Diário do Amapá - 16 e 17/08/2026
LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA |OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 16 E 17 AGOSTO DE 2026 2 E ram sete e trinta e quatro da manhã de dez de agosto quando um sismo de magnitude sete vírgula quatro rompeu sob o departamento do Chocó, no litoral pacífico colombiano, e sacudiu simultaneamente quatro países. O epicentro ficou nas cercanias de San José del Palmar—e foi ali, no ponto teoricamente mais exposto, que não se contaram mortos. Os mortos apareceram em Cali, em Pereira, em Manizales, em Quibdó, em Armenia, cidades separadas do epicentro por centenas de quilômetros e que amanheceram em alerta vermelha, commilitares nas ruas e edif ícios no chão. O ponto que perturba não é geológico, é a geografia do desastre não coincidindo coma geologia do abalo. E o calendário político acrescentou à cena um detalhe que nenhum roteirista ousaria propor. Abelardo de la Espriella havia tomado posse na presidência da Colômbia três dias antes, em sete de agosto, em cerimônia realizada precisamente em Cali. Seus ministros mal haviam sido em- possados quando o governo declarou desastre nacional e pediu ajuda internacional, no quarto dia de mandato. Nem o mais previdente conseguiria se preparar. Na Venezuela, em vinte e quatro de junho, os dois abalos que se sucederam em trinta e nove segundos — sete vírgula dois e, logo depois, sete vírgula cinco — vieram de vinte e de dez quilômetros. Praticamente sob os pés. A terra não escolhe vítimas. A construção e a capa- cidade de preparo, sim, condicionama escolha perante o imponderável. Quando afastamos a lente do presente, a lição aparece datada e assinada. Em primeiro de novembro de 1755, o terremoto de Lisboa fez do desastre um objeto de administração pública, e o Marquês de Pombal distribuiu um questionário detalhado sobre o comportamento do tremor, hoje tido como um dos primeiros levantamentos sismológicos do mundo, e reconstruiu a cidade sobre a gaiola pombalina, estrutura tridimensional de madeira embutida na alvenaria — entre os primeiros edif ícios sismicamente protegidos da Europa. O Estado descobriu ali que a rocha não se governa, mas a parede sim, é governável. Em 1900, um sismo de sete vírgula sete marcou a Venezuela e per- maneceu como parâmetro máximo do país até junho passado. E em dezessete de agosto de 1999, quando um terremoto devastou o noroeste da Turquia ematou mais de dezessete mil pessoas, a Grécia foi o primeiro país estrangeiro a oferecer socorro; semanas depois, com Atenas atingida, a Turquia retribuiu na mesma moeda. Adiplomaciado terremotoentrounovocabulário das relações internacionais para descrever o que acon- teceu emseguida: omito do inimigo eterno não resistiu ao escombro compartilhado. Oquemudou de 1755 para cá não foi omecanismo, foi a velocidade com que ele se repete. Em junho, a Colômbia mandou equipes de busca e resgate para operar sobre estruturas colapsadas na Venezuela. Em dez de agosto, foi a Venezuela quem declarou publicamente ter recebido, nas suas horas mais escuras, o apoio colombiano—e ofereceu o seu. Quarenta e sete dias separaram os dois gestos. OBrasil entrou nessa contabilidade pelo lado de quemenvia: quarenta e quatro profissionais emmissão coordenada peloMinistério da Integração e do De- senvolvimento Regional, sendo trinta e seis bombeiros militares deMinas, São Paulo e Paraná, quatro quadros da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil e quatro técnicos da Anatel, encarregados de vasculhar o entulho com analisadores de espectro e antenas direcionais à procura de sinais de celular soterrados. Vieram ainda um hospital de campanha e cem purificadores de água movidos a energia solar, de cinco mil litros diários cada. Cabe a ressalva de que os balanços de mortos permanecem instáveis: na Colômbia oscilaram, nas primeiras vinte e quatro horas, entre poucomais de cememais de duzentos; naVenezuela, as contagens internacionais superam os cinco mil, enquanto os números oficiais iniciais forammuito menores, e a divergência não se resolveu. Paradoxalmente, é nas tragédias que a esperança se renova. Cerca de vinte e três mil pessoas ainda em abrigos temporários e um plano de resposta das Nações Unidas financiado em quarenta e dois por cento, num país onde sete milhões e novecentas mil pessoas já precisavam de assistência antes de a terra tremer. No mundo real, não há aviso prévio. ■ DANIELCHAVES E-mail: Daniel.s.chaves@gmail.com Acidadeassentadaexatamente sobre o epicentrodoterremotocolombianonão registrou umaúnicamorte. Não éanomaliaestatísticanem sorte. É ocapítulo mais recente de umaconstataçãoqueaengenharia formulou hámais de dois sé- culos e que cadageração se obrigaareaprender no escurodos escombros. Analista e Professor da Unifap Nada disso autoriza a leitura apressada de que a