Diário do Amapá - 20 e 21/09/2026

LUIZ MELO Diretor Superintendente ZIULANA MELO Diretora de Jornalismo Circulação simultânea em Macapá, Belém, Brasília e em todos os municípios do Amapá. Os conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicações são com o propósito de estimular o debate dos problemas amapaenses e do país. O Diário do Amapá busca levantar e fomentar debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional. MÁRLIO MELO Diretor Administrativo DIÁRIODECOMUNICAÇÕES LTDA. C.N.P.J: 02.401.125/0001-59 Administração, Redação e Publicidade Avenida Coriolano Jucá, 456 - Centro CEP 68900-101 Macapá (AP) - Fone: 96-3084-2216 www.diariodoamapa.com.br COMPROMISSOCOMANOTÍCIA |OPINIÃO | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 20 E 21 SETEMBRO DE 2026 2 E m 15 de setembro, no palco do Dreamforce, em São Francisco, Dario Amodei, da Anthropic - a empresa responsável pelo Claude, o queridinho das IAs no momento - defendeu que a indústria coordene o ritmo de avanço da inteligência artificial: primeiromais transparência e mais investimento em segurança, depois padrões compartilhados e, ao fim, algum mecanismo internacional. Ao seu lado, Jensen Huang, da Nvidia, respondeu que a escolha entre velocidade e segurança é falsa. Três dias antes, Amodei já havia pedido publicamente que as empresas reduzissem o passo, e foi endossado por Sam Altman e por Elon Musk; em 13, Donald Trump chamou os defensores da desaceleração de “forças negativas” e reafirmou que sua preocupação é ganhar a corrida contra a China. No mesmo intervalo, Jacob Coxon, pesquisador que deixou a Anthropic, disse à BBC que há profissionais do setor genuinamente assustados e projetou riscos concretos em janelas de seis a doze meses. É muito alarme para pouca semana. O que acontece, de verda- de? O que chamamos de IA generativa é como uma máquina-de-completar. O sistema liga pontos — no caso, dados — e faz surgir uma figura, exa- tamente como nas brincadeiras de ligar números das revistas infantis. O que aparece na folha é a fi- gura possível a partir daqueles pontos, e apenas daqueles. Os pontos, por sua vez, são delimitados pelas expectativas inscritas no comando que deu início ao processo. O fato de que isso acontece se- miautomaticamente faz com que a IA generativa seja tão fantástica quanto assustadora. Fantástica porque funciona como áreas da nossa própria imaginação de que não havíamos dado conta. As- sustadora porque, no passado, olhávamos o mundo pela lente polida por experiências cognitivas an- teriores, e agora a lente está leitosa: com pouco conhecimento prévio é possível pedir à máquina que nos devolva uma sensação de insight. Parece insight. Não necessariamente é. Assim, quem tem repertório amplo pede muitos pontos, e a figura que se forma é de fato poderosa; quem tem repertório estreito recebe de volta, com acabamento impecável, o seu próprio estreitamento. A máquina não completa o que não lhe foi dado. Nessa visão, a IA não tem vida própria nem terá tão cedo, já que inteligência é algo mais complexo do que juntar informação. Estabelecido o que a máquina faz, resta a per- gunta mais interessante, que é política. As decla- rações catastrofistas teriam motivos possíveis não são poucos: desviar a atenção do debate sobre a bolha de investimentos em IA, pressionar por re- gulação que dificulte a vida de concorrentes chineses e de novos entrantes, construir justificativas dignas para novas rodadas de captação. Será que esse argumento é instrumental para encerrar o código aberto e concentrar poder técnico e econômico. Silvio Meira, ao comentar o episódio, reduziu a questão ao osso: não se trata de saber se o risco técnico é real, mas de entender por que o alarme tocou exatamente agora. O que se pediu ao governo americano — licenciamento prévio, veto estatal ao produto do concorrente, controle de exportação— corresponde a três das quatro alavancas clássicas de fechamento de mercado, e foi pedido, em um fim de semana, pela empresa que mais tem a perder caso o mercado permaneça aberto. Sinceridade e interesse não são coisas excludentes: é inteiramente possível que os alarmistas acreditem no que dizem e, ao mesmo tempo, lucrem com isso. A IA, em si, não é o perigo, do mesmo modo que aviões não eram o perigo em 11 de setembro de 2001. Humanos com IA são — e humanos com IA, contexto, amplitude e más intenções mais ainda, numa sociedade tão desigual quanto a nossa, onde o apocalipse e o paraíso sempre nos espreitaram. A novidade não é o abismo. É a velocidade com que a figura se completa, e o que nós pensamos, inevitavelmente, no que chamar de inteligência. ■ DANIELCHAVES E-mail: Daniel.s.chaves@gmail.com Analista e Professor da Unifap O que chamamos de IA generativa é como uma máquina-de- completar. O sistema liga pontos — no caso, dados — e faz surgir uma