Diário do Amapá - 13 e 14/09/2026
LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA |OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 13 E 14 SETEMBRO DE 2026 2 E ntre dezembro de 2025 e setembro de 2026 o mapa eleitoral se moveu com rapidez incomum. No Chile, José Antonio Kast venceu o segundo turno de 14 de dezembro com 58,17% dos votos. Na Colômbia, Abelardo de la Espriella derrotou Iván Cepeda em 21 de junho por menos de um ponto percentual — 49,66% contra 48,70% na pré-contagem—, como presidenteGustavo Petro questionando a apuração. NaArgentina, La Libertad Avanza fez 40,84% nas legislativas de outubro de 2025. Na Alemanha, a AfD chegou a 44,1% na eleição estadual da Saxônia-Anhalt em 6 de setembro, contra 17,1% da CDU, e lidera a média nacional de intenção de voto com 28,1%. Na França, sondagem Odoxa de novembro passado projetava Jordan Bardella com 35% no primeiro turno de 2027, vencendo todos os adversários testados. No Parlamento Europeu, as três bancadas à direita do Partido Popular somam projeção de 221 das 722 cadeiras. Quem olha apenas as vitórias descreve uma onda; quem olha apenas as derrotas descreve um susto. As duas leituras erram pelo mesmo motivo: tratam como conjuntura aquilo que já é estrutura. Derrotada ou vencedora, a extrema direita sai dessas urnas com patamares impensáveis há uma década — e com a agenda que delimitou o terreno da disputa. É um processo cumulativo, como todo processo político. É ummovimento não apenas local, como também não é linear. Na Hungria, Viktor Orbán perdeu o poder em 12 de abril, depois de dezesseis anos; o Tisza, de Péter Magyar, fez 141 das 199 cadeiras com53,18%dos votos de lista e comparecimento de 78,99%, quase dez pontos acima da eleição anterior. Trump ganhou, perdeu, mas voltou. Em Portugal, André Ventura alcançou o segundo turno presidencial com 23,52% em janeiro e foi derrotado em 8 de fevereiro por António José Seguro, 66,84% contra 33,16%. O jogo da política não é uma corrida curta, é uma maratona Antes de tudo cabe distinguir a direita radical, antiliberal mas disposta a aceitar a urna, da extrema direita propria- mente dita, que recusa a própria soberania popular — e sustenta que o dado novo deste século não é a radicalização das margens, mas a normalização do que era marginal. O mecanismoé conhecido: ocentro-direita adotaovocabulário para reter eleitores, legitima a agenda e termina entregando o eleitorado ao extremo. A Saxônia-Anhalt é o retrato acabado: a CDU caiu de 37,1% para 17,1% em cinco anos. Perplexo o mundo assiste, na Alemanha, a Extrema- Direita conquistar sua maior vitória eleitoral desde o fim do Nazismo. *** As preocupações que amobilizamnão são invenções. Insegurança urbana, perda de controle sobre fluxos mi- gratórios, custo de vida, desindustrialização de regiões inteiras, desconfiança em instituições que prometeram e não entregaram. Em quase todos os casos ela chegou pri- meiro a temas que os partidos estabelecidos julgaram ile- gítimos, ou pequenos demais, para nomear. Seus argu- mentos têm adesão- conteste, mas existente - baseados nas frustrações entre vulnerabilizados, ansiosos, dentre os que se percebemdesalentados: soberania contra organismos supranacionais, ordem contra criminalidade, povo contra elites cosmopolitas, nação contra um mundo percebido como sem forma. As redes sociais e suas câmaras de eco construídas pelos algoritmos amplificam massivamente tais narrativas e mobilizam com agilidade a partir das dores do cidadão comum em um mundo com crises ambientais, econômicas, sociais e culturais visíveis desde 2008. O perigo, contudo, não está na eleição vencida — está no que se faz no cotidiano da política. Se a eleição é a política por outros meios, não só nos resultados eleitorais, como já dissemos, mora o perigo. ORelatórioV-Dem2026 registra 44 países emautocratização, onde vive 41% da população mundial, contra 18 em democratização, com 5%. O nível médio de democracia para o habitante do planeta regrediu ao de 1978. Dez novos auto- cratizadores foram identificados em 2025, entre eles Estados Unidos e Reino Unido; o índice de democracia liberal norte-americano recuou 24% em um único ano, e o país passou da 20ª para a 51ª posição entre 179. A liberdade de expressão é a dimensão mais atacada, e o Estado de Direito se deteriora em 22 países. Aqui a questão deixa de ser distante. Em 4 de outubro o Brasil vota, e o Datafolha de 3 de setembro aponta 39% para Lula e 32% para Flávio Bolsonaro, com46% a 44% em segundo turno. A pergunta que importa não é quemganha. É como as instituições e sua resiliência se comportam. É histórico que a extrema-direita não necessariamente ganha espaço por golpes. Às vezes, ela faz a democracia erodir pelas suas fragilidades, especialmente quando os liberais esquecemde como o social - e tudo que diz respeito ao manter a sociedade coesa - importa. ■ DANIELCHAVES E-mail: Daniel.s.chaves@gmail.com O calendário eleitoral de 2026 desmente tanto a tese da onda irresistível quanto a do susto passageiro. Analista e Professor da Unifap O perigo, contudo, não está na eleição