Colômbia escapou porque o tremor foi fraco. Foi o mais forte registrado no país na última década, segundo Julio Fierro Morales, diretor do Serviço Geológico Colombiano. A variável decisiva foi a profundidade: a ruptura ocorreu a cerca de cem quilômetros abaixo da superfície, o que distribui a energia por uma área vastíssima e a entrega ao solo já atenuada. A incerteza que faz tremer U m pequeno avião avançava em meio à noite. De repente, caíram os sistemas de comunicação, a orientação da rota e o painel de controle apagou-se. O avião voava às cegas. Os pilotos tentaram inutilmente concertar o defeito. Já estavam em pânico e pediram à aeromoça para descobrir se entre os passageiros tinha algum técnico em eletrônica. Não tinha. Mas uma passageira levantou e foi até a cabine de comando perguntando repetidamente: - Diga-me qual é o problema, talvez eu possa ajudar. Logo, perguntaram para ela se entendia de aparelhos eletrônicos. Se não soubesse mexer, devia voltar para o seu assento e não atrapalhar. Mas a mulher insistia e disse que sabia de algo que nunca tinha falhado no passado e que, talvez, tambémajudasse naquele momento. Amulher era astrônoma. Pediu omapa da viagem, a partida e o destino. Olhou bem para as estrelas que apareciam luminosas no céu na frente deles. Ao lado do piloto, ela conseguiu orientar o voo. Algum tempo depois, o esplendor da aurora anunciou que eles estavam salvos. O evangelho do Terceiro Domingo da Páscoa é a continuação da página bemconhecida dos discípulos de Emaús. Os dois peregrinos, antes desanimados, após o encontro com Jesus e reconhecendo que lhes ardia o coração, quando ele falava, voltaram para Je- rusalém. Contaram o que havia acontecido e como tinhamreconhecido Jesus “aopartir opão”.Oevangelista Lucas apresenta, assim, mais uma “aparição pós- pascal” do Ressuscitado. Desta vez, a comunidade está reunida e Jesus age e fala para confirmar a fé dos discípulos e explica qual será amissãodeles. Lembramos que o evangelho de Lucas foi escrito para os cristãos da segunda geração, ou seja, aqueles que não tinham conhecido Jesus e, provavelmente, nem os apóstolos. Portanto o que é apresentado vale igualmente para nós, porque quer responder àquelas perguntas que sempre aparecemquando queremos entendermelhor a novidade da Páscoa de Jesus e aprender a acolhê-la na fé. Com efeito, não temos palavras capazes de explicar algo que não faz parte da nossa experiência comum que passa, necessariamente, pelos nossos sentidos. O Ressuscitado é um fantasma? Alguém irreal? Pura imaginação? A essa questão, o evangelista responde com o pedido de Jesus para comer junto comeles. ORessuscitado é outra pessoa diferente da- quele Jesus que morreu na cruz? Os sinais da paixão confirmam que é o mesmo Crucificado que agora está vivo, mas não comamesma vidamortal anterior. É uma vida diferente, porque a morte está vencida pela ressurreição. Como o Ressuscitado ajuda os dis- cípulos a acreditar? Explicando as Escrituras, ou seja, lembrando as obras deDeus do passado, as promessas antigas, mas, sobretudo, afirmando que aqueles acontecimentos confirmavam definitivamente o amor de Deus coma humanidade. Esse anúncio de conversão e perdão dos pecados deverá ser proclamado a “todas as nações”, a começar por Jerusalém. Os discípulos terão que convencer os outros com uma vida “nova”. Essas palavras de envio para serem testemunhas “de tudo isso”, ou seja, do “evento” Jesus com sua vida, paixão, morte e ressurreição continuamatuais para nós hoje. Não temos condições de explicar a ressurreição a não ser praticando “a conversão e o perdão dos pecados”. Conversão significa vida nova, atitudes novas, capacidade de colocar o bem onde o mal toma conta, a fraternidade onde as divisões causam ódio e morte. O perdão dos pecados é o abraço alegre e misericordioso de Jesus que quer dizer a todos: "Vá em paz e não peque mais!". Ser testemunhas com a nossa vida de tudo isso não é um voo no escuro, sem rumo e direção. Não é acreditar num Ser superior qualquer, sem rosto e identidade. Ao contrário, é ter “os olhos fixos em Jesus", luz que vence as trevas. Mais que confiar nas nossas “técnicas” cheias de raciocínios e palavreados, é acreditar nele e seguir o seu exemplo. É nos deixar guiar pela novidade da sua Páscoa no dia a dia, semear esperança para salvar do desespero, ser pequenas auroras de amor para salvar da escuridão da indiferença. É ser “astrônomos” de bondade. ■ DOMPEDROCONTI E-mail: oscarfilho.ap@bol.com.br Bispo de Macapá Essas palavras de envio para serem testemunhas “de tudo isso”, ou seja, do “evento” Jesus com sua vida, paixão, morte e ressurreição continuam atuais para nós hoje. Não temos condições de explicar a ressurreição a não ser praticando “a conversão e o perdão dos pecados”. Uma viagem no escuro
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