Diário do Amapá - 04 e 05/10/2026

ENTREVISTA ESCRITORA | ENTREVISTA | DIÁRIO DO AMAPÁ DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA | 04 E 05 DE OUTUBRO DE 2026 14 A literatura produzida no Amapá ganha destaque no cenário cultural nacional com a premiação da escritora amapaense Lucia Tucuju na primeira edição do Prêmio João e Júlia do Rio. A artista indígena do povo Galibi Marworno. D iário doAmapá - Você costuma dizer que sua es- crita nasce da oralidade. Emquemomento da sua vida você percebeu que a palavra (fala ou escrita) seria seu instrumento de resistência? Lúcia Tucuju - Foi nomomento que eume encontrei numa dificul- dade quando eume tava parame formar professora que eu não tinha o domínio de turma, né? Então naquelemomento eu senti que eu tinha que voltar nasminhas raízes. Foi naquelemomento da de dificuldade que eu pensei: “Aí que eu vou investir na nessa questão daminha histó- ria e vou escrever, vou contar as histórias domeu povo, de onde eu vim. Diário - Qual suamaior inspiração para desenvolver es- sas histórias? Lúcia - Minha maior inspiração sempre foi, é a vovó. Minha avó é a base de tudo, tudo que eu escrevo é inspirado nela. Diário - Quando você trabalha comcrianças, o quemais te toca como elas recebemas narrativas da própria cul- tura? Lúcia - O que me toca é o próprio encantamento. Quando vejo que elas vibram. Quando eu conto as histórias, quando eu uso os adere- ços, quando eu pego, levanto omaracá e o e os olhinhos delas bri- lham, é, no quando a gente entoar um canto, quando a gente faz uma dança do toré. É, me encanta muitomesmo realmente é as crianças. É a forma como elas interagem, a curiosidade delas também. A inocên- cia. É, a inocência, tudo isso. A forma como recebem, muito recepti- vas e mais, como é que eu posso dizer?Mais claras também, com essa pureza muitome faz seguir ver que nem tudo também está perdido. Diário - Em eventos literários e mesas de discussão, como o FLACC, você se tornou uma voz sobre identi- dade e território. Como você prepara os assuntos para essas programações? Lúcia - Olha, na verdade, eu leio, eu penso no que eu vou fazer nas experiências, na bagagemque eu já trago de outras experiências de outros eventos que eu participomuito. Mas, na verdade, quando eu me deparo ali como público, às vezes o que eu pensei em falar, o que eu pensei emdizer, dinâmica que eu pretendia fazer, muda. Tudo de- pende de acordo como público. Tipo aqui, é, foi um, eu pensei em fa- zer agora uma proposta e as coisas forampara umoutro rumo. Às ve- zes o plano vai mudando. Às vezes o que é planejado não dá certo. Às vezes vai muito tambémdo da criatividade e eu trabalho assimmuito com lúdicos. Sim. Com aquela minha coisa tambémda intuição, do que eu trago de ancestral também. Diário - Você costuma transitar entre literatura, contação de histórias, educação e teatro. O que é que cada uma dessas linguagens te permite dizer que a outra não alcança? Lúcia - Uma foi puxando a outra. Na verdade, eu vim de uma tradição oral, onde eu vi histórias que vovó contava na beira do rio, enquanto descascava mandioca, quando a gente ia dormido dentro do mosquiteiro. Então o mais forte, mesmo assim, o que é mais latente em mim são as narrativas, são as histórias de tradi- ção oral. Mas eu sempre Eu já fazia teatro sem nunca ter visto em teatro na minha vida. Ali eu botava um lençol no quintal, na bei- ra da casa, na ponta na de uma árvore ali. Eu era o Iara, eu era Matinta. Nunca tinha visto em teatro na minha vida. Quando eu fui pro Rio, que eu comecei a fazer teatro, uma coisa foi puxando a outra. Mas se eu for falar assim, o que mais me move mesmo assim, que é minha paixão, que é que é uma coisa assim, que é do coração, que entra pelas minhas entranhas, é a literatura. Porque ali, através da literatura, pode-se experimentar um pouco de tudo, a oralidade que eu trouxe, transformei a minhas as minhas histórias, história que eu trago da minha da minha infância. Eu transformei para os livros, dali eu levo para o teatro, porque eu já levei a contação de história para o teatro que chegou nos grandes teatros. Já fui para a Europa contando história através do meu canto, dos adereços de dança, essas coisas. Diário - As narrativas indígenas muitas vezes são li- das sob a lente da exógena. Você sente que há mais abertura, de quem realmente representa Os povos? Lúcia - Ainda não está totalmente aberto, ainda está essa coisa muito é um processo, nós estamos caminhando a passos de for- miguinha. Já está mais avançado do que da época quando eu co- mecei, que eu comecei para as escolas mesmo, os eventos, fui como contadora de história, ainda nem era escritora, ainda nem era atriz, mas como sempre eu gostei de tudo isso, eu procurei agregar e a oportunidades foram surgindo e eu fui cada vez foi um leque que foi se abrindo e eu pude e colocando um pouco de tudo, mas assim existe essa coisa ainda mesmo da contação. ■ Edição: CLEBER BARBOSA Texto: BEATRIZ SMITH/PMCC PERFIL Lucia é escritora, atriz, roteirista, narradora de histórias e professora indígena do povo Galibi Marworno, doAmapá. PRINCIPAIS EXPERIÊNCIAS - Integrante da Academia Internacional de Letras do Brasil e do coletivo Mulherio das Letras Indígenas, ela também é professora de Literaturas Indígenas em cursos de pós- graduação. - A premiação aconteceu na quinta-feira, 25 de setembro, no Teatro Carlos Gomes, reunindo escritores, artistas e agentes da cadeia do livro e da leitura. A iniciativa é realizada pela FLUP em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro e foi criada para celebrar trajetórias e iniciativas que contribuem para movimentar e fortalecer a literatura, a leitura e a cultura na cidade. - A 16ª FLUP é apresentada pelo Ministério da Cultura, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria de Cultura e Shell. Tem patrocínio master da Shell por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, patrocínio da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e Secretaria de Cultura, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura - Para Lucia Tucuju, receber o reconhecimento em uma iniciativa de alcance nacional representa uma alegria especial e também a valorização de uma trajetória construída a partir da memória, da identidade e dos saberes indígenas. Lucia Tucuju ■ Artista, escritora, atriz, contadora de histórias e ativista indígena, Lucia Tucuju, no Rio de Janeiro A literatura infantil nacional reconhece a obra de Lúcia Tucuju

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