Diário do Amapá - 16/09/2026

| OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ QUARTA-FEIRA | 16 DE SETEMBRO DE 2026 2 LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA D e repente, o Brasil descobriu que sempre foi jovem, bonito e feliz nos anos 80. Basta um aplicativo, uma fotografia antiga e alguns comandos para transformar qualquer cidadão contem- porâneo em personagem de Grease. O sujeito acorda em 2026, olha para o espelho e descobre, com a ajuda da inteligência artificial, que teria ficado ótimo com cabelo armado, jaqueta colorida e aquela expressão de quem não fazia ideia de que o país estava mergulhado numa de suas longas ressacas históricas. A nova brincadeira é inocente. Pelo menos em princípio. O problema é que a nostalgia raramente fica satisfeita com a roupa. Primeiro vêm os cabelos grandes. Depois aparecem os carros antigos, as músicas, as cores, a televisão sem streaming, o telefone que não cabia no bolso e, finalmente, aquela frase que sempre chega disfarçada de sabedoria popular, quase sempre acompanhada de um suspiro dra- mático. Naquele tempo havia respeito. Havia mesmo. Também havia censura, perseguição política, tortura, cassações, ausência de eleições diretas para presidente e um Estado que tinha especial apreço por ensinar aos cidadãos, inclusive à força, os limites da liberdade. Mas essas pequenas inconveniências costumam desaparecer quando a memória é editada para caber numa postagem bonita. É uma especialidade nacional. O brasileiro olha para um período autoritário e consegue sentir saudade da ordem sem neces- sariamente se lembrar de quem tinha o privilégio de definir o que era ordem. A nostalgia é assim. Escolhe o cenário, elimina os figurantes e apaga do roteiro aquilo que estraga a fotografia. Não é dif ícil compreender o encanto. O Brasil atual oferece material de sobra para o saudosismo. Violência, corrupção, impunidade, instituições em permanente disputa, políticos transformando a vida pública em reality show e uma população exausta de assistir ao mesmo espetáculo com atores diferentes. Só que existe uma diferença monumental entre querer um país or- ganizado e querer um país obediente. A primeira coisa se chama democracia funcional. A segunda costuma vir acompanhada de farda. Talvez seja por isso que a inteligência artificial esteja fazendo tanto sucesso. Ela oferece ao brasileiro uma viagem ao passado sem o incon- veniente de realmente voltar para lá. Permite cabelos de brilhantina, roupas coloridas e uma juventude eterna, mas sem censura, sem medo e sem precisar descobrir como era viver quando determinadas opiniões podiam custar muito mais do que uma discussão nas redes sociais. É uma excelente tecnologia. Consegue até fabricar a memória que gostaríamos de ter. O problema é quando começamos a acreditar nela. ■ Grease, nostalgia e outras formas de esquecer a história E-mail: gregogiojsimao@yahoo.com.br Radialista e estudante de Filosofia Talvez seja por isso que a inteligência artificial esteja fazendo tanto sucesso. Ela oferece ao brasileiro uma viagem ao passado sem o inconveniente de realmente voltar para lá. Permite cabelos de brilhantina, roupas coloridas e uma juventude eterna, mas sem censura. GREGÓRIOJ.L. SIMÃO E m artigo anterior, tratei das Cartas de Pedro, do debate sobre a autoria e coautoria e alguns aspectos da Primeira Carta. Essa carta de Pedro dirige-se às comunidades do norte da Ásia Menor (onde, hoje, é a Turquia): Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos eleitos que são estrangeiros e estão espalhados no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia (1 Pd 1). Embora não haja qualquer referência que Pedro tivesse evangelizado na Ásia Menor. Essas comunidades eram compostas de colonos assentados pelo Império Romano, gregos e outros povos, convertidos do paganismo (1 Pd 4,3: baste- vos que no tempo passado tenhais vivido segundo os caprichos dos pagãos), além de alguns judeus e sírios que sempre se encontravam nas cidades co- merciais. É uma carta para estrangeiros, conforme vemos (1Pd 2,11-12): Caríssimos, rogo-vos que, como estrangeiros e peregrinos... Essas duas palavras em grego também descrevem a situação dessas pessoas. Estrangeiros (paroikois), significa estrangeiros residentes, que tinham o direito de residência, porém, não de cidadania. Já peregrinos (parepidemois) significa estrangeiros sem direito a residência. Estes não possuíam qualquer direito. Provavelmente, parte da comu- nidade estava nessa condição social. A carta usa os termos que lembram os israelitas do Antigo Testamento como migrantes ou estran- geiros no Egito e na Babilônia, e os “estrangeiros residentes” (com deveres, mas sem direitos) das cidades do Império Romano. Talvez esta tenha até sido a realidade sociológica desses cristãos, certa- mente é a experiência da fé diante de um mundo estranho ao projeto de Jesus. A Carta mostra que cristãos eram perseguidos e podemos identificar três tipos de perseguição no Novo Testamento, os romanos como agentes de perseguição (1Pd 2,13-14), os judeus como provo- cadores de perseguição (as primeiras perseguições foram obra dos judeus, por motivos religiosos: como a morte de Estevão por apedrejamento (At 7,58-60); e Tiago por espada (At 12,1-3, “irmão do Senhor”, e da população local, os preconceitos sur- giram à medida que os cristãos se mostravam diferentes dos demais (1Pd 4,3-4). Essa perseguição parou após o ano 70 com a destruição de Jerusalém e do Tempo. E a perseguição da população local. A Carta está cheia de referências que indicam perseguição: mesmo falando mal de vocês como se fossem malfeitores (1Pd 2,12). Sofrem por causa da justiça (1Pd 3,14). Quando vocês forem difamados (1Pd 4,14). Aqueles que criticam o comportamento de vocês (1Pd 2,12). Se alguém sofre como cristão (1Pd 4,16). Essa mesma espécie de sofrimento atinge os seus irmãos espalhados pelo mundo (1Pd 5,9). Os outros estranham que vocês não se entreguem à mesma torrente de perdição (1Pd 4,4). O confronto é inevitável, pois a religião cristã apresentava-se como a única verdadeira, de um Deus único, algo estranho e diferente para a época. Isso implicava em abandonar os deuses da sociedade (causando prejuízo a muitos como aos que viviam da fabricação de ídolos (1 At 19, 23ss), na rejeição da competência do Estado em questões religiosas e na rejeição do imperador como deus, algo perigoso. ■ APrimeira Carta de Pedro A Carta está cheia de referências que indicam perseguição: mesmo falando mal de vocês como se fossem malfeitores (1Pd 2,12). Sofrem por causa da justiça (1Pd 3,14). Quando vocês forem difamados (1Pd 4,14). E-mail: mariosaturno@uol.com.br Tecnologista Sênior MARIO EUGENIO

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