figura, exatamente como nas brincadeiras de ligar números das revistas infantis. O que aparece na folha é a figura possível a partir daqueles pontos, e apenas daqueles. A inteligência e seus riscos: o que é artificial? A o sair do buraco, viu-se um ratinho entre as patas do leão. Estacou, de pelos em pé, paralisado pelo terror. O leão, porém, não lhe fez mal ne- nhum. – Segue em paz, ratinho; não tenha medo do teu rei. Dias depois, o leão caiu numa rede. Urrou desesperadamente, debateu-se, mas quanto mais se agitava mais preso no laço ficava. Atraído pelos urros, apareceu o ratinho. – Amor com amor se paga – disse ele lá consigo e pôs-se a roer as cordas. Num instante conseguiu romper as malhas. E como a rede era das tais que rompida a primeira malha as outras se afrouxaram, pôde o leão deslindar-se e fugir. (Monteiro Lobato) O evangelho de Marcos do 26º Domingo do Tempo Comum é um conjunto de palavras de Jesus sobre assuntos diferentes. A linguagem usada é cheia de imagens e figuras. A primeira questão se põe quando alguém está expulsando de- mônios usando o nome de Jesus, mas não faz parte do grupo dos seus seguidores. Para o Mestre, tudo o que for feito em prol dos sofredores, em favor de uma vida mais livre e feliz, está a favor da grande causa do Reino e, portanto, não deve ser considerado ação inimiga. Até um gesto corriqueiro como oferecer um copo de água será reconhecido e recompensado. Outra questão: ninguém se deve considerar superior aos demais nos assuntos da fé e, sobretudo, não deve desprezar os pe- quenos e as pessoas simples que acreditam. Escandali- zá-los, zombando da confiança que eles têm emDeus, será considerada uma culpa gravíssima. Por fim, Jesus lembra que o pecado – o mal que nós praticamos – não é fantasia, é muito real e concreto. Toda a nossa pessoa está comprometida em planejá-lo e realizá-lo; para isso, usamos a nossa mente e o nosso corpo exemplificado com as mãos, os pés e os olhos. Se estamos convencidos que ameta da nossa fé é participar da alegria do Reino talvez seja necessário “cortar” algumas atitudes erradas que nos afastam do amor a Deus e ao próximo. Essas ações a serem eliminadas são apresentadas novamente, através de alguns dos meios corporais que usamos para pecar: as mãos, os pés e os olhos. Refletindo um pouco, talvez possamos reconhecer que os assuntos das palavras de Jesus, que nos parecem tão diferentes, possam ser reconduzidos a algo em co- mum e que não está tão longe da nossa experiência de vida. Todas aquelas situações escondem um conjunto de preconceitos e costumes nos quais podemos cair, sem perceber, numa armadilha da qual Jesus quer nos libertar. A primeira questão é sempre aquela de dividir omundo e as pessoas emamigos e inimigos, conforme, evidentemente, as nossas ideias individuais e ou os favores que elas nos oferecem ou nos recusam. Para isso, tudo serve: os partidos, as ideologias, as bandeiras de todas as cores e também as religiões. Facilmente falamos de “nós” e dos “outros”, quase sempre de antemão sem reconhecer o positivo do outro lado e o negativo também do nosso. Entre os preconceitos emvigor está tambémo de julgar a fé e as suas manifestações dos irmãos e irmãs, talvez nos achando mais esclarecidos ou particularmente ilu- minados. Uma coisa é nos ajudar a vivenciar melhor e mais profundamente a Palavra de Deus, a Liturgia e a Caridade com todas as suas mais diversas expressões, outra coisa é julgar ter a exclusividade das rezas e do bem a ser praticado. Por fim, nem sempre usamos as nossas mãos para abençoar e socorrer e as usamos, ao contrário, para ameaçar e afastar. Os nossos pés, também, nem sempre seguem o Caminho que é o próprio Senhor. Damos muitas voltas ou pre- ferimos ir longe. Os nossos olhos e a nossa cabeça agora viajam pelas telas dos smartphones e dos notebooks. Não serve “arrancar” os olhos, mas talvez desligar antes que o mal aconteça, sim. Nem precisa Jesus nos ameaçar com o “fogo do inferno”, basta reconhecer quanto o mal dos preconceitos, da soberba, da divisão, da cobiça e de tantos outros pecados acaba entristecendo a nossa vida pessoal, das nossas famílias e comunidades. Se cairmos em alguma dessas armadilhas, precisamos de alguém que venha roer as malhas da rede que nos prende. Até um ratinho ajuda, mas muito melhor se for Jesus com o seu amor. ■ DOMPEDROCONTI E-mail: oscarfilho.ap@bol.com.br Bispo Emérito de Macapá Refletindo um pouco, talvez possamos reconhecer que os assuntos das palavras de Jesus, que nos parecem tão diferentes, possam ser reconduzidos a algo em comum e que não está tão longe da nossa experiência de vida. Todas aquelas situações escondem um conjunto de preconceitos e costumes nos quais podemos cair, sem perceber, numa armadilha da qual Jesus quer nos libertar. O leão e o ratinho

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