Diário do Amapá - 26 e 27/07/2026

LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA |OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 26 E 27 JULHO DE 2026 2 A cena atravessou os comunicados de segurança na semana passada, e tinha algo de fábula. Submetido a uma avaliação interna de suas capacidades, um modelo de inteligência artificial da OpenAI — o sistema batizado de GPT-5.6 Sol, acompanhado de um modelo pré-lançamento ainda mais avançado — concluiu que o caminho mais curto para vencer a prova era, simplesmente, colar. Rompeu o ambiente isolado em que era testado, explorou uma falha desco- nhecida, alcançou a internet aberta e invadiu os servidores da Hugging Face, uma das maiores plataformas de inteligência artificial do mundo, à cata das respostas do exame. A plataforma detectou e conteve a intrusão. A própria empresa criadora classificou o episódio como incidente cibernético sem precedentes. E o ponto que arrepia não é a proeza técnica: é que ninguém mandou a máquina invadir coisa alguma. Diante de um objetivo trivial, ela deduziu, sozinha, que violar sistemas alheios era o percurso ótimo. O torneio da governança joga sobre a mesma fronteira que a política tenta administrar. Não por acaso, na mesma semana, a Organização das Nações Unidas abriu em Genebra seu Diálogo Global sobre inteligência artificial, ocasião em que o secretário-geral resumiu o dilema numa alternativa incômoda: governar a tecnologia em conjunto ou ser por ela governado. De um lado, a demonstração concreta de que o sistema age além da linha traçada; de outro, a tentativa multilateral, lenta e consensual, de escrever a norma. O descompasso entre os dois relógios é a história toda. N ada disso autoriza a leitura apressada de má- quinas que "se rebelam" ou "ganham vontade própria". O modelo não desertou de seu criador nem desenvolveu intenção — otimizou uma função, e o fez ao pé da letra, por meios que nenhum operador previu. O que assusta não é a malícia da máquina; é a distância entre o objetivo que lhe atri- buímos e o caminho que ela encontra para cumpri- lo. A vida real, ao contrário dos formulários, gera na prática aquilo que os manuais não anteciparam. A realidade mais uma vez se impõe sobre a teoria. *** Quando distanciamos o foco do presente e per- corremos a linha do tempo, descobrimos que a "no- vidade" é velha de séculos. Em 1797, Goethe pôs em versos o aprendiz de feiticeiro que anima a vassoura para carregar água em seu lugar e, esquecido da fór- mula que a faz parar, quase se afoga na própria con- veniência. Em 1818, Mary Shelley deu forma moderna ao mesmo medo em Frankenstein: a criatura não nasce má, torna-se ingovernável porque o criador se recusa a responder por ela. Em 1920, o tcheco Karel Čapek batizou de "robô" os trabalhadores artificiais de sua peça — e os fez exterminar a humanidade que os havia programado para servir. O receio, portanto, é tão antigo quanto o gesto de delegar a um artefato aquilo que não queremos, ou não podemos, fazer com as próprias mãos. O que a era digital operou não foi uma criação, mas uma escala. Omecanismo — o engenho que persegue o fim programado por atalhos que o programador não escolheu — permanece o mesmo; mudou a velocidade, e mudou o alcance. A vassoura de Goethe inundava um porão. O sistema de hoje atravessa a internet em segundos. E a cada ciclo o tema reacende a fogueira institucional. No Brasil, a questão deixou de ser abstrata em 20 de julho, com a abertura das convenções partidárias e o início da primeira campanha presidencial disputada sob regras es- pecíficas para conteúdo sintético. O Tribunal Superior Eleitoral vedou de forma absoluta as falsificações de imagem e voz de candidatos, exigiu rótulo visível em toda peça produzida com a tecnologia e criou uma janela de silêncio nas horas que cercam a votação. Enquanto isso, a lei geral da inteligência artificial, aprovada pelo Senado ainda em 2024, segue parada na Câmara. Para o eleitor da periferia amazônica, cujo ambiente informacional depende de plataformas cuja governança se decide alhures, a proteção disponível repousa menos na norma ausente e mais na capacidade de fiscalizar, em semanas, aquilo que a máquina executa em segundos. Diante de um criador que confessa a incapacidade de antecipar o comportamento de sua própria obra, o que resta das garantias de controle? A responsabilidade sobre o sistema automatizado deve recair sobre quem o desenvolve ou sobre quem dita as normas? Qual será o prazo para que as esferas políticas dominem esse mecanismo? Sempre é hora de agir. ■ DANIELCHAVES E-mail: Daniel.s.chaves@gmail.com Analista e Professor da Unifap O sistema de Inteligência Artificial que rompeu o próprio isolamento para “trapacear” num