Diário do Amapá - 02 e 03/08/2026
LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA |OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 02 E 03 AGOSTO DE 2026 2 D esde 22 de julho, vigora sobre parcela das exportações brasileiras aos Estados Unidos uma tarifa adicional de 25%, resultado de investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio norte-americano (USTR) com fundamento na Lei de Comércio de 1974; dois dias depois, em 24 de julho, sobreveio uma segunda sobretaxa, de 12,5%, motivada pela avaliação — segundo Washington — de que o Brasil não dispõe de mecanismos suficientes para impedir a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. A soma das duas medidas eleva, para determinados produtos, a carga tarifária até 37,5%; circulam ainda notícias, não plenamente consolidadas em fonte primária até o fechamento desta coluna, de uma extensão da alíquota a 50% sobre a totalidade das exportações brasileiras a partir de 1º de agosto — cifra que, por prudência metodológica, deve ser lida como provisória. A trajetória argentina, no mesmo período, seguiu direção oposta. O alinhamento ideológico entre Javier Milei e Donald Trump, somado ao Tratado de Comércio e Investimentos (ARTI), firmado emWashington em 5 de fevereiro de 2026, assegurou a Buenos Aires isenção tarifária para até 80% de suas exportações aos Estados Unidos — entre elas petróleo, pedras e metais preciosos e carne bovina, produtos que respondem por 2/3 do total exportado pela Argentina no primeiro semestre de 2026. Os efeitos já se fazem sentir na relação bi- lateral com o Brasil: as exportações brasileiras de veículos para o mercado argentino recuaram 1/3 no primeiro semestre, ao passo que a China superou o Brasil nas importações argentinas em US$ 333 mi- lhões, conforme dados relativos ao período de janeiro a maio. O episódio extrapola, contudo, a moldura estri- tamente bilateral e comercial. O governo brasileiro examina se o acordo entre Estados Unidos e Argentina fere as regras do próprio Mercosul — bloco cuja lógica pressupõe posição comercial externa comum entre seus membros. Sempre com o cuidado de ser preciso, não há, até o momento, decisão formal do bloco sobre a compatibilidade do acordo com seus estatutos, e qualquer leitura definitiva seria prematura. Resta saber se o Mercosul dispõe de instrumentos — ou de vontade política entre seus membros — para tratar essa assimetria como problema comum, e não apenas como contencioso bilateral entre Brasília e Buenos Aires. Até que ponto a tarifa é, de fato, instrumento comercial, e até que ponto se converte em variável da disputa eleitoral brasileira de outubro? Que espaço resta à integração sul-ame- ricana quando dois de seus fundadores respondem de formas tão distintas à mesma pressão externa? E, afinal, a quem cabe recompor a coesão de um bloco que parece, cada vez mais, dividido pela geopolítica de seus vizinhos do norte? A linha do horizonte, nunca esqueçamos, tem eleições - as quais a Direita sul-americana tem sido exitosa, com, talvez, a exceção do Brasil em Outubro, a maior do continente - e a expectativa de Trump em manter o Hemisfério Ocidental cada vez mais como uma América para os americanos, na explícita revisão da doutrina Monroe; ou, como ele mesmo diz, Don-Roe. Milei parece achar essa ideia boa, afinal, em uma Argentina desindustrializada e empobrecida, qual seria outra tábua de salvação? Calcemos seus sapatos, também. O que se observa, isto sim, para além do momento e seus eventos adjacentes, é o risco de fratura exposta: o de que a integração sul-americana caminharia sempre remando arduamente contra as grandes forças da geopolítica das hiper- potências. Em um mundo cada vez mais fragmentado, esse tipo de bifurcação não soa como novidade — soa como confirmação de um padrão: a centralidade dos alinhamentos bilaterais com a metrópole americana tende a sobrepor-se, quando testada, à arquitetura multilateral que a antecede. A ideia prevalece de que a força dos argumentos é testada, ao final e ao cabo, como sempre, pelo ar- gumento da força. ■ DANIELCHAVES E-mail: Daniel.s.chaves@gmail.com Analista e Professor da Unifap Sempre com o cuidado de ser preciso, não há, até o momento, decisão formal do bloco sobre a compatibilidade do acordo com seus estatutos, e qualquer leitura definitiva seria prematura. Resta saber se o Mercosul dispõe de instrumentos — ou de vontade política entre seus membros — para tratar essa assimetria como problema comum, e não apenas como contencioso bilateral entre Brasília e Buenos Aires. O argumento da força faz mais um teste no Brasil O homem foi nomeado mandarim. Daquele momento