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emARIO DO AMAPÁ e QUINTA-FEIRA 109 DE JANEIRO DE 2020
Opinião
1
jornal ,,
,,
DIARIO AMAPA
LUIZ MELO
ZIULANA MELO
ZIULANA MELO
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conceitos emitidos em artigos e colunas são de responsabilidade dos seus autores e nem
sempre refletem a opinião deste Jornal. Suas publicaçCies são com o propósito de estimular o
debate dos problemas amapaenses e do país. O
Diário do Amapá
busca levantar e fomentar
debates que visem a solução dos problemas amapaenses e brasileiros, e também refletir as
diversas tendências do pensamento das sociedades nacional e internacional.
e
JOÃO BAPTISTA HERKENHOFF - PALESTRANTE E ESCRITOR
Articulista
As alegrias de um aposentado
A
lgumas pessoas celebram felizes a
aposentadoria. Outras a recebem
com um certo sofrimento. De minha
parte tive uma sensação de vazio quando
me aposentei.
Juiz aposentado, professor aposentado?
Isto não é profissão. A condição de apo–
sentado não desmerece ninguém. Contudo
não define uma profissão.
Certo dia veio a inspiração e eu me auto–
defini: sou um Professor itinerante. E é isso
que tenho feito. Ministro seminários e pro–
firo palestras pelo Brasil afora.
Se o aposentado sentir-se feliz, sorvendo
simplesmente a aposentadoria, essa atitude
não merece qualquer reparo. Ele fez jus ao
que se chama ócio com dignidade (otium
cum dignitate).
O pedagogo tcheco Comenius
ensina:
"No ócio, paramos para pensar.
Paramos externamente para correr
no labirinto do autoconhecimento.
Não se trata de perder o tempo,
mas de penetrar no tempo para
mergulhar no essencial."
Se quem se aposentou deve des–
frutar da aposentadoria serenamente,
numa situação inversa a aposentadoria
não tem de marcar, obrigatoriamente, um
encerramento de atividades.
O aposentado tem experiência e pode
transmitir experiência, o que resulta num
benefício para a sociedade.
Triste é constatar que, em algumas situa–
ções, a aposentadoria é insuficiente para
os gastos da pessoa e de sua família
~---
obrigando o aposentado a trabalhar
para complementar o parco bene–
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fício que lhe é pago. Nestas hipó–
teses, estamos diante de um grande
desrespeito
à
dignidade da pessoa
humana.
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favorecimeJJto osinativos ' '
Se alguma diferença devesse ser
estabelecida entre ativos e inativos
seria para aquinhoar com favoreci–
mento os inativos, uma vez que a idade
provecta cria gastos com saúde, que nor–
malmente não alcançam os servidores mais
jovens.
No meu caso não continuei trabalhando
para suplementar renda, mas sim para aten–
der um apelo existencial.
Gosto de viajar, alegra-me conhecer luga–
res e pessoas, minha mulher também gosta
e aí vamos nós desbravando o Brasil.
e
INGERE. BURNETT-ZEIGLER - PROFESSORA ASSISTENTE DE PSIQUIATRIA DA UNIVERSIDADE NORTHWESTERN.
Articulista
As mulheres negras, fortes e estressadas
A
pesar de tudo isso, menos de 50%
das negras adultas com necessidades
mentais recebem tratamento. A ver–
gonha é o principal empecilho. E geral–
mente preferem um(a) profissional
negro(a), embora haja poucos assistentes
sociais, psicólogos e psiquiatras de cor.
Nas comunidades de baixa renda, esses
serviços são raros e as listas de espera,
longas. Para piorar, mais de 16% delas
não têm seguro-saúde, e a maioria não tem
condições de arcar com o tratamento.
Enquanto isso, o desgaste psicológico
de ser uma "mulher negra forte" afeta a
mente e o corpo.
Tradicionalmente, ela busca força em
Deus. A igreja oferece um espaço para o
companheirismo, o apoio social e a orien–
tação espiritual; entretanto, nem sempre
aprova o tratamento secular da saúde men–
tal e os fiéis podem achar que sua fé está
sendo posta
à
prova se procurarem uma
ajuda extra.
Para substituir a terapia, algumas pes–
soas lidam com a ansiedade consumindo
alimentos nocivos e/ou comendo demais,
fumando, abusando das bebidas alcoóli–
cas, passando tempo demais na cama ou
vendo tevê - e, embora esses comporta-
mentos até ofereçam alívio tempo–
rário, o estresse e a depressão
podem surgir na forma de irrita–
bilidade, raiva, dores físicas e
doenças crõnicas.
O estresse e a depressão estão
intimamente ligados a problemas
crõnicos de saúde como obesida–
de, diabete e hipertensão, predo–
minantemente entre as negras, cuja
expectativa de vida é três anos menor
que a das brancas (78 anos contra 81).
A Sra. T. lembra a minha avó, que saiu
de Montgomery, no Alabama, para morar
em Chicago, mãe solteira fugida de um
relacionamento abusivo com um alcoó–
latra. Morou no conjunto habitacional
Jane Addams, era costureira de dia e cur–
sava o Herzl Junior College
à
noite. Gra–
ças ao trabalho, evitou recorrer a assis–
tência pública, conquistou um diploma
universitário, fez mestrado e conseguiu
economizar a ponto de garantir minha
educação em uma das melhores institui–
ções do país. Ela também foi assaltada
uma vez, chegando em casa com a bolsa
em pedaços para provar sua resistência.
Minha avó foi o símbolo máximo da
"mulher negra forte".
''
O
estresse
ea
depressão
estão intimamente
ligados
a
problemas
crônicos de
saúde como obesidade,
diabete
e
hipertensão.
''
Mas e as dificuldades pessoais
que enfrentou, a tristeza, o medo?
Aposto que sentiu tudo isso, só
que nunca falamos a respeito.
Muitas negras foram condi–
cionadas a acreditar que têm de
ser fortes para sobreviver, mas o
fato é que não podemos manter a
força da mulher negra sem reco–
nhecer o estresse que a acompanha;
do contrário, estabelecemos expec–
tativas pouco razoáveis para os limites
de que ela é capaz de aguentar.
Algumas mudanças nesse sentido já vêm
acontecendo: grupos como o Black Girl in
Om e Gir!Trek estão trabalhando na cons–
cientização sobre a importância do auto–
cuidado e fornecendo opções para um estilo
de vida mais saudável.
Precisamos acabar com a narrativa única
do que significa ser uma negra forte. As
mulheres de cor tiveram que tirar forças da
necessidade de suprir a si mesmas e suas
famílias quando não tinham mais ninguém
com que contar, o que deve ser aplaudido
em pé - mas há força também na vulnera–
bilidade, no alívio de saber que não se está
só e no poder de reconhecer o momento de
pedir ajuda.