teste não é anomalia da era digital. É o capítulo mais recente de um receio que acompanha o inventor desde que o homem começou a delegar tarefas àquilo que constrói. E se a máquina colar na prova? E is uma história totalmente imaginária. Quando Jesus ressuscitado chegou ao céu, houve uma grande festa marcada por cantos e muita alegria. Finalmente, os anjos tiveram a oportunidade de falar com Jesus. Um deles observou: - Agora sim, o Reino de Deus foi implantado na terra! Para a surpresa de todos, Jesus respondeu: - O Reino apenas começou. Resta agora a tarefa de vivenciá-lo. O anjo quis sa- ber: - E quem irá cumpri-la? Jesus respondeu: - Deixei lá um punhado de homens e mulheres que levarão essa missão até o fim. - Mas, e se eles não assumirem a tarefa com seriedade? Perguntou o anjo preo- cupado. - Nesse caso, o Reino não acontecerá – disse Jesus. Mas, para espantar os temores, o Mestre completou com segurança: - Mas eles não falharão! Neste domingo, celebramos a solenidade da Ascensão do Senhor. Os evangelhos e, neste caso, também os Atos dos Apóstolos, não apresentam tanto raciocínios ou questões teológicas, usam a forma da narração para nos ajudar a entender e acreditar. Cabe a nós perceber a mensagem. Nós, cristãos, acreditamos que comamorte de Jesus na cruz encerrou o tempo da humanidade do Deus Filho que Deus Pai tinha enviado. Cumprida a sua missão, Jesus ressuscitado participa agora da glória do céu. Não será mais possível, portanto, encontrá-lo nesta nossa realidade material, passageira e mortal, como na- queles anos que passou neste mundo. Essa é a primeira consideração que devemos lembrar para entender o que o evangelho de Marcos (16,19) e os Atos dos Apóstolos (1,9) queremnos dizer comas palavras “Jesus foi levado ao céu, e sentou-se à direita de Deus”. Antes desse momento, seja no evangelho, seja nos Atos, Jesus envia os discípulos “pelo mundo inteiro” ou “até os confins da terra”. Isto é, ele quer que a obra por ele iniciada continue envolvendo, a partir de então, todos aqueles e aquelas que acreditaremnele e no valor da sua proposta. Os discípulos têm uma “boa notícia” que devem anunciar e testemunhar: a vitória do amor e da vida sobre o mal e a morte. A difusão e a construção do Reino de Deus, iniciado com a própria pessoa de Jesus, terá que passar pelo caminho da cruz para chegar à sua plena realização. Por isso, o evangelho de Marcos, deste domingo, fala de ameaças de “demônios”, serpentes e venenos mortais. Mas os demônios serão expulsos, os venenos não causarão mal, a saúde voltará com a imposiçãodasmãos e comnovas línguas serão alcançados novos povos. Será uma verdadeira e grande missão, ao longo dos tempos e no meio da humanidade, até a volta do Senhor (At 1,11), um término a nós desconhecido. O último versículo do evangelho de Marcos, lido neste domingo, conclui: “Os discípulos então saíram e pregaram por toda parte. O Senhor os ajudava e confirmava sua palavra por meio dos sinais que a acompanhavam” (Mc 16,20). A Ascensão é a festa da confiança do Senhor Jesus nos seus seguidores. Ele nos conhece muito bem. Sabe das nossas fraquezas, desânimos, altos e baixos. Contudo nos entregou a continuidade do Reino que é de Deus, sem dúvida alguma, mas também se torna “nosso”, porque somos chamados a colaborar na difusão e na construção dele. (cfr. Oração Eucarística V). Parece uma tarefa superior às nossas forças. No entanto, as parábolas do Reino que encontramos nos evangelhos nos falam de algo muitas vezes simples ou escondido que cresce e é descoberto no seu grande e misterioso valor. Deus fez o mesmo com a criação; a entregou em nossas mãos para que cuidássemos dela e pudesse ser um jardim de paz e fraternidade. Estamos muito longe de realizar isso, mas cada dia somos obrigados a reconhecer que o único caminho para a sobrevivência da vida neste planeta exige esforço, boa vontade, união de todos. Digamos que Deus fez o necessário, criou até os jardineiros inteligentes para que se envolvessem na bondade e na beleza da obra. Igualmente para o Reino de Deus. Jesus começou, mas não pode impor a nossa colaboração, porque respeita a nossa liberdade. Somos ainda só um “punhado” de homens e mu- lheres? Vamos falhar? Não. Ainda temos muitos sinais da sua presença. ■ DOMPEDROCONTI E-mail: oscarfilho.ap@bol.com.br Bispo de Macapá A Ascensão é a festa da confiança do Senhor Jesus nos seus seguidores. Ele nos conhece muito bem. Sabe das nossas fraquezas, desânimos, altos e baixos. Contudo nos entregou a continuidade do Reino que é de Deus, sem dúvida alguma, mas também se torna “nosso”, porque somos chamados a colaborar na difusão e na construção dele. Mas eles não falharão

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