vencida — está no que se faz no cotidiano da política. Se a eleição é a política por outros meios, não só nos resultados eleitorais, como já dissemos, mora o perigo. O Relatório V- Dem 2026 registra 44 países em autocratização, onde vive 41% da população mundial, contra 18 em democratização, com 5%. O nível médio de democracia para o habitante do planeta regrediu ao de 1978. Onde a Direita quer chegar? O homem foi nomeado mandarim. Daquele momento em diante, seria uma grande autoridade e precisava de um manto adequado ao cargo. Um amigo lhe indicou um bom alfaiate de seu conhecimento. Para poder confeccionar o manto, o alfaiate quis saber desde quando o homem era mandarim. Aquele senhor estranhou a pergunta, mas o alfaiate logo explicou: “É que um mandarim recém-nomeado fica tão deslumbrado com o cargo que mantém a cabeça altiva, ergue o nariz e estufa o peito. Assim sendo, tenho que fazer a parte da frente maior que a parte de trás. Anos mais tarde, o trabalho e a experiência o tornammais sensato e eu costuro o manto igual na frente e de trás. Com o passar dos anos, o seu corpo fica encurvado, semmencionar a humildade adquirida através de uma vida de esforços e trabalho. Então eu faço o manto de forma que as costas fiquem mais longas que a frente. Portanto – concluiu o alfaiate – tenho que saber há quanto tempo o senhor está no cargo para que a roupa lhe assente apropriadamente”. O novo mandarim saiu da loja pensando menos no manto e mais na sabedoria daquele simples artesão. No evangelho de Marcos do 25º Domingo do Tempo Comum, Jesus continua andando pelos caminhos da Galileia, ensina os seus discípulos e volta a falar da sua paixão, morte e ressurreição. Eles não compreendiam o que ele queria dizer. Estavam demais ocupados em outra questão. Animados, talvez, pela própria ambição, discutiam sobre quem seria o mais importante entre eles. Ao perceber o teor da disputa, Jesus derruba todas aquelas expectativas. Para oMestre quemquiser ser o primeiro seja aquele que se coloca no último lugar e serve a todos os demais. O que vale mesmo é a busca do bem dos irmãos, a disponibilidade para ser- vi-los, nada de briga pelo poder. Em seguida, para exemplificar a gratuidade do serviço, Jesus abraça uma criança e a coloca no meio deles afirmando que quem a acolherá, por causa do seu nome, estará acolhendo a ele em pessoa e aquele que o enviou: Deus Pai. Com efeito, uma criança era, e ainda é, totalmente dependente dos adultos. Só pode ser ajudada por generosidade, porque não tem poder algum para devolver algum favor e nem dinheiro para pagar a atenção recebida. Jesus fala aos discípulos, mas, no fundo, está apresen- tando a escolha dele de não ser um“messias” dominador, mas servidor, pronto para dar o exemplo de entregar a sua própria vida para que outros possam aprender a amar cada vez mais (Mc 10,45). Não podemos excluir que a memória desse ensi- namento de Jesus possa ter sidomotivada por divisões e disputas de poder naquelas primeiras comunidades cristãs onde foi escrito o evangelho de Marcos. No entanto, amensagemé de uma atualidade extraordinária entre pessoas e grupos da própria Igreja. Parece que a vontade de estar na frente e mandar nos outros é sempre uma grande tentação da qual não é fácil se livrar. Se também olharmos a situação atual da sociedade, existe uma verdadeira guerra para ocupar os primeiros lugares do poder em todos os âmbitos. As declarações são sempre juras de dedicação e humildade, mas depois, muitas vezes, na atuação prática acontece o contrário. No pensamento de muitos, quem chega a ocupar um cargo e não se organiza para se promover e subir mais é um incapaz que não soube aproveitar a oportunidade. Assim se perpetuam a corrupção e a descrença de que possa existir alguém que, estando em lugares de grande responsabilidade, consiga agir mais para o bem comum do que para os próprios interesses particulares. Para Jesus ser “últimos” não significa simplesmente ter humildade, verdadeira ou falsa que seja, mas saber de fato colocar os outros a nossa frente, trabalhar mais para o bem-estar dos demais do que para o nosso. Precisamos de autoridades que estejam a serviço do bem de todos, de maneira especial os mais necessitados e esquecidos. Segundo João 13,12-15, quando Jesus lavou os pés dos discípulos não disse que deixava de ser Mestre e Senhor, mas que era justamente nesta condição que os estava servindo de maneira tão exemplar. Um detalhe: na ocasião Jesus tirou o manto e cingiu o avental como faziam os servos. Não precisou de alfaiate. ■ DOMPEDROCONTI E-mail: oscarfilho.ap@bol.com.br Bispo de Macapá Não podemos excluir que a memória desse ensinamento de Jesus possa ter sido motivada por divisões e disputas de poder naquelas primeiras comunidades cristãs onde foi escrito o evangelho de Marcos. No entanto, a mensagem é de uma atualidade extraordinária entre pessoas e grupos da própria Igreja. Parece que a vontade de estar na frente e mandar nos outros é sempre uma grande tentação da qual não é fácil se livrar. O mandarim e o alfaiate
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