em diante, seria uma grande autoridade e precisava de um manto adequado ao cargo. Um amigo lhe indicou um bom alfaiate de seu conhecimento. Para poder confeccionar o manto, o alfaiate quis saber desde quando o homem era mandarim. Aquele senhor estranhou a pergunta, mas o alfaiate logo explicou: “É que um mandarim recém-nomeado fica tão deslumbrado com o cargo que mantém a cabeça altiva, ergue o nariz e estufa o peito. Assim sendo, tenho que fazer a parte da frente maior que a parte de trás. Anos mais tarde, o trabalho e a experiência o tornammais sensato e eu costuro o manto igual na frente e de trás. Com o passar dos anos, o seu corpo fica encurvado, semmencionar a humildade adquirida através de uma vida de esforços e trabalho. Então eu faço o manto de forma que as costas fiquem mais longas que a frente. Portanto – concluiu o alfaiate – tenho que saber há quanto tempo o senhor está no cargo para que a roupa lhe assente apropriadamente”. O novo mandarim saiu da loja pensando menos no manto e mais na sabedoria daquele simples artesão. No evangelho de Marcos do 25º Domingo do Tempo Comum, Jesus continua andando pelos caminhos da Galileia, ensina os seus discípulos e volta a falar da sua paixão, morte e ressurreição. Eles não compreendiam o que ele queria dizer. Estavam demais ocupados em outra questão. Animados, talvez, pela própria ambição, discutiam sobre quem seria o mais importante entre eles. Ao perceber o teor da disputa, Jesus derruba todas aquelas expectativas. Para oMestre quemquiser ser o primeiro seja aquele que se coloca no último lugar e serve a todos os demais. O que vale mesmo é a busca do bem dos irmãos, a disponibilidade para ser- vi-los, nada de briga pelo poder. Em seguida, para exemplificar a gratuidade do serviço, Jesus abraça uma criança e a coloca no meio deles afirmando que quem a acolherá, por causa do seu nome, estará acolhendo a ele em pessoa e aquele que o enviou: Deus Pai. Com efeito, uma criança era, e ainda é, totalmente dependente dos adultos. Só pode ser ajudada por generosidade, porque não tem poder algum para devolver algum favor e nem dinheiro para pagar a atenção recebida. Jesus fala aos discípulos, mas, no fundo, está apresen- tando a escolha dele de não ser um“messias” dominador, mas servidor, pronto para dar o exemplo de entregar a sua própria vida para que outros possam aprender a amar cada vez mais (Mc 10,45). Não podemos excluir que a memória desse ensi- namento de Jesus possa ter sidomotivada por divisões e disputas de poder naquelas primeiras comunidades cristãs onde foi escrito o evangelho de Marcos. No entanto, amensagemé de uma atualidade extraordinária entre pessoas e grupos da própria Igreja. Parece que a vontade de estar na frente e mandar nos outros é sempre uma grande tentação da qual não é fácil se livrar. Se também olharmos a situação atual da sociedade, existe uma verdadeira guerra para ocupar os primeiros lugares do poder em todos os âmbitos. As declarações são sempre juras de dedicação e humildade, mas depois, muitas vezes, na atuação prática acontece o contrário. No pensamento de muitos, quem chega a ocupar um cargo e não se organiza para se promover e subir mais é um incapaz que não soube aproveitar a oportunidade. Assim se perpetuam a corrupção e a descrença de que possa existir alguém que, estando em lugares de grande responsabilidade, consiga agir mais para o bem comum do que para os próprios interesses particulares. Para Jesus ser “últimos” não significa simplesmente ter humildade, verdadeira ou falsa que seja, mas saber de fato colocar os outros a nossa frente, trabalhar mais para o bem-estar dos demais do que para o nosso. Precisamos de autoridades que estejam a serviço do bem de todos, de maneira especial os mais necessitados e esquecidos. Segundo João 13,12-15, quando Jesus lavou os pés dos discípulos não disse que deixava de ser Mestre e Senhor, mas que era justamente nesta condição que os estava servindo de maneira tão exemplar. Um detalhe: na ocasião Jesus tirou o manto e cingiu o avental como faziam os servos. Não precisou de alfaiate. ■ DOMPEDROCONTI E-mail: oscarfilho.ap@bol.com.br Bispo de Macapá Não podemos excluir que a memória desse ensinamento de Jesus possa ter sido motivada por divisões e disputas de poder naquelas primeiras comunidades cristãs onde foi escrito o evangelho de Marcos. No entanto, a mensagem é de uma atualidade extraordinária entre pessoas e grupos da própria Igreja. Parece que a vontade de estar na frente e mandar nos outros é sempre uma grande tentação da qual não é fácil se livrar. O mandarim e o alfaiate
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