Diário do Amapá - 23 e 24/08/2026
ENTREVISTA CONSULTOR | ENTREVISTA | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 23 E 24 DE AGOSTO DE 2026 14 Secretário Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis afirma que nova fronteira pode tornar a Região Norte superavitária em energia, reduzir dependência externa e financiar uma transição energética justa, segura e inclusiva. D iário do Amapá - ARegião Norte historicamente enfrenta desafios relacionados à dependência de combustíveis trazidos de outras regiões. De que forma a produção de petróleo pode inverter isso? Renato Dutra - Isso pode ser respondido de duas maneiras. Pri- meiro, a Região Norte tem uma peculiaridade muito grande no abas- tecimento de combustíveis, que é o modal hidroviário. Em grande parte da região, o abastecimento ocorre por meio dos rios e seus afluentes, para garantir que o combustível chegue tanto para uso da população quanto para geração de eletricidade nos locais mais dis- tantes. Estamos falando da região mais extensa do país e de um desa- fio que não encontramos da mesma maneira em outras regiões. O segundo ponto é que, no balanço de entradas e saídas dos energéti- cos, o Norte ainda precisa receber energia de outras regiões para fa- zer frente às suas necessidades. Um novo cenário, com uma grande produção proveniente do que se espera encontrar na MargemEqua- torial, permitiria transformar o Norte em uma região superavitária. Isso representa uma importante mudança de paradigma. Diário - Quanto às possíveis reservas de gás na Bacia Foz do Amazonas, como o gás seria transportado? Renato - O que se espera em toda a região que chamamos de Mar- gem Equatorial, desde a Foz do Amazonas até a Bacia Potiguar, é a existência de reservas de óleo e gás, que podem aparecer em produ- ção conjunta ou não. No caso específico do gás, hoje existe uma re- gra nova para o planejamento das infraestruturas. Um decreto tor- nou o planejamento das infraestruturas de gás natural determinativo e a Empresa de Pesquisa Energética, ligada ao governo federal e res- ponsável pelo planejamento energético do país, passou a fazer esse trabalho de forma centralizada. Quando for identificada uma fonte de oferta relevante, as infraestruturas necessárias poderão ser incluí- das no Plano Nacional Integrado das Infraestruturas de Gás Natural e Biometano. É nesse planejamento que estará o conjunto de infra- estruturas necessárias para dar vazão a uma eventual produção ori- ginada de uma área da Margem Equatorial. Como estamos falando de investimentos com um horizonte longo de maturação, existe também tempo para planejar a infraestrutura necessária ao escoa- mento de um gás natural que venha a ser declarado comercial na- quela região. Diário - Se esse potencial de gás for comprovado, a in- fraestrutura para levar essa produção ao mercado en- tra no próprio processo de desenvolvimento do campo? Renato - Exatamente. De maneira simplificada, quando uma des- coberta é feita e posteriormente declarada comercial, significa que existe viabilidade para produzir aquele volume identificado. Esse cálculo considera os investimentos necessários, inclusive a infraes- trutura para escoar o produto até a costa. Isso vale não apenas para o gás, mas também para o petróleo. Um campo de óleo e gás, so- mente de óleo ou somente de gás passa por esse procedimento, acompanhado pela Agência Nacional do Petróleo, que é a declara- ção de comercialidade. Quando isso acontece, significa que a deci- são de investimento, inclusive para a construção das infraestruturas necessárias, poderá ser tomada. Diário - Esse eventual gás produzido na Margem Equa- torial também poderia ajudar a reduzir a dependência de geradores a diesel e dos sistemas isolados existentes nas comunidades amazônicas? Renato - Os sistemas isolados são reflexo da própria dimensão continental da Região Norte. Podemos enfrentar esse desafio de al- gumas maneiras. Uma delas é substituir combustíveis mais poluen- tes por outros menos poluentes. Uma área isolada que hoje utiliza óleo diesel, por exemplo, pode utilizar um biocombustível. Outra possibilidade é substituir a geração a diesel pela geração a gás natu- ral ou interligar determinada região ao Sistema Interligado Nacional. No caso específico do gás natural, essa solução poderia surgir se houver uma produção na Margem Equatorial, especialmente na Foz do Amazonas. Esse gás poderia se transformar em fonte de supri- mento para geração de eletricidade. Temos um exemplo disso no Amazonas, com a região de Urucu, emCoari, que possui grande produção de gás natural e atende necessidades de geração termoelé- trica no estado. A ideia poderia seguir uma lógica semelhante, e existe uma expectativa muito grande em relação a essa possibilidade. Diário - Como as rendas podem garantir a transição? Renato - A produção de petróleo e gás não é contraditória com a transição energética porque pode permitir que façamos essa trans- formação de maneira gradual e, inclusive, ajudar a financiá-la. Por- tanto, petróleo, segurança energética, desenvolvimento e transição podem fazer parte de ummesmo planejamento de longo prazo. (En- trevista completa emwww.diariodoamapa.com.br ) ■ Edição: Cleber Barbosa Reportagem: Márcia Andrea Almeida PERFIL RenatoCabral Dias Dutra é o atual Secretário Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis doMinistério de Minas e Energia (MME). Breve currículo - Servidor de carreira, especialista em regulação e economista, possui mais de 18 anos de experiência com políticas públicas e regulação técnica no setor energético brasileiro. - Renato Dutra possui uma sólida e multidisciplinar formação com foco em economia, direito e regulação de energia: - Doutor em Ciências pelo Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ. - Mestre em Macroeconomia pelo Insper. - Bacharel em Economia e em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), além de bacharel em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Experiência Profissional - Dutra iniciou sua trajetória de destaque no setor público federal em 2013, quando foi aprovado em primeiro lugar no concurso público para o cargo de Especialista em Regulação da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). - Na ANP (2013– 2021), trabalhou nas áreas de Defesa da Concorrência e de Distribuição e Logística. Coordenou os leilões públicos de biodiesel e etanol e liderou o Projeto Estratégico Transparência de Preços na Revenda. Renato Dutra ■ Secretário Renato Dutra fala comexclusividade à rádio Diário FM, no programa PontoDeEncontro Petróleovaimudarrealidadedo Norteereforçarsoberaniadopaís
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