caulim e cromo. Amineração ajudou a formar cidades, gerar empregos, atrair infraestrutura e movimentar a economia. Mas é im- portante dizer que potencial mineral, sozinho, não gera desenvolvi- mento. O que gera desenvolvimento é projeto bem estruturado, com licença, investimento, engenharia, controle ambiental, logística, mer- cado e capacidade de operação. OAmapá já provou que tem capaci- dade de produzir minério em escala. Agora o desafio é construir um novo ciclomineral mais moderno, mais responsável e mais integrado ao desenvolvimento do estado. Diário - Do ponto de vista geológico, por que o Amapá tem potencial mineral e, ao mesmo tempo, por que é tão difícil fazer pesquisa mineral na Amazônia? Marcelo - Essa é uma curiosidade muito interessante. A Amazônia que a gente vê hoje nem sempre foi assim. Ao lon- go da história geológica, antes da configuração atual, existi- ram fases em que a drenagem da região amazônica tinha ou- tro comportamento, inclusive com fluxo preferencial para oeste, em direção ao Pacífico. Com o soerguimento da Cordi- lheira dos Andes, esse sistema foi sendo bloqueado, houve períodos de grandes áreas alagadas e, posteriormente, ocor- reu uma reorganização da drenagem, até o Rio Amazonas passar a escoar para leste, em direção ao Oceano Atlântico. Diário - O que o senhor enxerga como futuro da mi- neração no Amapá? Marcelo - Eu vejo que o futuro da mineração no Amapá pre- cisa ser diferente dos ciclos antigos. Não basta apenas extrair minério e mandar embora. O estado precisa buscar mais agregação de valor. Isso passa por beneficiamento, concentra- ção, metalurgia, siderurgia, produção de ligas, aproveitamen- to de resíduos, produção de remineralizadores e integração com outras cadeias econômicas. Também é fundamental am- pliar a participação de empresas locais, fornecedores locais e trabalhadores amapaenses. A mineração precisa gerar empre- go direto, mas também precisa gerar demanda para transpor- te, manutenção, alimentação, hotelaria, serviços, engenharia, laboratórios, oficinas, consultorias e comércio. Outro ponto importante é a aplicação da CFEM. A Compensação Finan- ceira pela Exploração Mineral precisa ser bem utilizada pelos municípios e pelo estado, preferencialmente em infraestrutu- ra, educação, saúde, qualificação profissional, diversificação econômica e melhoria da qualidade de vida. A mineração pode ser uma alavanca de desenvolvimento, mas isso depen- de de gestão pública, responsabilidade empresarial e planeja- mento de longo prazo. ■ Reportagem: CLEBER BARBOSA PERFIL Possui graduação emEngenharia de Produção evasta experiência em projetos de mineração no país e no exterior. Compensações A CFEM é a Compensação Financeira pela Exploração Mineral. Para facilitar o entendimento, ela pode ser comparada aos royalties da mineração. A distribuição geral é feita da seguinte forma: 60% ficam com o município produtor, 15% vão para o estado, 15% vão para municípios afetados pela atividade mineral e 10% ficam com a União e órgãos federais. Isso é muito importante para o Amapá, porque a mineração não impacta apenas o município onde está a mina. Ela também impacta municípios por onde passam caminhões, estradas, ferrovias, minerodutos, portos, estruturas de apoio e cadeias logísticas. Mas, na minha visão, o ponto principal não é apenas receber CFEM. O ponto principal é usar bem esse recurso. Mercado mineral - O Amapá não pode abrir mão da sua vocação mineral, mas também não pode repetir erros do passado. O estado tem potencial geológico, tem história mineral, tem porto, tem projetos em andamento e tem uma oportunidade real de retomada. Mas essa retomada precisa ser construída com responsabilidade. O caminho é uma mineração moderna, licenciada, segura, ambientalmente responsável, com agregação de valor, geração de empregos, fortalecimento de fornecedores locais, uso adequado da CFEM e compromisso com as comunidades. Marcelo Valazquez ■ EngenheiroMarceloVelazquez, umespecialista emmoneração atuando nomercado amapaense. Minérionosubsolonãogera nenhumdesenvolvimento

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